NICHOLAS SPARKS
UM MOMENTO INESQUECVEL
Ttulo original: A Walk to Remember
Traduo de Jaime Arajo
     EDITORIAL PrESENA - 1999
Depsito legal n 159 586/00
Para os meus pais, com amor e saudades.
E para os meus irmos,
do fundo da minha alma e do corao.

Micah Sparks
AGRADECIMENTOS

          Como sempre, devo agradecer  minha mulher, Cathy.
Fiquei muito feliz quando aceitou a minha proposta de casamento.
Sinto-me ainda mais feliz hoje, porque passados dez anos sinto
por ela o mesmo que sentia na altura. Obrigado pelos melhores
anos da minha vida.

          Queria agradecer a Miles e a Ryan, os meus filhos, que
ocupam um lugar especial no meu corao. Amo-vos. Para eles, sou
apenas o Pap.

          Obrigado tambm  Theresa Park, a minha agente
literria da Sanford Greenburger Associates, minha amiga e
confidente. As palavras nunca so suficientes para expressar o
quanto fizeste por mim.

          Jamie Raad, revisora dos meus textos na Warner Books,
merece tambm a minha sincera gratido por estes ltimos quatro
anos. s o mximo.

          Depois h aqueles que me tm apoiado sempre ao longo
dos anos: Larry Kirshbaum, Maureen Lgen, John Aherne, Dan MandeI,
Howie Sanders, Richard Green, Scott Schwimer, Lynn Harris, e
Denise Di Novi - sinto-me verdadeiramente privilegiado por ter
podido trabalhar convosco.
PRLOGO

          Aos dezassete anos, a minha vida mudou para sempre.
          Sei que h pessoas que se interrogam quando digo isto.
Olham-me de modo estranho como se a tentar perceber o que poderia
ter acontecido nessa altura, embora raramente me d ao trabalho
de explicar. Porque vivi aqui a maior parte da minha vida, no
acho que tenha de faz-lo, a no ser  minha maneira, e isso
levaria mais tempo do que a maioria das pessoas est disposta a
conceder-me. A minha histria no pode ser resumida em duas ou
trs frases; no pode ser apresentada sinteticamente de modo que
as pessoas compreendam de imediato. Apesar de j terem passado
quarenta anos, os que ainda aqui vivem e que me conheceram
naquele ano aceitam sem perguntas a minha falta de explicao. De
certa maneira, a minha histria  tambm a histria deles, pois
foi uma coisa pela qual todos passaram.
          Porm, foi comigo que tudo se passou mais de perto.
          Tenho cinquenta e sete anos, mas ainda consigo
lembrar-me de tudo o que sucedeu naquele ano, at ao mais pequeno
pormenor. Recordo-o vrias vezes, dando-lhe vida de novo, e
percebo que quando o fao sinto sempre uma estranha combinao de
tristeza e alegria. H momentos em que me apetece fazer com que
os ponteiros do relgio andem para trs e livrar-me de toda essa
tristeza, mas tenho a sensao de que, se o fizesse,
desapareceria tambm a alegria. Assim, fico com as recordaes 
medida que elas surgem, aceitando-as todas, deixando que me guiem
sempre que possvel. Isto acontece com mais frequncia do que eu
gostaria de reconhecer.

     Estamos no dia 12 de Abril do ltimo ano antes do novo
milnio. Saio de casa e olho  minha volta. O cu apresenta-se
encoberto e cinzento, mas ao descer a rua reparo que os cornisos
e as azleas esto em flor. Aperto o casaco, no totalmente. O
tempo est fresco, embora saiba que ser apenas uma questo de
semanas antes de se tornar agradvel e de os cus cinzentos darem
lugar queles dias que fazem da Carolina do Norte um dos lugares
mais belos da terra.
     Suspiro e sinto que tudo regressa de novo.
     Fecho os olhos e os anos comeam a andar para trs, como os
ponteiros de um relgio rodando em sentido contrrio. Como se
atravs dos olhos de outra pessoa estivesse a ver-me
rejuvenescer; vejo o cabelo mudar de grisalho para castanho,
sinto suavizarem-se as rugas em torno dos olhos, os braos e as
pernas tornarem-se vigorosos. As lies que fui aprendendo com a
idade vo ficando menos claras, e a minha inocncia regressa 
medida que aquele ano agitado se vai aproximando.
     Depois, como eu, o mundo comea a mudar: as estradas
estreitam-se e algumas transformam-se em cascalho, os subrbios
so substituidos por quintas, as ruas do centro da cidade
enchem-se de gente olhando para as montras ao passarem pela
padaria Sweeney e pelo talho Palka. Os homens usam chapus, as
mulheres vestidos. No edifcio do tribunal, ao cimo da rua, o
relgio da torre d as horas...
     Abro os olhos e detenho-me. Estou em frente da igreja
baptista e, quando olho para a fachada do edifcio, sei
exactamente quem sou.
     Chamo-me Landon Carter e tenho dezassete anos.
     Esta  a minha histria; prometo no deixar nada de fora.
     No incio vo sorrir, e depois vo chorar - no digam que
no vos avisei.
CAPTULO 1

     Em 1958, Beaufort, na Carolina do Norte, situada na costa
perto de Morehead City, era uma pequena cidade, igual a tantas
outras do Sul. Era o gnero de lugar onde a humidade subia tanto
no Vero que sair de casa para ir buscar o correio dava-nos logo
vontade de tomar um duche, e os midos andavam descalos de Abril
at Outubro sob os carvalhos ornados de barbas-de-velho. As
pessoas acenavam de dentro dos carros sempre que viam algum na
rua, quer conhecessem ou no, e o ar cheirava a pinheiros, sal e
mar, um aroma nico das Carolinas. Para muitas daquelas pessoas,
pescar no Pamlico Sound ou apanhar caranguejos no rio Neuse era
um modo de vida, e ao longo de toda a Intercoastal Waterway
viam-se barcos atracados. A televiso transmitia apenas em trs
canais, mas a televiso nunca fora importante para os que ali
cresceram. As nossas vidas centravam-se, em vez disso,  volta
das igrejas, que s dentro dos limites da cidade eram dezoito.
Tinham nomes como Igreja Crist da Assembleia da Amizade, Igreja
do Povo Perdoado, Igreja da Expiao de Domingo e depois, claro,
havia as igrejas baptistas. Na minha juventude, a Igreja Baptista
era de longe a congregao mais popular das redondezas e havia
igrejas baptistas praticamente em cada esquina da cidade, cada
uma delas considerando-se superior s outras. Havia igrejas
baptistas de todas as variedades - Baptistas da Livre Vontade,
Baptistas do Sul, Baptistas Congregacionistas, Baptistas
Missionrios, Baptistas Independentes... bem, j devem ter ficado
com uma ideia.
     Naquele tempo, o grande acontecimento do ano era promovido
pela igreja baptista do centro da cidade - a Sulista - juntamente
com a escola secundria local. Todos os anos encenavam uma pea
de Natal na Beaufort Playhouse, que na verdade, era uma pea
escrita por Hegbert Sullivan, um pastor que pertencia quela
igreja desde que Moiss abriu o mar Vermelho. Est bem, talvez
no fosse assim to velho, mas era to velho que quase se podia
ver atravs da sua pele. Tinha a pele sempre meio pegajosa e
translcida - os midos juravam que conseguiam mesmo ver o sangue
a correr nas suas veias e o seu cabelo era to branco como os
coelhinhos que se vem nas lojas de animais por altura da Pscoa.
     Pois bem, ele escreveu uma pea chamada O Anjo de Natal,
porque no queria continuar a encenar aquele velho clssico de
Charles Dickens, Cntico de Natal. Na sua opinio, Scrooge era um
pago que alcanou a sua redeno apenas por ter visto fantasmas,
no anjos e, de qualquer maneira, quem poderia garantir que eles
tivessem sido enviados por Deus? E se os fantasmas no tinham
sido enviados directamente do cu, quem poderia dizer que Scrooge
no iria voltar  sua conduta pecaminosa? A pea no o dizia
propriamente no final de certa maneira, falava-se da f e tudo
isso mas Hegbert no confiava em fantasmas se eles no fossem de
facto enviados por Deus e tal no era explicado numa linguagem
clara. Esse era o grande problema da pea. Alguns anos antes, ele
tinha alterado o final, fazendo a sua prpria verso, com o velho
Scrooge a transformar-se em padre e tudo, partindo para Jerusalm
a fim de encontrar o lugar onde Jesus em tempos ensinara os
escribas. No foi muito bem recebida nem sequer pela comunidade
de fiis, sentados na plateia assistindo ao espectculo com os
olhos arregalados e o jornal local disse coisas do gnero:
"Embora, sem dvida, interessante, no  exactamente aquela pea
que todos ns aprendemos a conhecer e a amar...".
     Hegbert decidiu ento tentar escrever a sua prpria pea.
Tinha escrito sermes a vida inteira, e alguns deles, tnhamos de
admitir, eram realmente interessantes, especialmente quando
falavam da "ira de Deus caindo sobre os fornicadores" e desse
gnero de coisas.  que lhe fazia mesmo o sangue ferver,
digo-vos, quando falava dos fornicadores. Essa era a sua
verdadeira paixo. Quando ramos mais novos, eu e os meus amigos
escondamo-nos atrs das rvores e
gritvamos "O Hegbert  um fornicador!" quando o vamos descer a
rua. Ramo-nos como idiotas, como se fssemos as criaturas mais
espirituosas que j tinham habitado o planeta.
     O velho Hegbert parava de repente, as suas orelhas
levantavam-se - juro por Deus, elas mexiam-se mesmo - e o seu
rosto ganhava um tom vivo de vermelho, como se tivesse acabado de
beber gasolina, e as veias grandes e verdes do pescoo comeavam
a dilatar-se, como o rio Amazonas naqueles mapas da National
Geographic. Olhava de um lado para o outro, os olhos muito
cerrados tentando descobrir-nos e, em seguida, de modo igualmente
repentino, comeava a ficar plido novamente, voltando quela
pele de peixe, mesmo diante dos nossos olhos. Bem, era digno de
ser visto, disso no h dvida.
     Ento ficvamos escondidos atrs de uma rvore e Hegbert
(mas quem so os pais que do o nome de Hegbert a um filho?)
permanecia ali  espera que nos rendssemos, como se achasse que
ramos assim to estpidos. Tapvamos a boca com as mos para
evitar rir alto, mas, de alguma maneira, ele conseguia sempre
perceber quem ramos. Ficava a olhar de um lado para o outro e,
de repente, parava, os olhos pequenos e brilhantes apontados na
nossa direco, atravessando directamente a rvore. "Sei que s
tu, Landon Carter", dizia, "e Deus tambm o sabe." Deixava que
pensssemos nisso durante um minuto ou dois e, por fim, seguia o
seu caminho. Durante o sermo desse fim-de-semana, fixava-nos com
o olhar e dizia qualquer coisa como "Deus  misericordioso com as
crianas, mas as crianas tambm tm de ser merecedoras da sua
misericrdia". E ns encolhamo-nos nos bancos, no por vergonha,
mas para esconder um novo ataque de riso. Hegbert simplesmente
no nos compreendia, o que era muito estranho, uma vez que ele
at tinha uma criana. Mas era uma rapariga. Sobre isso, porm,
falaremos mais tarde.
     Como j disse, houve um ano em que Hegbert escreveu O Anjo
de Natal e decidiu encenar essa pea em vez da outra. Na verdade,
a pea em si no era m, o que surpreendeu toda a gente no
primeiro ano em que foi representada. Era, basicamente, a
histria de um homem que tinha perdido a mulher h alguns anos.
Esse homem, Tom Thornton, era muito religioso, mas teve uma crise
de f depois da mulher ter morrido ao dar  luz. Tom Thornton
acaba por cuidar da filha sozinho, mas no  o melhor dos pais.
Surge um Natal em que o que a menina quer mesmo  uma caixinha de
msica especial com um anjo gravado na tampa, que ela vira num
velho catlogo e cuja fotografia havia recortado. Durante muito
tempo, o homem procura o presente por todo o lado, mas no o
consegue encontrar em lugar algum. Chega ento a vspera de Natal
e ele continua  procura, e enquanto est na rua a olhar para as
lojas depara com uma mulher estranha que nunca tinha visto e que
promete ajud-lo a encontrar o presente para a filha. Primeiro,
porm, ajudam um sem-abrigo (naquela altura chamvamos-lhes
vagabundos), depois passam por um orfanato para visitar algumas
crianas, em seguida visitam uma mulher velha e sozinha que
queria apenas alguma companhia na vspera do Natal. Nesse ponto
da histria, a mulher misteriosa pergunta a Tom Thornton o que
deseja para o Natal e ele responde-lhe que quer a sua mulher de
volta. Ela leva-o ao chafariz da cidade e diz-lhe que olhe para a
gua, pois ali encontrar aquilo que procura. Quando ele olha
para a gua, v o rosto da sua filhinha e desata a chorar ali
mesmo. Enquanto isso, a mulher misteriosa desaparece e Tom
Thornton procura-a mas no a consegue encontrar. Por fim,
dirige-se a casa. As lies que aprendera durante o dia davam-lhe
voltas  cabea. Entra no quarto da filha e a sua figura
adormecida f-lo perceber que ela  tudo o que lhe resta da
mulher. Comea a chorar de novo, pois sabe que no tem sido um
bom pai. Na manh seguinte, como por magia, a caixinha de msica
surge debaixo da rvore de Natal e o anjo gravado na tampa parece
exactamente a mulher que ele vira na noite anterior.
     Assim, de facto, a pea no era to m. Para dizer a
verdade, as pessoas vertiam rios de lgrimas sempre que a viam.
Esgotava todos os anos em que era levada  cena e, devido  sua
popularidade, Hegbert acabou por ter de a transferir da igreja
para a Beaufort Playhouse, que tinha muito mais lugares. No meu
ltimo ano de escola secundria, faziam-se j dois espectculos
com casas cheias, o que, para aqueles que interpretavam a pea,
era j por si um grande acontecimento.
      que Hegbert queria que fossem jovens a represent-la - os
alunos do ltimo ano, no o grupo de teatro. Suponho que ele
julgava que era uma boa experincia de aprendizagem antes de os
alunos seguirem para a universidade e se defrontarem com todos os
fornicadores. Ele era esse gnero de pessoa, querendo sempre
salvar-nos da tentao. Queria que soubssemos que Deus estava
sempre a vigiar-nos, mesmo quando estvamos longe de casa e que,
se confissemos Nele, tudo acabaria bem. Foi uma lio que, por
fim, aprendi, embora no tivesse sido Hegbert a ensin-la.

     Como j disse, Beaufort era bastante tpica como cidade do
Sul, embora tivesse uma histria interessante. O pirata
Blackbeard teve ali em tempos uma casa, e diz-se que o seu navio,
o Queen Anne's Revenge, se encontra enterrado algures na areia ao
largo da costa. Recentemente, uns arquelogos, ou oceangrafos,
ou quem anda  procura de coisas desse gnero, disseram que o
tinham localizado, mas de momento ningum tem ainda a certeza,
uma vez que se afundou h mais de duzentos e cinquenta anos e no
h documentos que possam servir como provas de ser esse barco.
Beaufort mudou muito desde os anos 50, embora ainda no seja
exactamente uma grande metrpole. Beaufort era, e sempre ser,
uma comunidade pequena, mas quando eu era ainda criana mal
justificava um lugar no mapa. Para melhor se perceber, o distrito
que inclua Beaufort abrangia toda a parte oriental do estado -
alguns cinquenta mil quilmetros quadrados - e no tinha uma
nica cidade com mais de vinte e cinco mil habitantes. Mesmo
comparada a essas cidades, Beaufort era considerada pequena. Toda
a zona a leste de Raleigh e a norte de Wilmington, at 
fronteira com a Virgnia, fazia parte do distrito que o meu pai
representava.
     Suponho que j tenham ouvido falar dele. Ainda agora ele 
uma espcie de lenda. Chamava-se Worth Carter, e foi membro do
Congresso durante quase trinta anos. A sua palavra de ordem, ano
sim ano no, durante a poca das eleies era "Worth Carter
representa e a pessoa devia preencher o nome da cidade onde
vivesse. Lembro-me que durante as viagens que fazamos, quando eu
e a minha me tnhamos de aparecer em pblico para mostrar s
pessoas que ele era um verdadeiro chefe de famlia, costumvamos
ver esses autocolantes preenchidos a stencil com nomes como
Otway, Chocawinity e Seven Springs. Hoje em dia, essas coisas j
no resultariam, mas naqueles tempos era uma forma de publicidade
razoavelmente sofisticada. Imagino que, se ele fizesse isso
agora, os seus adversrios introduziriam todo o tipo de palavres
no espao em branco, mas ns nunca vimos isso. Bem, talvez uma
vez. Um agricultor de Dupm County escreveu a palavra merda no
espao em branco, e quando a minha me a viu, tapou-me os olhos e
disse uma prece pedindo perdo para aquele pobre e ignorante
patife. Ela no proferiu exactamente essas palavras, mas eu
percebi o sentido.
     Portanto o meu pai, o Sr. Congressista, era o manda-chuva
local, e todos, mas todos, sabiam isso, incluindo o velho
Hegbert. Pois bem, os dois no se davam l muito bem, no se
entendiam de todo, apesar de o meu pai visitar a igreja de
Hegbert sempre que ia  cidade, o que, para ser franco, no
acontecia assim com muita frequncia. Hegbert, para alm de
pensar que os fornicadores estavam destinados a limpar os urinis
no Inferno, tambm acreditava que o comunismo era "uma doena que
condenava a humanidade ao heregismo". Apesar de heregismo no
existir como palavra - no
consigo encontr-la em dicionrio algum - os fiis sabiam o que
ele queria dizer. Sabiam tambm que dirigia aquelas palavras em
particular ao meu pai, sentado de olhos fechados e fingindo no
ouvir. O meu pai pertencia a uma das comisses da Cmara dos
Representantes que estudava o "perigo vermelho" que, supostamente
se estava a infiltrar em todas as esferas do pas, incluindo a
defesa nacional, o ensino superior e at a cultura do tabaco. No
se esqueam que isto se passou durante a Guerra Fria; as tenses
estavam ao rubro, e ns, os da Carolina do Norte, precisvamos de
alguma coisa que trouxesse tudo aquilo para um nvel mais
quotidiano. O meu pai, de forma coerente, tentava procurar
factos, os quais eram irrelevantes para pessoas como Hegbert.
     Depois, quando chegava a casa aps a missa, dizia qualquer
coisa como "O reverendo Sullivan esteve muito bem hoje. Espero
que tenhas prestado ateno quela parte do Evangelho em que
Jesus fala dos pobres...".
     - Sim, claro, pai...
     O meu pai tentava relativizar as situaes sempre que
possvel. Penso que foi por isso que se manteve no Congresso
durante tanto tempo. Ele podia beijar os bebs mais feios  face
da terra e ainda inventar algo de simptico para lhes dizer. "Que
criana to amorosa", comentava, quando o beb tinha uma cabea
gigantesca, ou "Aposto que  a menina mais querida deste mundo",
se a beb tivesse uma marca de nascena que lhe cobria o rosto
inteiro. Uma vez apareceu uma mulher com um mido numa cadeira de
rodas. O meu pai olhou para ele e disse: "Aposto dez contra um em
como s o melhor aluno da tua turma." E era! Pois , o meu pai
era o mximo neste gnero de coisas. Estava  altura dos
melhores, disso no h dvida. E no era assim to mau, na
verdade, especialmente levando em conta que no me batia, nem
nada disso.
     Mas no esteve presente durante a minha infncia. Detesto
dizer isto, porque hoje em dia as pessoas falam muito dessas
coisas, mesmo quando os pais estiveram de facto presentes, e
usam-nas como desculpa para o seu comportamento. O meu pai... no
me amava... foi por isso que me tornei numa stripper e apareci no
J erry Springer Show... No estou a usar isto para desculpar a
pessoa em que me tornei, estou apenas a constat-lo como um
facto. O meu pai estava ausente nove meses durante o ano, vivendo
num apartamento em Washington, D.C., a quase quinhentos
quilmetros de distncia. A minha me no ia com ele, porque
ambos queriam que eu crescesse "da mesma maneira que eles tinham
crescido".
     Claro, o pai do meu pai levava-o a caar e a pescar,
ensinou-o a jogar  bola, aparecia nas festas de aniversrio,
aquelas pequenas coisas que, todas juntas, so muito importantes
antes de nos tornarmos adultos. O meu pai, pelo contrrio, era um
estranho, algum que eu mal conhecia. Durante os primeiros cinco
anos de vida pensei que todos os pais vivessem fora de casa num
outro lugar qualquer. Foi s quando o meu melhor amigo, o Eric
Hunter, me perguntou no jardim de infncia quem era aquele homem
que aparecera em minha casa na noite anterior que percebi que
havia algo de errado naquela situao.
     -  o meu pai - respondi, orgulhoso.
     - Ah - disse Eric, vasculhando na minha lancheira,  procura
do meu Milky Way. - No sabia que tinhas pai.
     Foi como se me tivessem dado um estalo na cara.
     De maneira que cresci sob os cuidados da minha me, uma
senhora simptica, meiga e gentil, o gnero de me com quem a
maioria das pessoas sonha. Mas ela no foi, nem podia ter sido,
uma influncia masculina na minha vida e, esse facto, juntamente
com a desiluso crescente em relao ao meu pai, fez com que me
tornasse meio rebelde, mesmo quando era ainda muito novo. No um
rebelde dos maus, ateno. Eu e os meus amigos podamos sair s
escondidas de casa  noite e ensaboar os vidros de automveis de
vez em quando, ou comer amendoins cozidos no cemitrio por trs
da igreja, mas nos anos cinquenta eram coisas que levavam os pais
a abanar a cabea e a sussurrar para os filhos: "No queiram ser
como o filho dos Carter. No tarda nada, vai parar  priso."
     Eu. Um mau rapaz. Por comer amendoins no cemitrio,
imaginem.
     Bem, adiante, o meu pai e Hegbert no se davam bem, mas no
era s por causa da poltica. No, parece que o meu pai e Hegbert
se conheciam h j muito tempo. Hegbert era cerca de vinte anos
mais velho do que o meu pai e, em tempos, antes de ser pastor,
costumava trabalhar para o pai do meu pai. O meu av apesar de
ter passado muito tempo com o meu pai era, sem dvida, um
verdadeiro filho-da-me. A propsito, foi ele quem fez a fortuna
da famlia, mas no quero que o imaginem como um homem diligente
que se matava a trabalhar, assistindo tranquilamente ao
crescimento do seu negcio, enriquecendo aos poucos com o tempo.
O meu av era muito mais esperto do que isso. O modo como ganhou
o seu dinheiro foi simples - comeou como contrabandista de
bebidas alcolicas, acumulando riqueza durante o perodo da Lei
Seca, trazendo rum de Cuba. Depois, comeou a comprar terras e a
contratar rendeiros para trabalharem nelas. Ficava com noventa
por cento do que os rendeiros faziam com a colheita do tabaco,
depois emprestava-lhes dinheiro sempre que eles precisavam, com
taxas de juro absurdas. Claro, nunca fazia teno de receber o
dinheiro, em vez disso, impedia-os de liquidarem as hipotecas
acabando por ficar com qualquer pedao de terra ou equipamento
que lhes pertencesse. Depois, no que ele chamava o seu "momento
de inspirao", fundou um banco chamado Carter Banking and Loan.
O nico banco que existia num raio de dois concelhos tinha ardido
misteriosamente e,
com o comeo da Depresso, nunca mais reabriu. Embora toda a
gente soubesse o que realmente acontecera, jamais algum disse
uma palavra com medo de represlias, e esse medo tinha razo de
ser. O banco no fora o nico edifcio a incendiar-se
misteriosamente.
     As taxas de juro eram ultrajantes e, aos poucos, ele comeou
a apropriar-se de mais terras e bens  medida que as pessoas no
conseguiam liquidar os seus emprstimos. Quando a Depresso
atingiu o auge, apoderou-se de dezenas de negcios por todo o
concelho, conservando ao mesmo tempo os proprietrios originais
como assalariados, pagando-lhes apenas o suficiente para os
manter onde estavam, pois no tinham para onde ir. Dizia-lhes que
quando a economia melhorasse, voltaria a vender-lhes os negcios,
e as pessoas acreditavam sempre nele.
     Nem uma nica vez, porm, cumpriu a sua promessa. No fim,
acabou por ficar com o controlo de uma grande parte da economia
do concelho, e abusou do seu poder de todas as maneiras
imaginveis.
     Gostaria de vos poder contar que ele acabou por ter uma
morte horrvel, mas no foi o caso. Morreu numa idade bem
avanada, enquanto dormia com a amante no seu iate ao largo das
Ilhas Caimo. Sobrevivera a ambas as mulheres e ao nico filho.
Que fim para uma pessoa como ele! A vida, aprendi, nunca  justa.
Se se ensinasse alguma coisa nas escolas, deveria ser isso.
     Mas voltemos  histria... Hegbert, quando viu que grande
sacana era, na verdade, o meu av, deixou de trabalhar para ele e
ingressou no sacerdcio. Mais tarde, voltou para Beaufort e
comeou a ministrar na mesma igreja que ns frequentvamos.
Passou os primeiros anos a aperfeioar o seu nmero de fogo e
castigo celestial com sermes mensais sobre os malefcios das
pessoas avarentas, e isso deixava-lhe muito pouco tempo para
qualquer outra coisa. Tinha j quarenta e trs anos quando
finalmente se casou; e cinquenta e cinco quando a filha, Jamie
Sullivan, nasceu. A mulher, pequenina e magra, vinte anos mais
nova do que ele, teve seis abortos espontneos antes da Jamie
nascer e, no fim, morreu ao dar  luz, deixando Hegbert vivo e
com uma filha para criar sozinho.
     Da, claro, a histria por detrs da pea de teatro.
     As pessoas j sabiam disso, mesmo antes de a pea ser levada
 cena. Era uma daquelas histrias que se ouviam sempre que
Hegbert tinha de baptizar um beb ou assistir a um funeral. Todos
a conheciam, e  por isso, penso eu, que tantas pessoas se
emocionavam sempre que assistiam  representao de Natal.
Reconheciam-na como algo baseado na vida real, o que lhe dava um
significado especial.
     Jamie Sullivan andava no ltimo ano da escola secundria,
como eu, e j tinha sido escolhida para interpretar o anjo. No
que mais algum alguma vez tivesse essa hiptese. Esse facto,
claro, tornava a pea particularmente especial naquele ano. Ia
ser um grande acontecimento, talvez o maior acontecimento de
todos os tempos
     pelo menos, na cabea de Miss Garber. Ela era a professora
de teatro, e j se mostrava entusiasmadissima com as
possibilidades da pea na primeira vez que a vi nas aulas.
     Pois bem, eu realmente no planeara fazer teatro naquele
ano. A srio que no, mas ou escolhia isso ou Qumica II. A
verdade  que pensava que iria ser uma disciplina "fcil",
especialmente quando comparada com a minha outra opo. Nada de
papis, ou testes, nem quadros onde teria de memorizar protes e
neutres e combinar elementos nas suas frmulas adequadas... O
que poderia ser melhor para um aluno no ltimo ano? Parecia ser a
escolha acertada, e quando me inscrevi em teatro, pensei que iria
poder dormir em quase todas as aulas, o que era bastante
importante na altura, tendo em conta os meus hbitos de comedor
de amendoins s tantas da noite.
     No primeiro dia de aulas fui dos ltimos a chegar, entrando
segundos antes de a campainha tocar, e escolhi um lugar nas
ltimas filas. Miss Garber estava de costas para a classe,
ocupada a escrever o seu nome em letras grandes e cursivas no
quadro, como se no soubssemos como ela se chamava. Toda a gente
a conhecia - era impossvel no a conhecer. Era alta, media pelo
menos dois metros, com cabelo ruivo flamejante e uma pele plida
que, aos quarenta e tal anos, ainda exibia sardas. Tinha tambm
excesso de peso - diria honestamente que chegava aos cento e
quinze quilos - e uma tendncia para usar longos e floridos
vestidos havaianos. Usava culos com armaes de tartaruga, e
cumprimentava toda a gente com "Olaaa"'", a ltima slaba meio
cantada. Miss Garber era nica, disso no h dvida, e era
solteira, o que tornava as coisas ainda piores. Um homem, no
importa a idade, no podia deixar de sentir pena de uma rapariga
como ela.
     Por baixo do seu nome, escreveu os objectivos que pretendia
alcanar naquele ano. A "autoconfiana" vinha em primeiro lugar,
seguida da "autoconscincia" e, em terceiro, a "realizao
pessoal". Miss Garber tinha a mania deste tipo de expresses,
nisso antecipando a psicoterapia, embora na altura no se
apercebesse provavelmente disso. Miss Garber foi pioneira nesse
campo. Talvez tivesse algo a ver com a sua aparncia fsica;
talvez s procurasse sentir-se melhor consigo prpria.
     Mas estou apenas a divagar.
     Foi s depois de a aula ter comeado que reparei numa coisa
estranha. Embora a Escola Secundria de Beaufort no fosse
grande, tinha a certeza absoluta de que era frequentada por igual
nmero de rapazes e de raparigas, sendo essa a razo por que
fiquei surpreendido ao reparar que aquela turma tinha uma
percentagem feminina de pelo menos noventa por cento. Havia
apenas um outro rapaz na sala, o que na minha opinio era bom e,
por um instante, senti-me entusiasmado com aquele gnero de
sensao "ateno pessoal, aqui vou eu". Raparigas, raparigas,
raparigas... no podia deixar de pensar nisso. Raparigas e mais
raparigas e nada de testes  vista.
     Pronto, sei que no era o rapaz mais perspicaz do bairro.
     Ento Miss Garber traz  baila a pea de Natal e diz-nos que
Jamie Sullivan vai ser o anjo naquele ano. Miss Garber ps-se
logo a bater palmas - pertencia  igreja, tambm - e muita gente
pensava que ela tinha um fraquinho por Hegbert. Quando ouvi falar
disso pela primeira vez, lembro-me de ter pensado que era bom
eles serem demasiado velhos para poderem ter filhos, se alguma
vez se viessem a juntar. Imaginem - translcidos com sardas! S a
ideia arrepiava toda a gente, mas claro, nunca ningum falava do
assunto, pelo menos ao alcance dos ouvidos de Miss Garber e
Hegbert. Mexericos  uma coisa, mexericos ofensivos  outra
completamente diferente e, mesmo na escola secundria, no ramos
assim to maus.
     Miss Garber continuou a bater palmas sozinha at todos
finalmente nos juntarmos a ela, pois era, evidentemente, isso que
ela queria. "Levante-se, Jamie", disse. Ento Jamie levantou-se e
voltou-se para ns. Miss Garber comeou a bater palmas com mais
fora ainda, como se estivesse na presena de uma verdadeira
estrela de cinema.
     Pois bem, Jamie Sullivan era boa rapariga. Era mesmo.
Beaufort era to pequena que havia apenas uma escola primria.
Da que tivssemos pertencido s mesmas turmas a vida inteira e
mentiria se dissesse que nunca tinha falado com ela. No segundo
ano, Jamie ficara no lugar ao meu lado, e at tivemos algumas
conversas, mas isso no queria dizer que passasse muito tempo com
ela nos meus tempos livres, mesmo naquela altura. Com quem eu me
dava na escola era uma coisa; com quem estava depois da escola
era outra completamente diferente, e Jamie nunca constara da
minha agenda social.
     No que fosse feia, no me entendam mal. No era horrorosa,
nem nada disso. Felizmente, sara  me, que segundo as
fotografias que tinha visto no era nada m, especialmente tendo
em conta aquele com quem acabara por casar. Mas Jamie tambm no
era exactamente o que eu considerava atraente. Apesar de magra,
com cabelo louro de mel e meigos olhos azuis, a maior parte do
tempo parecia algo... sem graa, e isso s quando se chegava a
reparar nela. Jamie no se preocupava muito com as aparncias
exteriores, pois estava sempre  procura de coisas como "beleza
interior", e suponho que, em parte, seria essa a razo por que
tinha aquele aspecto. Desde que a conhecia e isso  recuar
bastante no tempo, - lembrem-se - usou sempre o cabelo num
carrapito bem apertado, quase como uma solteirona, sem uma pinta
de maquilhagem no rosto. Juntando a isso, com os seus habituais
casaco de l castanho e saia de xadrez, tinha sempre o aspecto de
estar a caminho de uma entrevista para um emprego na biblioteca.
Ns achvamos que era s uma fase e que, por fim, lhe passaria,
mas isso nunca aconteceu. Mesmo durante os nossos primeiros trs
anos de escola secundria ela nada mudou. A nica coisa que mudou
foi o tamanho das suas roupas.
     Mas no era apenas a aparncia de Jamie que a tornava
diferente; era tambm o modo como se comportava. Jamie no
passava o tempo no Cecil's Diner ou em festas em casa das outras
raparigas, e estou certo de que nunca havia tido um namorado na
vida.
O velho Hegbert, provavelmente, teria um ataque de corao se
isso acontecesse. Mas mesmo que, por alguma estranha razo,
Hegbert o permitisse, ainda assim isso no teria feito qualquer
diferena. Jamie levava a Bblia para todo o lado e, se a sua
aparncia e Hegbert no afastavam os rapazes, a Bblia podem ter
a certeza que sim. Ora bem, eu gostava tanto da Bblia como
qualquer outro rapaz, mas Jamie parecia gostar dela de um modo
que me era completamente estranho. No s ia todos os meses de
Agosto para o campo de frias da igreja, como lia tambm a Bblia
durante o intervalo do almoo na escola. Para a minha cabea,
isso simplesmente no era normal, mesmo sendo ela a filha do
pastor. Por mais voltas que se d ao assunto, ler a carta de So
Paulo aos Efsios no era nem de perto to divertido como
namoriscar.
     Mas no ficava por a. Por causa de toda a sua leitura da
Bblia, ou talvez devido  influncia de Hegbert, Jamie
acreditava que era importante ajudar os outros; e ajudar os
outros era precisamente o que ela fazia. Eu sabia que ela
trabalhava como voluntria no orfanato de Morehead City, mas isso
ainda no lhe era suficiente. Estava  frente de toda e mais
alguma campanha de recolha de fundos, ajudando toda a gente,
desde os Escuteiros s Princesas ndias. Soube que, quando ela
tinha catorze anos, passou parte do Vero a pintar o exterior da
casa de um vizinho idoso. Era o gnero de rapariga para arrancar
as ervas daninhas do jardim de algum sem que lhe pedissem ou
para interromper o trnsito para ajudar as criancinhas a
atravessar a rua. Poupava na sua mesada para comprar uma nova
bola de basquete para os rfos, ou dava meia volta e deitava o
dinheiro no cesto da igreja aos domingos. Era, por outras
palavras, o tipo de rapariga que nos fazia parecer maus, e sempre
que ela olhava para mim, no podia deixar de me sentir culpado,
mesmo que no tivesse feito nada de errado.
     Jamie tambm no circunscrevia as suas boas aces s
pessoas. Sempre que se cruzava com um animal ferido, por exemplo,
tentava ajud-lo. Sarigueias, esquilos, ces, gatos, rs... pouco
lhe importava. O Dr. Rawlings, o veterinrio, conhecia-a de
vista, e abanava a cabea sempre que a via aproximar-se da sua
porta trazendo uma caixa de carto com mais uma criatura l
dentro. Tirava os culos e limpava-os com o leno enquanto Jamie
explicava como tinha encontrado a pobre criatura e o que lhe
tinha acontecido. "Foi atropelado por um carro, Dr. Rawlings.
Penso que estava nos desgnios de Deus eu t-lo encontrado e
tentar salv-lo. Vai ajudar-me, no vai?"
     Para Jamie, tudo estava nos desgnios de Deus. Havia outra
coisa. Sempre que algum falava com ela, qualquer que fosse o
assunto, mencionava sempre os designios de Deus. O jogo de
basebol foi adiado por causa da chuva? Deve ser desgnio de Deus
para evitar que algo de mais grave acontea. Um teste surpresa de
trigonometria a que todos na turma chumbaram? Deve estar no
desgnio de Deus para nos proporcionar desafios. Bem, j devem
ter ficado com uma ideia.
     Depois, claro, havia toda a grande questo de Hegbert, e
isso em nada a ajudava. Ser a filha do pastor no podia ter sido
fcil, mas ela fazia com que isso parecesse a coisa mais natural
do mundo e uma sorte ter sido abenoada daquela maneira. Era
tambm assim que costumava dizer. "Fui to abenoada por ter um
pai como o meu." Sempre que dizia isso, tudo o que podamos fazer
era abanar a cabea e interrogar-nos de que planeta  que ela,
efectivamente, tinha vindo.
     No entanto, apesar de todas essas caractersticas, aquilo
que realmente me enfurecia nela era o facto de estar sempre to
irritantemente alegre, independentemente daquilo que estivesse a
acontecer  sua volta. Juro, aquela rapariga nunca disse uma
coisa m de nada nem ningum, mesmo daqueles de ns que no eram
muito simpticos para ela. Passeava pelas ruas a cantarolar,
acenava a estranhos que passassem de carro. Por vezes, algumas
senhoras, quando a viam passar, saam a correr das suas casas
para lhe oferecerem po de abbora que tinham feito durante o dia
ou limonada se o calor apertava. Parecia que todos os adultos da
cidade a adoravam. " uma rapariga to simptica", diziam sempre
que viesse  conversa o nome de Jamie. "O mundo seria um lugar
melhor se houvesse mais pessoas como ela."
     Mas eu e os meus amigos no vamos as coisas propriamente da
mesma maneira. Na nossa opinio, uma Jamie Sullivan j era de
mais.
     Pensei nisto tudo quando Jamie se colocou diante de ns no
primeiro dia da aula de teatro e admito que no estava muito
interessado em v-la. Mas estranhamente, quando Jamie se voltou
para nos olhar senti uma espcie de choque, como se estivesse
sentado em cima de um arame lasso ou coisa parecida. Ela vestia
uma saia de xadrez e uma blusa branca debaixo do mesmo casaco de
l castanho que eu j vira um milho de vezes, mas havia duas
novas salincias no peito que a camisola no conseguia esconder e
que eu jurava no estarem l h apenas trs meses atrs. Jamie
nunca usara maquilhagem e ainda no o fazia, mas estava
bronzeada, provavelmente por causa do campo de frias e, pela
primeira vez, parecia bem, quase bonita. Claro, pus logo de parte
esse pensamento, mas quando olhou em volta da sala, ela parou e
sorriu para mim, obviamente contente por ver que eu fazia parte
da turma. S mais tarde  que eu viria a descobrir a verdadeira
razo desse sorriso.
CAPTULO 2

     Depois da escola secundria, planeava ir para a Universidade
da Carolina do Norte em Chapel HilI. O meu pai queria que eu
fosse para Harvard ou Princeton, como os filhos de outros
congressistas, mas com as minhas notas isso era impossvel. No
que eu fosse um mau aluno. Simplesmente, no me concentrava nos
estudos e as minhas notas no estavam bem  altura daquelas
instituies de elite. Quando cheguei ao ltimo ano de escola
secundria era ainda bastante incerto se iria sequer ser aceite
na UNC. No entanto, tratava-se da universidade onde estudara o
meu pai, um lugar onde ele podia mexer alguns cordelinhos.
Durante um dos seus poucos fins-de-semana em casa, o meu pai
surgiu com um plano que me daria hipteses de ser admitido. A
primeira semana de aulas tinha chegado ao fim, e encontrvamo-nos
 mesa a jantar. Ele ia ficar em casa durante trs dias por ser o
fim-de-semana do Dia do Trabalhador.
     - Penso que devias candidatar-te a presidente da associao
de estudantes - disse ele. - Vais acabar a escola em Junho, e
penso que ficaria bem no teu currculo. A propsito, a tua me 
da mesma opinio.
     A minha me acenou afirmativamente com a cabea enquanto
mastigava uma garfada de ervilhas. No falava muito quando o meu
pai tinha a palavra, mas piscava-me o olho de vez em quando. s
vezes, penso que a minha me gostava de me ver encolher de medo
perante o meu pai, apesar de ser amorosa.
     - Acho que no teria qualquer hiptese de ganhar - disse eu.
Embora fosse, provavelmente, o rapaz mais rico da escola, no era
de maneira alguma o mais popular. Essa honra pertencia a Eric
Hunter, o meu melhor amigo. Ele conseguia atirar uma bola de
basebol a quase cento e cinquenta quilmetros por hora e
conduzira a equipa de futebol a ttulos estaduais consecutivos
como o seu quarter-back favorito. Era um garanho. At o seu nome
tinha um som impecvel.
     - Claro que podes ganhar - retorquiu o meu pai rapidamente.
     - Ns, os Carter, ganhamos sempre.
     Essa era outra das razes pelas quais no gostava de passar
muito tempo com o meu pai. Durante as poucas vezes em que estava
em casa, penso que o que ele queria era moldar-me numa pequena
verso de si mesmo. Como fui criado a maior parte do tempo longe
dele, comecei a ficar irritado com a sua presena. Aquela era a
primeira conversa que tnhamos h vrias semanas. Raramente
falava comigo ao telefone.
     -Mas, e se eu no quiser?
     O meu pai pousou o garfo, com um bocado de costeleta de
porco ainda na ponta. Fitou-me com um ar zangado, examinando-me
de cima a baixo. Vestia um fato, apesar de estarem quase trinta
graus dentro de casa, e isso tornava-o ainda mais intimidante. A
propsito, o meu pai andava sempre de fato.
     - Eu penso - disse ele devagar - que seria uma boa ideia.
     Eu sabia que quando ele falava daquela maneira o assunto
estava resolvido. Era assim que as coisas funcionavam na minha
famlia. A palavra do meu pai era lei. Mas a verdade era que
mesmo depois de concordar, eu continuava a no querer faz-lo.
No queria perder as minhas tardes a encontrar-me com professores
depois das aulas! todas as semanas durante o resto do ano, a
tentar inventar temas para os bailes da escola ou a decidir de
que cor seriam as serpentinas. Na verdade, era s isso que os
presidentes da associao faziam, pelo menos no tempo em que eu
andava na escola. Os estudantes no tinham qualquer poder para,
de facto, tomarem decises sobre alguma coisa importante.
     Mas mais uma vez sabia que o meu pai tinha uma certa razo.
Se eu quisesse ir para a UNC, tinha de fazer alguma coisa. No
jogava futebol, nem basquetebol, no tocava qualquer instrumento,
no pertencia ao clube de xadrez ou ao clube de bowling ou a
qualquer outro. No era brilhante na sala de aulas, raios, no
era brilhante em quase nada! Comeando a ficar desanimado, fiz
uma lista do que sabia realmente fazer mas, para ser franco, no
havia muita coisa. Podia fazer oito diferentes tipos de ns de
vela, podia andar descalo no asfalto quente mais tempo do que
qualquer pessoa que conhecia, podia equilibrar um lpis
verticalmente sobre o dedo durante trinta segundos... Mas no
achava que qualquer dessas coisas pudesse realmente impressionar
na candidatura a uma universidade. Ento fiquei ali, deitado na
cama a noite inteira, chegando lentamente  decepcionante
concluso de que era um falhado. Obrigado, pai.
     Na manh seguinte, fui ao escritrio do director e
acrescentei o meu nome  lista de candidatos. Havia dois outros
concorrentes - John Foteman e Maggie Brown. Ora bem, John no
tinha qualquer hiptese, disso tive logo a certeza. Era daqueles
rapazes que tirava fios das nossas roupas enquanto falava
connosco. Mas era bom aluno. Sentava-se na fila da frente e
levantava a mo sempre que o professor fazia uma pergunta. Se
fosse chamado a responder, dava quase sempre a resposta certa e
virava a cabea de um lado para o outro com um ar convencido no
rosto, como que a provar a superioridade da sua inteligncia
quando comparada  dos outros plebeus na sala. Eric e eu
costumvamos atirar-lhe bolinhas de papel mastigado quando o
professor virava as costas.
     Maggie Brown era outra histria. Tambm era boa aluna.
Fizera parte do conselho de estudantes durante os primeiros trs
anos e tinha sido vice-presidente da associao no ano anterior.
O seu nico verdadeiro contra era no ser muito atraente, e tinha
engordado quase dez quilos naquele Vero. Eu sabia que nem um
nico rapaz votaria nela.
     Depois de estudar a concorrncia, percebi que, afinal,
poderia ter uma hiptese. Todo o meu futuro estava em jogo, por
isso formulei a minha estratgia. Eric foi o primeiro a
concordar.
     - Claro, vou fazer com que todos na equipa votem em ti, no
h problema. Se  isso mesmo que queres.
     - E que tal as namoradas deles tambm? - perguntei.
     Toda a minha campanha se resumiu basicamente a isso. Claro,
fui aos debates a que devia ir e distribui aqueles estpidos
panfletos "O que farei se for eleito presidente", mas, na
verdade, foi Eric Hunter quem me colocou onde era preciso chegar.
A Escola Secundria de Beaufort tinha apenas quatrocentos alunos,
pelo que conseguir os votos dos atletas era essencial, e a maior
parte deles pouco se importava em quem votava. No fim, acabou
tudo por correr tal como eu planeara.
     Fui eleito presidente da associao de estudantes com uma
maioria bastante significativa de votos. No fazia qualquer ideia
dos problemas a que isso me iria conduzir.

     No penltimo ano da escola secundria tive uma namorada
chamada Angela Clark. Foi a minha primeira namorada a srio,
apesar de o namoro ter durado apenas alguns meses. Mesmo antes de
a escola fechar para as frias do Vero, trocou-me por um rapaz
chamado Lew que tinha vinte anos e trabalhava como mecnico na
oficina do pai. O seu principal atributo, tanto quanto pude
perceber, era um grande e belo carro. Usava sempre uma T-shirt
branca com um mao de Camels enfiado na manga e encostava-se ao
cap do seu Thunderbird olhando de um lado para o outro a dizer
coisas como "Ol, borracho" sempre que passava uma rapariga. Era
um verdadeiro campeo, se percebem o que quero dizer.
     Bem, o baile de regresso s aulas aproximava-se e, por causa
dessa histria da Angela, ainda no tinha arranjado um par. Todos
os membros do conselho de estudantes tinham de ir era
obrigatrio. Tinha de ajudar a decorar o ginsio e a limp-lo no
dia seguinte e, alm disso, normalmente divertamo-nos sempre
bastante. Telefonei a duas raparigas que conhecia, mas j tinham
parceiro. Ento telefonei a mais algumas. Tambm j estavam
comprometidas. Na ltima semana antes do baile, as escolhas j
eram poucas. Restavam-me aquelas raparigas que usavam culos de
lentes grossas e que falavam com a lngua presa. De qualquer
maneira, Beaufort nunca fora um ninho de beldades, mas, ainda
assim, tinha de encontrar algum. No queria ir ao baile sem par
     o que  que isso iria parecer? Seria o nico presidente da
associao de estudantes na histria a ir sozinho ao baile de
regresso s aulas. Acabaria por ficar a servir o ponche a noite
inteira ou a limpar o vomitado nas casas de banho. Era isso o que
as pessoas sem parceiros normalmente faziam.
     Quase a entrar em pnico, fui buscar o anurio escolar do
ano anterior e comecei a folhear as pginas uma a uma  procura
de algum que talvez pudesse no ter parceiro. Primeiro, examinei
as pginas com as alunas do ltimo ano. Embora muitas delas
tivessem ido para a universidade, algumas ainda permaneciam na
cidade. Apesar de achar que no tinha grandes hipteses,
telefonei-lhes e, claro, isso comprovou-se. No consegui
encontrar ningum, pelo menos ningum que quisesse ir comigo. J
comeava a ser bastante bom a lidar com tampas, digo-vos, apesar
de isso no ser o gnero de coisa de que nos possamos gabar junto
dos netos. A minha me sabia o que se estava a passar e, por fim,
veio ao meu quarto, sentando-se na cama a meu lado.
     - Se no conseguires arranjar par, terei muito prazer em ir
contigo - disse.
     - Obrigado, me - respondi, abatido.
     Quando ela saiu do quarto, senti-me ainda pior do que antes.
At a minha me pensava que eu no iria conseguir encontrar
algum. E se aparecesse no baile com ela? No, nem que vivesse
cem anos, nunca iria ultrapassar isso.
A propsito, havia outro rapaz no mesmo barco. Carey Dennison
tinha sido eleito tesoureiro e tambm ainda no tinha par. Carey
era daqueles rapazes com quem ningum queria estar, e a nica
razo por que tinha sido eleito fora porque concorrera sozinho.
Mesmo assim, penso que ganhou por muito poucos votos. Tocava
trombeta na banda da escola, e o seu corpo parecia completamente
desproporcionado, como se tivesse parado de crescer a meio da
puberdade. Tinha uma barriga enorme e braos e pernas
desengonados, como os Hoos em Hooville. Tambm tinha uma maneira
de falar esganiada - era o que fazia dele um tocador de trombeta
to bom, suponho - e estava sempre a fazer perguntas. "Onde  que
foste no fim-de-semana passado? Foi divertido? Conheceste alguma
rapariga?" Nem sequer esperava pela resposta, movendo-se
constantemente de um lado para o outro enquanto fazia as
perguntas, de modo que tnhamos de estar sempre a girar a cabea
para o manter  vista. Juro que deve ter sido a pessoa mais chata
que alguma vez conheci. Se eu no arranjasse uma parceira, ele ia
ficar ao meu lado a noite inteira, bombardeando-me com perguntas
como um promotor de justia transtornado.
     Portanto, ali estava eu, folheando as pginas na seco dos
alunos do penltimo ano, quando vi a fotografia de Jamie
Sullivan. Detive-me durante apenas um segundo, depois virei a
pgina, amaldioando-me por ter sequer pensado naquela hiptese.
Passei a hora seguinte  procura de algum de aspecto minimamente
decente, mas, lentamente, cheguei  concluso de que j no
restava mais ningum. Por fim, voltei  fotografia dela e olhei-a
de novo. No era feia, disse para comigo, e realmente  muito
simptica. Provavelmente, diria que sim, pensei...
     Fechei o anurio. Jamie Sullivan? A filha de Hegbert? Nem
pensar. De maneira nenhuma. Os meus amigos iriam esfolar-me vivo.
     Mas se comparssemos isso a ter de levar a minha me ou
limpar o vomitado ou at, Deus me livre... Carey Dennison?
     Passei o resto da tarde debatendo os prs e os contras do
meu dilema. Acreditem, vacilei durante algum tempo, mas, no fim,
a escolha era evidente, at para mim. Tinha de pedir a Jamie para
ir ao baile comigo, e dei voltas ao quarto a pensar na melhor
maneira de o fazer.
     Foi ento que me apercebi de algo terrvel, algo
absolutamente assustador. Carey Dennison, pensei de repente,
estava talvez a fazer exactamente o mesmo que eu naquele preciso
momento. Se calhar, estava tambm a folhear o anurio! Ele era
esquisito, mas tambm no era o tipo de rapaz que gostasse de
limpar vomitado, e se conhecessem a me dele, saberiam que essa
escolha era ainda pior do que a minha. E se ele pedisse aJamie
primeiro? Jamie seria incapaz de lhe dizer que no e, de facto,
era a nica opo que ele tinha. Ningum, a no ser ela,
aceitaria ser vista com ele. Jamie ajudava toda a gente - era uma
daquelas santas da igualdade de oportunidades. Provavelmente,
escutaria a voz esganiada, detectaria a bondade irradiando do
corao dele e aceitaria de uma assentada.
     Assim, estava eu sentado no meu quarto, aflito com a
possibilidade de Jamie no ir ao baile comigo. Mal dormi naquela
noite, digo-vos, o que foi quase a coisa mais estranha por que j
tinha passado. No penso que algum alguma vez tenha ficado to
ansioso por convidar Jamie para sair. Era a primeira coisa que
tencionava fazer logo de manh, enquanto ainda tivesse coragem,
mas Jamie no estava na escola. Presumi que estivesse a trabalhar
com os rfos em Morehead City, como fazia todos os meses. Alguns
de ns tnhamos tentado sair da escola usando tambm essa
desculpa, mas Jamie era a nica que conseguia ser convincente. O
director sabia que ela estava a ler para os rfos, ou a fazer
trabalhos manuais, ou simplesmente a fazer jogos com eles. No
iria escapulir-se para a praia, ou para o Cecil's Diner, ou coisa
do gnero. A ideia era completamente ridcula.
     - J tens par? - perguntou-me Eric num intervalo entre as
aulas. Ele sabia muito bem que no, mas mesmo sendo o meu melhor
amigo, gostava de me provocar de vez em quando.
     - Ainda no - respondi - mas estou a tratar disso.
     Ao fundo do corredor, Carey Dennison estava a abrir o seu
cacifo. Juro que me lanou um olhar frio quando pensou que eu no
estava a olhar para ele.
     Foi assim esse dia.
     Os minutos passaram lentamente durante a ltima aula. Do
modo como via as coisas se eu e Carey sassemos ao mesmo tempo,
eu conseguiria chegar a casa dela primeiro, tendo em conta as
pernas desengonadas dele. Comecei a preparar-me mentalmente e
quando a campainha tocou sa da escola a correr a toda a
velocidade. Voei durante cerca de cem metros, depois comecei a
ficar meio cansado e, em seguida, tive uma cibra. Pouco depois,
s conseguia andar, mas a cibra comeou mesmo a magoar-me e tive
de me dobrar e segurar
o flanco da perna enquanto andava. Ao caminhar pelas ruas de
Beaufort parecia uma verso asmtica do Corcunda de Notre Dame.
     Atrs de mim pensei ouvir o riso estridente de Carey. Olhei
para trs, segurando a barriga com fora para abafar a dor, mas
no o vi. Talvez estivesse a fazer corta-mato atravs do quintal
de algum'. Era um filho da me manhoso, aquele. No se podia
confiar nele nem um minuto.
     Comecei a cambalear ainda mais depressa e pouco tempo depois
chegava  rua de Jamie. Nessa altura j estava todo transpirado -
a camisa completamente encharcada e ainda respirava com
dificuldade. Alcancei a porta da frente da casa, esperei um
segundo para recuperar o flego e finalmente bati. Apesar da
corrida febril at  casa dela, o meu lado pessimista dizia-me
que seria Carey a abrir a porta. Imaginei-o a sorrir para mim com
uma expresso vitoriosa, uma expresso que quereria
essencialmente dizer "Desculpa l, amigo, tarde de mais".
     Mas no foi Carey quem abriu a porta, foi Jamie, e, pela
primeira vez na vida, vi qual seria a sua aparncia se ela fosse
uma pessoa normal. Vestia calas de ganga e uma blusa vermelha, e
embora o cabelo estivesse ainda apanhado, parecia mais informal
do que era costume. Percebi que at podia ser gira se desse a si
prpria essa oportunidade.
     - Landon - disse ao abrir a porta - que surpresa! - Jamie
ficava sempre contente por ver algum, eu inclusive, apesar de me
ter parecido que o meu aspecto a sobressaltara um pouco. - Parece
que estiveste a correr.
     - No propriamente - menti, limpando a testa. Felizmente, a
cibra estava a melhorar depressa.
     - Tens a camisa toda transpirada.
     - Ah, isso?    - Olhei para a camisa.   - Isso no  nada. 
que s vezes transpiro muito.
     - Se calhar, devias ir ao mdico para ver o que .
     - Estou bem, tenho a certeza.
     - De qualquer maneira, vou rezar por ti        - ofereceu-se,
sorrindo.
Jamie estava sempre a rezar por algum. J agora, juntava-me ao
clube.
     - Obrigado - disse eu.
     Ela baixou o olhar e arrastou os ps por um momento.
- Bem, convidava-te a entrar, mas o meu pai no est e no
autoriza que os rapazes entrem em nossa casa quando ele no est.
     - Oh - disse eu, de um modo abatido - no faz mal. Podemos
falar aqui, suponho. - Se tivesse escolha, teria preferido l
dentro.
     - Queres uma limonada enquanto falamos? - perguntou. -
Acabei de a fazer.
     - Quero, sim - respondi.
     - Volto j. - Entrou em casa, mas deixou a porta aberta, o
que me permitiu dar uma espreitadela rpida  sala. A casa,
notei, era pequena mas arrumada, com um piano encostado a uma
parede e um sof junto  outra. Uma pequena ventoinha oscilava a
um dos cantos. Sobre a mesa de caf estavam livros com ttulos
como Escutando Jesus e A F  a Resposta. A Bblia de Jamie
tambm l estava, aberta no Evangelho de So Lucas.
     Pouco depois,Jamie voltou com a limonada e sentmo-nos em
duas cadeiras a um canto da varanda. Ela e o pai sentavam-se ali
ao fim da tarde, eu sabia disso, pois passava pela casa deles de
vez em quando. Mal nos sentmos, reparei em Mrs. Hastings,
avizinha do outro lado da rua, a fazer-nos adeus. Jamie acenou
tambm enquanto eu dava um jeito  cadeira para que Mrs. Hastings
no pudesse ver a minha cara. Embora fosse pedir a Jamie para ir
ao baile comigo, no queria que ningum
     nem mesmo Mrs. Hastings me visse ali no caso de ela j ter
aceite o pedido de Carey. Uma coisa era ir, de facto, com Jamie
ao baile, outra era ser rejeitado por ela a favor de uma pessoa
como Carey.
     - Que ests a fazer? - perguntou-me Jamie. - Ests a pr a
cadeira ao sol.
     - Gosto do sol - disse eu. Contudo, ela tinha razo. Quase
imediatamente pude sentir os raios solares a queimar-me atravs
da camisa e a fazer-me suar de novo.
     - Se  isso que queres - disse Jamie, sorrindo. - Ento, de
que  que querias falar comigo?
     Jamie levou as mos  cabea e comeou a arranjar o cabelo.
Que eu reparasse, o cabelo no tinha mudado um centmetro.
Respirei fundo, tentando ganhar coragem, mas no conseguia
obrigar-me a fazer a pergunta ainda.
     - Ento - disse em vez disso - estiveste no orfanato hoje?
     Jamie olhou-me curiosa.
- No. Eu e o meu pai estivemos no consultrio do mdico.
     - Ele est bem?
     Ela sorriu.
- No podia estar melhor.
     Acenei com a cabea e olhei de relance para o outro lado da
rua. Mrs. Hastings tinha voltado para dentro de casa, e no vi
mais ningum nas proximidades. A costa finalmente estava livre,
mas ainda no estava pronto.
     - Est um belo dia - disse eu, ganhando tempo.
     - Sim, est.
     - Quente, tambm.
     - Isso  porque ests ao sol.
     Olhei em volta, sentindo a tenso a aumentar.
- Olha, aposto que no h uma nica nuvem no cu.
     Desta vez, Jamie no respondeu e permanecemos em silncio
durante alguns momentos.
     - Landon - disse ela, por fim - no vieste aqui para falar
do tempo, pois no?
     - Na verdade, no.
     - Ento por que  que ests aqui?
O momento da verdade tinha chegado. Aclarei a garganta.
     - Bem... queria saber se vais ao baile de regresso s aulas.
     - Ah - disse ela. Pelo tom da voz at parecia que
desconhecia a existncia de tal coisa. Mexi-me irrequieto na
cadeira e aguardei a resposta.
     - Na verdade, no tinha pensado em ir - disse Jamie
finalmente.
     - Mas se algum te convidasse, irias talvez?
     Levou um momento a responder.
     - No tenho a certeza - disse, pensando com cuidado.
- Suponho que sim, se tivesse oportunidade. Nunca fui a um baile
de regresso s aulas.
     - So divertidos - disse eu rapidamente. - No muito
divertidos, mas divertidos. - Especialmente quando comparado s
minhas outras opes, no acrescentei.
     Ela sorriu perante o meu recuo.
- Teria de falar com o meu pai, claro, mas se ele dissesse que
no havia problema, ento suponho que talvez fosse.
     Na rvore junto  varanda, um pssaro comeou a chilrear
ruidosamente, como se soubesse que eu no deveria estar ali.
Concentrei-me no som, tentando acalmar os nervos. H dois dias
apenas no me poderia ter imaginado a pensar naquilo sequer, mas
de repente, ali estava, ouvindo-me a proferir as palavras
mgicas.
     - Bem, gostarias de ir ao baile comigo?
     Percebi que tinha ficado surpreendida. Penso que ela julgara
a pequena conversa que conduzira  pergunta um prembulo para o
convite de outra pessoa. Por vezes, os adolescentes mandam os
amigos "estudar o terreno", por assim dizer, para no terem de
encarar uma possvel rejeio. Apesar de Jamie no ser muito
parecida com os outros adolescentes, tenho a certeza de que
estava familiarizada com o conceito, pelo menos em teoria.
     Em vez de responder imediatamente, todavia, Jamie virou a
cara durante um longo momento. Senti uma sensao de vazio no
estmago, porque presumi que ela iria dizer que no. Vises da
minha me, vomitado e Carey inundaram-me a mente, e, de sbito,
arrependi-me da maneira como me havia comportado em relao a ela
durante todos aqueles anos. Lembrei-me de todas as vezes que
tinha zombado dela, ou chamado fornicador ao pai, ou simplesmente
ter feito pouco dela atrs das costas. No preciso momento em que
me estava a sentir pessimamente com tudo aquilo e a imaginar como
 que iria conseguir evitar Carey durante cinco horas, ela
voltou-se e olhou de novo para mim. Tinha um ligeiro sorriso nos
lbios.
     - Adoraria - disse ela, por fim. - Com uma condio.
     Eu preparei-me, esperando no ser alguma coisa demasiado
horrvel.
     -Sim?
     - Tens de prometer que no te vais apaixonar por mim.
     Sabia que estava a brincar pela maneira como se riu, e no
pude deixar de suspirar de alvio. s vezes, tinha de admitir,
Jamie revelava bastante sentido de humor.
     Sorri e dei-lhe a minha palavra.
CAPTULO 3

     Embora Jamie nunca tivesse ido a um baile de regresso s
aulas, j tinha ido a bailes da igreja. No danava mal - eu
tambm j estivera em alguns desses bailes e tinha-a visto
mas, para ser franco, era bastante difcil adivinhar como  que
se saria com algum como eu. Nos bailes da igreja danava sempre
com pessoas mais velhas, porque ningum da sua idade a convidava.
E danava muito bem aqueles estilos que tinham sido populares h
cerca de trinta anos. Sinceramente, no sabia o que esperar dela.
     Confesso que tambm estava um pouco preocupado com o que ela
iria vestir, embora no fosse assunto do qual lhe fosse falar.
Quando Jamie ia aos bailes da igreja vestia normalmente uma
camisola velha e uma das saias de xadrez que vamos na escola
todos os dias, mas o baile do regresso s aulas devia ser
especial. A maioria das raparigas comprava vestidos novos e os
rapazes vestiam fatos e, naquele ano, amos contratar um
fotgrafo. Sabia que Jamie no ia comprar um vestido novo, porque
no era propriamente rica. A profisso de sacerdote no dava
muito dinheiro. Mas claro que os pastores no escolhiam essa
ocupao por razes financeiras, escolhiam-na por vocao. Mas
tambm no queria que ela vestisse a mesma coisa que levava para
a escola todos os dias. No tanto por mim - no sou assim to
insensvel - mas por causa do que os outros pudessem dizer. No
queria que as pessoas troassem dela ou algo do gnero.
     As boas notcias, se  que havia boas notcias, foram que o
Eric no me arreliou muito a propsito da minha escolha porque
estava demasiado ocupado a pensar na sua prpria parceira. Ele ia
com Margaret Hays, a chefe da claque principal da nossa escola.
No era a mais esperta das raparigas, mas era gira  sua maneira.
Por gira refiro-me, claro, s pernas. Eric ofereceu-se para irmos
trocando de par ao longo da noite, mas recusei porque no queria
correr qualquer risco de ele troar de Jamie. Era bom rapaz, mas
podia ser um pouco cruel s vezes, especialmente depois de alguns
copos de bourbon.
     No dia do baile, estive bastante atarefado. Passei a maior
parte da tarde ajudando a decorar o ginsio e tinha de estar em
casa de Jamie cerca de meia hora mais cedo, porque o pai dela
queria falar comigo, embora eu no soubesse porqu. Jamie
surpreendera-me com esta exigncia apenas na vspera, e no posso
dizer que tenha ficado entusiasmado com a perspectiva. Imaginei
que me fosse falar da tentao e do caminho pernicioso do pecado
a que ela nos podia conduzir. Mas se viesse com a histria da
fornicao, eu sabia que ia cair morto ali mesmo. Rezei pequenas
oraes o dia inteiro na esperana de evitar aquela conversa, mas
no tinha a certeza de que Deus fosse dar prioridade s minhas
preces, por causa do modo como me havia comportado no passado.
Ficava bastante nervoso s de pensar no assunto.
     Depois de tomar um duche, vesti o meu melhor fato, passei a
correr pela florista para comprar flores para a Jamie e dirigi-me
 casa dela. A minha me emprestou-me o carro e estacionei-o
mesmo em frente  casa de Jamie. A hora ainda no tinha mudado,
por isso havia ainda luz na rua quando cheguei e percorri o
caminho esburacado em direco  porta. Bati e esperei um
momento, depois bati novamente. Por trs da porta, ouvi Hegbert
dizer "J vou", mas no vinha propriamente a correr. Devo ter
esperado ali mais ou menos dois minutos, a olhar para a porta, os
ornatos, as pequenas fendas nos peitoris das janelas. A um canto,
estavam as cadeiras onde eu eJamie estivramos sentados apenas
alguns dias antes.
     Aquela em que me havia sentado ainda estava virada na
direco oposta. Supus que ningum tinha estado ali durante os
ltimos dias.
     Finalmente, a porta abriu-se, rangendo. A luz do candeeiro
de dentro obscurecia ligeiramente o rosto de Hegbert e parecia
reflectir-se atravs do seu cabelo. Era velho, como j disse,
setenta e dois anos pelos meus clculos. Era a primeira vez que o
via de to perto, e conseguia ver-lhe todas as rugas no rosto. A
pele era realmente translcida, at mais do que eu tinha
imaginado.
     - Ol, Reverendo - disse eu, engolindo a minha ansiedade. -
Estou aqui para levar a Jamie ao baile.
     - Claro que est - disse ele. - Mas primeiro quero falar
consigo.
- Sim, Reverendo, foi por isso que vim cedo.
- Entre.
     Na igreja, Hegbert vestia-se de maneira muito elegante, mas
naquele momento parecia um agricultor, com um fato-macaco e uma
T-shirt. Fez-me sinal para me sentar na cadeira de madeira que
trouxera da cozinha.
- Desculpe ter demorado um pouco a abrir a porta. Estava a
trabalhar no sermo de amanh - disse.
     Sentei-me.
     - No tem importncia, Reverendo. - No sei porqu, mas
tnhamos mesmo de o tratar por "Reverendo". Era como se ele
projectasse essa imagem.
     - Muito bem, ento, fale-me de si.
     Achei que era um pedido um tanto ridculo, tendo ele estado
envolvido h tanto tempo com a minha famlia. Foi tambm ele que
me baptizou, e desde que eu era beb que me via na igreja todos
os domingos.
           - Bem, Reverendo - comecei, no sabendo bem o que dizer
- Sou presidente da associao de estudantes. No sei se Jamie
lhe falou nisso.
     Acenou que sim com a cabea.
- Falou. Continue.
     - E... bem, espero ir para a Universidade da Carolina do
Norte no prximo Outono. J recebi o formulrio da candidatura.
     Acenou novamente com a cabea.
- Mais alguma coisa?
     Tenho de admitir que estava a ficar sem nada para dizer
depois daquilo. Uma parte de mim queria pegar no lpis ao canto
da mesa e comear a equilibr-lo, demonstrando-lhe o que podia
fazer durante trinta segundos, mas ele no era o gnero de pessoa
para apreciar tal coisa.
     - Creio que no, Reverendo.
     - Importa-se que lhe faa uma pergunta?
     - No, Reverendo.
     Olhou-me durante um bom bocado, como se estivesse a meditar
sobre a pergunta.
     - Por que  que pediu  minha filha para ir ao baile
consigo? -     perguntou finalmente.
     Fiquei surpreendido, e sabia que a minha expresso o
demonstrava.
     - No percebo o que quer dizer, Reverendo.
     - No est a planear fazer nada para... a embaraar, pois
no?
     - No, Reverendo - disse rapidamente, chocado com a
acusao. - De maneira nenhuma. Precisava de algum para me
acompanhar, e pedi a Jamie.  to simples quanto isso.
     - No tem nenhuma partida planeada?
     - No, Reverendo. No faria isso com ela...
     Isto continuou durante mais alguns minutos - ele a
interrogar-me cerradamente acerca das minhas verdadeiras
intenes, mas, por sorte, Jamie surgiu de um dos quartos das
traseiras e o pai e eu virmo-nos para ela ao mesmo tempo.
Hegbert finalmente parou de falar, e eu soltei um suspiro de
alvio. Jamie vestia uma bonita saia azul e uma blusa branca que
eu nunca tinha visto antes. Felizmente, tinha deixado a camisola
no armrio. No estava mal, tinha de admitir, embora soubesse
que, comparada com as outras, no baile, iria mesmo assim parecer
mal vestida. Como sempre, tinha o cabelo apanhado. Por mim,
achava que teria ficado melhor com ele solto, mas essa era a
ltima coisa que queria dizer. Jamie parecia... Bem, Jamie
parecia exactamente ela prpria, mas pelo menos no fazia teno
de trazer a Bblia consigo. Isso seria de mais para se aguentar.
     - No est a ser difcil com o Landon, pois no? - perguntou
alegremente ao pai.
     - Estvamos apenas a conversar - disse eu rapidamente antes
de ele ter oportunidade de responder. Por alguma razo, no
achava que ele tivesse falado com Jamie sobre o tipo de pessoa
que ele pensava que eu era, e no considerava que aquela fosse
boa altura para o fazer.
     - Bem, se calhar, devamos ir - sugeriu ela depois de um
momento. Acho que pressentiu a tenso no ar. Dirigiu-se ao pai e
deu-lhe um beijo na face. - No fique at muito tarde a trabalhar
naquele sermo, est bem?
     - Est bem - disse ele baixinho. Mesmo comigo ali na sala,
pude perceber que ele a amava verdadeiramente e que no tinha
medo de o mostrar. O problema era o que pensava a meu respeito.
     Despedimo-nos e a caminho do carro entreguei a Jamie as
flores, dizendo-lhe que lhe mostraria como coloc-las ao peito
quando estivssemos dentro do carro. Abri-lhe a porta e dirigi-me
para o outro lado, entrando tambm. Nesse pequeno perodo de
tempo, Jamie j tinha colocado as flores ao peito.
     - No sou propriamente uma imbecil, sabes. Sei como se
prendem as flores ao peito.
     Pus o carro a trabalhar e segui em direco  escola. A
conversa que acabara de ter com Hegbert dava-me voltas  cabea.
     - O meu pai no gosta muito de ti - disse ela, como se
adivinhasse o que eu estava a pensar.
     Acenei com a cabea sem dizer nada.
     - Acha que s irresponsvel.
     Acenei de novo.
     - Tambm no gosta muito do teu pai.
     Acenei com a cabea mais uma vez.
     - Ou da tua famlia.
- J percebi.
     - Mas sabes o que eu acho? - perguntou de repente.
     - No. - Por esta altura j estava bastante abatido.
     - Acho que tudo isto estava de alguma maneira nos desgnios
de Deus. O que  que achas que  a mensagem?
     Pronto, l vamos ns, pensei para comigo.
     Duvido que a noite pudesse ter sido muito pior, se querem
saber a verdade. A maior parte dos meus amigos manteve-se 
distncia. Depois, Jamie no tinha muitos amigos, por isso
passmos a maior parte do tempo sozinhos. Pior ainda, descobri
que, afinal, a minha presena j no era necessria. Tinham
alterado as regras devido ao facto de Carey no ter conseguido
arranjar par, e isso fez-me sentir bastante incomodado. Mas, l
por causa do que o pai dela me dissera, no ia lev-la para casa
mais cedo, no  verdade? E mais, ela estava mesmo a divertir-se;
at eu podia perceber isso. Adorou as decoraes que eu ajudara a
montar, adorou a msica, adorou tudo no baile. Dizia-me
constantemente que achava tudo uma maravilha e perguntou-me se
poderia ajud-la a decorar a igreja um dia, para um dos bailes
que viessem a organizar. Murmurei meio contrafeito que podia
telefonar-me e, apesar de o ter dito sem nenhum indcio de
energia, Jamie agradeceu-me por ser to atencioso. Para ser
franco, senti-me deprimido durante pelo menos a primeira hora,
embora ela parecesse no notar.
     Jamie tinha de estar em casa s onze da noite, uma hora
antes de o baile terminar, o que tornava as coisas um pouco mais
fceis de suportar. Logo que a msica comeou, fomos danar e
descobri que ela danava bastante bem melhor at que algumas das
outras raparigas e isso ajudou um pouco a passar o tempo.
Deixou-se conduzir bastante bem durante cerca de uma dzia de
canes e, depois disso, dirigimo-nos s mesas e tivemos o que se
assemelhou a uma conversa normal. Claro, soltou palavras como
"f" e "jbilo" e at "salvao" no meio da conversa e falou
sobre ajudar os rfos e salvar animaizinhos da auto-estrada, mas
parecia realmente to alegre que era difcil sentir-me em baixo
durante muito tempo.
     Da que as coisas no tivessem corrido assim to mal ao
princpio, e, realmente, no foi pior do que aquilo que eu j
esperava. S quando Lew e Angela apareceram  que tudo comeou
mesmo a azedar.
     Entraram poucos minutos depois de ns termos chegado. Ele
vestia aquela T-shirt estpida, os Camels na manga e uma crista
de gel no cabelo  frente. Angela colou-se toda a ele logo desde
o principio do baile, e no era preciso ser gnio para perceber
que tinha bebido uns copos antes de ali chegar. O seu vestido era
verdadeiramente vistoso - a me dela trabalhava num salo de
cabeleireira e estava a par das ltimas modas e reparei que tinha
adquirido aquele hbito elegante de mascar pastilhas elsticas.
Moa mesmo aquela pastilha, mascando-a quase como um ruminante.
     Ora bem, o bom do Lew acrescentou lcool  tigela do ponche
e algumas pessoas comearam a ficar tontas. Quando os professores
descobriram, grande parte do ponche j tinha desaparecido e
muitos dos presentes comeavam a ficar com aquela expresso
vtrea nos olhos. Quando vi Angela a beber o segundo copo, senti
que devia ficar atento a ela. Apesar de me ter trocado por outro,
eu no queria que nada de mal lhe acontecesse. Foi a primeira
rapariga que beijei com a lngua e, apesar de os nossos dentes
terem chocado com tanta fora na primeira vez, de tal modo que
at vi estrelas e tive de tomar uma aspirina quando cheguei a
casa, ainda sentia alguma coisa por ela.
     Ali estava eu, sentado ao lado de Jamie, mal ouvindo as suas
descries das maravilhas do campo de frias da igreja,
observando Angela pelo canto do olho, quando Lew deu comigo a
olhar para ela. Num gesto nervoso, agarrou Angela  volta da
cintura e arrastou-a at  nossa mesa, lanando-me um daqueles
olhares desafiadores e perigosos. Sabem do que estou a falar.
     - Estavas a olhar para a minha namorada? - perguntou,
retesando-se.
     -No.
     - Estava, pois - disse Angela, arrastando as palavras. Ele
estava a olhar fixamente para mim. - Este  o meu antigo
namorado, aquele de que te falei.
     Os olhos dele semicerraram-se, como acontecia com os de
Hegbert. Parece que provoco esse efeito em muitas pessoas.
     - Ento s tu? - perguntou ele, sorrindo com desdm.
     Pois , eu no sou muito dado a lutas. A nica luta em que
me envolvi foi no terceiro ano, e parece que a perdi logo, pois
comecei a chorar mesmo antes de o outro rapaz me bater.
Normalmente, no tinha grande dificuldade em manter-me afastado
desse gnero de situaes devido  minha natureza passiva e, para
alm disso, ningum se metia comigo quando Eric estava por perto.
Mas agora Eric estava algures l fora com Margaret, provavelmente
por trs das bancadas, em lado nenhum que se pudesse ver.
     - No estava a olhar - respondi finalmente - e no sei o que
 que ela te disse, mas duvido que tenha sido verdade.
     Lew semicerrou de novo os olhos.
- Ests a chamar mentirosa  Angela? - perguntou desdenhosamente.
     Acho que ele me teria dado um soco ali mesmo, mas Jamie, de
sbito, meteu-se na conversa.
     - No te conheo de algum lado?     - perguntou alegremente,
olhando-o no rosto. s vezes, Jamie parecia no se aperceber de
situaes que estavam a ocorrer mesmo  sua frente. - Espera,
sim, conheo! Trabalhas na oficina do centro. O teu pai chama-se
Joe e a tua av vive na Foster Road  sada da cidade, perto da
passagem de nvel.
     Uma expresso confusa instalou-se no rosto de Lew, como se
estivesse a tentar compor um puzzle com demasiadas peas.
     - Como  que sabes tudo isso? O que  que ele fez, tambm
esteve a falar de mim?
     - No - respondeu Jamie - que disparate! - Riu-se sozinha.
S Jamie conseguia encontrar motivo para rir numa altura
daquelas. - Vi uma fotografia tua na casa da tua av. Eu ia a
passar, e ela precisava de ajuda para levar as compras para
dentro de casa. A foto estava em cima da lareira.
     Lew olhava para Jamie como se ela tivesse espigas de milho a
crescer-lhe nas orelhas.
     Entretanto, Jamie abanava-se com a mo.
- Bem, viemo-nos sentar aqui para descansar um pouco depois de
toda aquela dana. Faz mesmo calor ali. Querem juntar-se a ns?
Temos duas cadeiras a mais. Adorava saber como tem passado a tua
av!
     Ela parecia to contente com tudo aquilo que Lew no sabia o
que fazer. Ao contrrio de ns, que estvamos habituados quelas
coisas, ele nunca conhecera ningum como Jamie. Hesitou alguns
momentos, tentando decidir se deveria esmurrar ou no o tipo que
estava com a rapariga que tinha ajudado a sua av. Se vos parece
confuso, imaginem o que se estava a passar naquele crebro
danificado pelos vapores da gasolina de uma oficina.
     Por fim, foi-se embora sem responder, covardemente, levando
Angela consigo. De qualquer maneira, Angela j se devia ter
esquecido de como tudo aquilo havia comeado, devido ao que j
tinha bebido. Jamie e eu vimo-lo partir, e quando ele estava a
uma distncia segura, eu respirei de alvio. Nem sequer me dera
conta de que tinha estado a reter a respirao.
     - Obrigado - murmurei timidamente, apercebendo-me de que
fora Jamie, quem havia de dizer, que me tinha salvo de graves
danos fsicos.
     Jamie olhou de modo estranho para mim.
- Porqu? - perguntou, e como eu no lhe explicasse tudo com
exactido, voltou logo para a sua histria do campo de frias,
como se nada tivesse acontecido. Mas, desta vez, dei por mim
realmente a escut-la, pelo menos com um dos ouvidos. Era o
mnimo que eu podia fazer.
     Acontece que aquela no foi a ltima vez que vimos Lew e
Angela nessa noite. Os dois copos de ponche tinham mesmo dado
volta  rapariga, que acabou por vomitar na casa de banho das
senhoras. Lew, sendo o cavalheiro que era, foi-se embora quando a
ouviu vomitar, saindo furtivamente por onde tinha entrado. Foi a
ltima vez que o vi. Jamie, quis assim o destino, foi quem
encontrou Angela na casa de banho, e era evidente que Angela no
estava muito bem. A nica coisa a fazer era limp-la e lev-la
para casa antes que os professores descobrissem. Apanhar uma
bebedeira era um caso muito grave naqueles tempos e, se fosse
apanhada, corria o risco de ser suspensa, talvez at expulsa.
Jamie, Deus a abenoe, no queria que isso acontecesse. Eu tambm
no, ainda que pudesse ter pensado de outra maneira se me
tivessem perguntado de antemo, dado Angela ser menor e estar a
violar a lei. Tambm tinha quebrado outra das regras de conduta
de Hegbert. Hegbert reprovava severamente a violao da lei' e o
consumo de lcool, e apesar de isso o no arrebatar tanto como a
fornicao, todos sabamos que levava tais casos muito a srio.
Calculvamos que Jamie pensasse da mesma maneira. E talvez
pensasse, mas o seu instinto de ajuda deve ter-se apoderado dela.
Provavelmente, olhou para Angela e pensou "animalzinho ferido" ou
coisa parecida, tomando de imediato conta da situao. Ento fui
 procura de Eric e encontrei-o atrs das bancadas. Concordou em
ficar de guarda  porta da casa de banho enquanto Jamie e eu a
limpvamos. A Angela tinha feito um belo trabalho, digo-vos. O
vomitado estava por tudo o que era stio menos na retrete. Nas
paredes, no cho, nos lavatrios, at no tecto, mas no me
perguntem como  que ela conseguiu esse feito. Portanto, ali
estava eu, de joelhos e mos no cho, a limpar vomitado no baile
de regresso s aulas no meu melhor fato azul, exactamente o que
quisera evitar desde o princpio. E Jamie, o meu par, tambm
estava de joelhos e mos no cho, fazendo exactamente o mesmo.
     Quase que podia ouvir o riso esganiado de Carey algures, ao
longe.
     - Por favor, no contes nada disto ao teu pai - pedi.
     -    Est bem - concordou ela. Continuava a sorrir quando,
finalmente, se voltou para mim. - Diverti-me muito hoje  noite.
Obrigado por me teres levado ao baile.
     Ali estava ela, coberta de vmito, a agradecer-me por aquela
noite. Jamie Sullivan, s vezes, era mesmo capaz de dar com um
tipo em doido.
          Acabmos por sair s escondidas pela porta das
traseiras do ginsio, mantendo Angela equilibrada entre ns,
segurando-a para que se mantivesse de p. Estava sempre a
perguntar por Lew, mas Jamie dizia-lhe para no se preocupar.
Tinha uma maneira verdadeiramente tranquilizadora de falar com
Angela, apesar de esta se encontrar to fora de si que duvido que
soubesse sequer quem  que estava a falar. Levmo-la para o banco
de trs do meu carro, onde desmaiou logo a seguir, mas no antes
de ter vomitado mais uma vez no cho do carro. O cheiro era to
horrvel que tivemos de abrir as janelas para no sufocarmos, e o
caminho para a casa de Angela parecia mais longo que o habitual.
A me dela veio  porta, olhou para a filha e levou-a para dentro
de casa sem dar sequer uma palavra de agradecimento. Penso que se
sentia envergonhada, e ns, de qualquer maneira, no tnhamos
muito para lhe dizer. A situao falava por si.
          Quando a deixmos eram j dez e quarenta e cinco e
seguimos directamente para a casa de Jamie. Fiquei bastante
preocupado quando l chegmos por causa da sua aparncia e do
cheiro, e rezei em silncio para que Hegbert no estivesse
acordado. No queria ter de lhe explicar o que se tinha passado.
Bem, por certo daria ouvidos a Jamie se fosse ela a contar, mas
tinha um pressentimento de que, de qualquer maneira, ele
arranjaria maneira de me culpar.
          Acompanhei-a, ento, at  porta e detivemo-nos no lado
de fora sob a luz da varanda. Jamie cruzou os braos e esboou um
sorriso, dando a impresso de ter acabado de chegar de um calmo
passeio nocturno em que estivera a apreciar a beleza do mundo.
CAPTULO 4

     Nas duas semanas a seguir ao baile, a minha vida regressou
praticamente  normalidade. O meu pai estava de novo em
Washington D.C., o que tornava as coisas muito mais divertidas em
casa, sobretudo porque podia sair novamente s escondidas pela
janela e ir para o cemitrio nas minhas incurses nocturnas. No
sei o que nos atraa tanto ao cemitrio. Talvez tivesse alguma
coisa que ver com os prprios tmulos porque, no que tocava a
tmulos, at eram bastante confortveis.
     Normalmente, sentvamo-nos num pequeno lote onde a famlia
Preston tinha sido enterrada havia cerca de cem anos. Havia oito
pedras tumulares naquele stio, todas dispostas em crculo, o que
tornava fcil passar os amendoins entre ns. Uma vez, eu e os
meus amigos decidimos investigar aquilo que fosse possvel sobre
os Preston e fomos  biblioteca ver se havia alguma coisa escrita
a respeito desta famlia. Quer dizer, se nos vamos sentar no
tmulo de algum, j agora por que no saber alguma coisa sobre
essa pessoa, certo!?
     No havia muita coisa sobre a famlia nos registos
histricos, mas encontrmos uma informao interessante. Henry
Preston, o pai, tinha sido lenhador, maneta, acreditem ou no.
Parece que era capaz de derrubar uma rvore to depressa como
qualquer outro com ambos os braos. Ora bem, a viso de um
lenhador maneta  bastante forte, por isso falvamos muito sobre
ele. Costumvamos imaginar que mais poderia ele fazer com apenas
um brao e passvamos horas a discutir a que velocidade
conseguiria lanar uma
bola de basebol ou se seria capaz ou no de atravessar a nado a
Intracoastal Waterway. As nossas conversas no eram propriamente
eruditas, admito, mas, de qualquer maneira, eu gostava delas.
     Bem, Eric e eu estvamos no cemitrio numa noite de domingo
com dois outros amigos, a comer amendoins e a falar de Henry
Preston, quando o Eric me perguntou como tinha corrido a minha
"sada" com a Jamie Sullivan. Desde o baile que no tnhamos
estado muito tempo juntos, porque a poca de futebol j entrara
na fase das finais e Eric ausentara-se durante os ltimos
fins-de-semana com a equipa.
     - Correu bem - respondi, encolhendo os ombros, esforando-me
o melhor que podia por parecer desinteressado.
     Eric bateu-me amigavelmente com os cotovelos nas costelas, e
eu gritei. Ele era, pelo menos, dez quilos mais pesado que eu.
     - Deste-lhe um beijo de despedida?
     -No.
     Bebeu um longo trago da sua lata de Budweiser enquanto eu
respondia. No sei como  que ele conseguia, mas Eric nunca tinha
problemas em comprar cerveja, o que era estranho, uma vez que
toda a gente na cidade sabia a idade dele.
     Limpou os lbios com as costas da mo, lanando-me um olhar
de soslaio.
     - Pensava que depois de ela te ter ajudado a limpar a casa
de banho lhe tivesses dado, pelo menos, um beijo de despedida.
     - Pois, mas no dei.
     - Tentaste ao menos?
     -No.
-    Porqu?
     - Ela no  desse tipo de raparigas - retorqui e, apesar de
todos sabermos que isso era verdade, ainda assim parecia que
estava a defend-la.
     Eric agarrou-se a isso como uma sanguessuga.
     - Acho que gostas dela - insistiu.
     - S dizes disparates - disse eu, e ele deu-me uma palmada
nas costas com impacte suficiente para forar a sada do ar
dentro de mim. Andar com Eric implicava, normalmente, ficar com
algumas ndoas negras no dia seguinte.
     - Est bem, posso s dizer disparates - disse ele,
piscando-me o olho - mas s tu que ests caidinho pela Jamie
Sullivan.
     Sabia que estvamos a trilhar terreno perigoso.
     - Usei-a para impressionar a Margaret - disse eu. - E pelos
bilhetes de amor que ela me tem enviado ultimamente, suponho que
deve ter resultado.
     Eric riu-se alto, dando-me de novo uma palmada nas costas.
     - Tu e Margaret, ora a est uma coisa engraada...
     Sabia que tinha acabado de me esquivar de boa e suspirei de
alvio quando a conversa mudou de rumo. Participava de vez em
quando, mas no estava realmente atento ao que eles diziam. Em
vez disso, continuava a ouvir uma pequena voz dentro de mim que
me fazia pensar no que Eric havia dito.
     A verdade era que Jamie fora, provavelmente, o melhor par
que eu poderia ter tido naquela noite, sobretudo tendo em conta
como correu a noite. Pouquissimas parceiras - raios, pouquissima
gente, ponto final - teria feito o que ela fez. Ao mesmo tempo, o
facto de Jamie ter sido um bom par no queria dizer que eu
gostasse dela. No voltei a falar-lhe desde o baile, tirando as
vezes que a vi na aula de teatro e, mesmo ento, eram s algumas
palavras de vez em quando. Se realmente gostasse dela, disse para
comigo, teria sentido vontade de conversar com ela. Se gostasse
dela, ter-me-ia oferecido para a acompanhar a casa. Se gostasse
dela, teria querido lev-la ao Cecil's Diner para uma dose de
hushpuppies e uma Cola. Mas no queria fazer nenhuma dessas
coisas. No queria mesmo. Quanto a mim, j tinha cumprido a minha
penitncia.

     No dia seguinte, domingo, fiquei no meu quarto, a preencher
o formulrio de candidatura  UNC. Para alm das cpias dos
documentos da minha escola e de outras informaes pessoais, eles
pediam cinco composies do tipo normal. Se pudesses conhecer uma
figura da histria, quem seria essa figura e porqu? Qual a
influncia mais importante na tua vida e porqu? O que  que se
procura num heri e porqu? Os temas das composies eram
bastante previsveis - o nosso professor de Ingls tinha-nos
informado sobre o que esperar e eu j preparara duas ou trs
verses na aula como trabalho de casa.
     O Ingls era, provavelmente, a minha melhor disciplina.
Nunca tinha tido menos de dezasseis valores desde que comecei a
escola, e fiquei contente por darem importncia  escrita na
candidatura. Se tivesse sido a Matemtica, podia ter tido
problemas, sobretudo se inclusse aqueles problemas de lgebra
que falavam dos dois comboios que partiam com uma hora de
diferena um do outro, viajavam em direces opostas a sessenta e
cinco quilmetros por hora, etc. No que fosse mau a Matemtica -
costumava ter pelo menos um doze - mas no era muito vocacionado
para essa disciplina.
     Pois bem, estava a escrever uma das minhas composies
quando tocou o telefone. O nico telefone que tnhamos
encontrava-se na cozinha e tive de correr ao andar de baixo para
atender. Respirava to ruidosamente que no consegui distinguir
bem a voz, embora se parecesse com a da Angela. Sorri logo para
mim mesmo. Apesar de ter vomitado pela casa-de-banho toda, e de
eu ter tido de a limpar, na verdade, ela era bastante divertida a
maior parte do tempo. O seu vestido tinha sido mesmo um sucesso,
pelo menos durante a primeira hora. Calculei que estivesse a
telefonar para me agradecer, ou at para irmos juntos comer uma
sandes de carne grelhada e hushpuppies ou outra coisa do gnero.
     - Landon?
     - Oh, ol - disse eu, fingindo indiferena - tudo bem?
     Seguiu-se uma curta pausa do outro lado.
-    Como ests?
     Foi ento que percebi que no estava a falar com Angela, mas
sim com Jamie, e quase deixei o telefone cair. No posso dizer
que fiquei contente por ser ela. Por um instante, perguntei-me
quem lhe teria dado o meu nmero de telefone, at que me lembrei
que provavelmente estava nos registos da igreja.
     - Landon?
     - Estou bem - balbuciei por fim, ainda em estado de choque.
     - Ests ocupado?
     - Mais ou menos.
     -Ah... Est bem... - disse ela, a sua voz sumindo-se. Fez
outra pausa.
     - Por que me ests a telefonar? - perguntei.
     Levou alguns segundos para pr as palavras c fora.
     -Bem... queria s saber se no te importavas de vir at aqui
um pouco, l mais para o fim da tarde.
     - Ir at a?
     - Sim. A minha casa.
     - A tua casa? - Nem sequer tentei disfarar a crescente
surpresa na minha voz. Jamie ignorou-a e continuou.
     - Tenho de falar contigo sobre um assunto. No te pediria se
no fosse importante.
     - No podes dizer-me pelo telefone?
     - Preferia no o fazer.
     - Bem, estava a planear escrever as composies para a
candidatura  universidade esta tarde - disse, tentando
esquivar-me.
     - pronto... como disse,  importante, mas suponho que pode
ficar para falar contigo na escola, na segunda-feira
     Com isso percebi, de repente, que ela no me iria largar e
que acabaramos por falar de uma maneira ou de outra. Estudei
rapidamente todos os cenrios possveis, tentando imaginar qual
deles deveria escolher - falar com ela onde os meus amigos nos
vissem ou falar em casa dela. Apesar de nenhuma das opes ser
particularmente agradvel, qualquer coisa no fundo da minha mente
fazia-me lembrar que ela me havia ajudado quando fora mesmo
preciso, e que o mnimo que podia fazer era ouvir o que ela tinha
para dizer. Posso ser irresponsvel, mas sou um irresponsvel
simptico, mesmo que seja eu a diz-lo.
     Claro que isso no significava que todo o mundo tivesse de
ficar a saber.
     - No - disse eu - pode ser hoje
     Combinmos encontrar-nos s cinco horas, e o resto da tarde
passou devagar, lento como a tortura chinesa das gotas. Sa de
casa vinte minutos antes das cinco para ter tempo suficiente para
l chegar. A minha casa ficava perto da praia, virada para a
Intracoastal Waterway, na parte histrica da cidade, apenas a
duas casas de distncia do local onde o Blackbeard viveu. Jamie
morava no outro lado da cidade, para l da linha do comboio, por
isso eu iria levar aquele tempo a chegar l.
     Estvamos em Novembro, e o ar comeava a ficar mais fresco.
Uma das coisas de que realmente gostava em Beaufort era o facto
de as primaveras e os outonos durarem praticamente o ano todo.
Podia fazer calor no Vero ou nevar de seis em seis anos, e podia
haver um perodo de tempo muito frio que durava  volta de uma
semana no ms de Janeiro, mas durante a maior parte do tempo
precisvamos apenas de um casaco leve para suportar o Inverno.
Aquele era um desses dias perfeitos - vinte e pouco graus, sem
uma nuvem no cu.
     Cheguei a casa de Jamie mesmo  hora e bati  porta. Ela
veio abri-la, e uma espreitadela rpida revelou-me que Hegbert
no se encontrava em casa. O tempo no estava suficientemente
quente para um ch doce ou limonada, mas sentmo-nos de novo nas
cadeiras da varanda, sem beber nada. O Sol comeava a descer no
cu, e no havia ningum na rua. Desta vez no tive de mudar a
posio da cadeira. No tinham mexido nela desde a ltima vez que
eu ali estivera.
     - Obrigada por teres vindo, Landon - disse ela. - Sei que
ests muito ocupado, mas agradeo teres tirado algum tempo para
vir c.
     - Ento, o que h de to importante? - perguntei, querendo
despachar-me daquilo o mais depressa possvel.
     Jamie, pela primeira vez desde que a conhecera, parecia na
verdade nervosa sentada ali ao meu lado. Juntava e afastava as
mos continuamente.
     - Quero pedir-te um favor - disse ela com um ar srio.
     - Um favor?
     Acenou com a cabea.
     Primeiro, pensei que me fosse pedir para ajud-la a decorar
a igreja, tal como mencionara no baile, depois pensei que talvez
precisasse que eu usasse o carro da minha me para levar algumas
coisas para os rfos. Jamie no tinha carta de conduo e, de
qualquer maneira, Hegbert precisava constantemente do carro, uma
vez que havia sempre um funeral ou outra coisa qualquer a que ele
tinha de ir. Mas foram precisos ainda alguns segundos para que
ela comeasse a falar.
     Suspirou, juntando de novo as mos.
     - Queria perguntar-te se no te importarias de fazer de Tom
Thornton na pea da escola.
     Tom Thornton, como disse antes, era o homem que ia  procura
de uma caixinha de msica para a filha, aquele que se encontra
com o anjo. Tirando o anjo, era de longe o papel mais importante.
     -Bem... no sei - hesitei, confuso. - Pensei que Eddie Jones
fosse fazer de Tom. Foi o que Miss Garber nos disse.
     Eddie Jones era muito parecido com Carey Dennison. Era muito
magro, com a cara cheia de borbulhas e, normalmente, falava s
pessoas olhando-as de esguelha. Tinha um tique que o levava a
semicerrar os olhos sempre que ficava nervoso, o que acontecia
quase sempre. Provavelmente, acabaria a declamar o seu texto como
um cego psictico diante de uma multido. Como se no bastasse,
tambm gaguejava, demorando bastante tempo a dizer fosse o que
fosse. Miss Garber dera-lhe o papel por ele ter sido o nico a
oferecer-se para represent-lo, mas, mesmo assim, era evidente
que ela tambm no queria que fosse ele o intrprete. Os
professores tambm eram humanos, mas ela no tinha alternativa,
uma vez que ningum mais se tinha oferecido.
     - Miss Garber no disse isso exactamente. O que disse foi
que Eddie poderia ficar com o papel se mais ningum o quisesse
tentar fazer.
     - E no h outra pessoa para o fazer?
     Mas, na verdade, no havia mais ningum, e eu sabia disso.
Por causa da exigncia de Hegbert de que apenas os alunos do
ltimo ano podiam participar, a representao da pea estava
comprometida naquele ano. No ltimo ano do curso, havia cerca de
cinquenta rapazes, vinte e dois dos quais pertenciam  equipa de
futebol e, com a equipa ainda em competio para o ttulo
estadual, nenhum deles iria ter tempo para ir aos ensaios. Dos
cerca dos restantes trinta, mais de metade participava na banda e
tambm tinham ensaios depois das aulas. Um clculo rpido
revelava que havia uma dezena de rapazes que poderiam
candidatar-se ao papel na pea.
     Ora bem, eu no queria mesmo participar na pea, e no
apenas por ter acabado de descobrir que o teatro era a disciplina
mais chata que alguma vez tinham inventado. O problema era que j
levara Jamie ao baile e, com ela a fazer de anjo, no conseguia
suportar a ideia de ter de passar as tardes com ela durante todo
o ms. Ter sido visto com Jamie uma vez j me comprometia... Mas
ser visto com ela todos os dias!. Que diriam os meus amigos?
     Pude, no entanto, perceber que aquilo era realmente
importante para ela. O simples facto de me ter feito o pedido
tornava isso claro. Jamie nunca pedia um favor a ningum. Penso
que, l no fundo, desconfiava que jamais algum lhe faria um
favor, por causa de quem ela era. A simples percepo desse facto
fez-me sentir triste.
     - E o Jeff Bangert? Ele talvez possa - sugeri.
     Jamie abanou a cabea. - No pode. O pai dele est doente, e
tem de trabalhar na loja depois das aulas at ele melhorar.
     - E Darren Woods?
     - Partiu o brao a semana passada quando escorregou no
barco. Tem o brao engessado.
     - A srio? No sabia disso - retorqui, ganhando tempo, mas
Jamie sabia o que eu estava a fazer.
     - Tenho rezado muito por isto, Landon - disse ela
simplesmente, e suspirou uma vez mais. - Gostava mesmo que esta
pea fosse especial este ano, no por mim, mas pelo meu pai.
Quero que seja a melhor encenao de sempre. Eu sei o que
significar para ele ver-me no papel de anjo, porque esta pea
faz-lhe recordar-se da minha me ... - Fez uma pausa, organizando
os pensamentos. - Seria horrvel se fosse um fracasso este ano,
especialmente porque eu estou envolvida.
     Deteve-se de novo antes de continuar. A sua voz tornava-se
mais emocionada  medida que prosseguia.
     - Sei que Eddie daria o seu melhor, sei isso muito bem. E
no tenho quaisquer problemas em fazer a pea com ele, no tenho
mesmo. Na verdade, ele  muito boa pessoa, mas disse-me que j
no tinha a certeza de querer faz-la. s vezes, as pessoas na
escola podem ser to... to... cruis, e no quero que magoem o
Eddie. Mas... - respirou fundo - mas a verdadeira razo por que
te estou a pedir  o meu pai.  um homem to bom, Landon. Se as
pessoas fizerem troa das recordaes que ele tem da minha me
enquanto eu estiver a representar o papel... Bem, isso iria
entristecer-me muito. E com Eddie e eu... Sabes o que iriam
dizer.
     Concordei com a cabea, franzindo os lbios, sabendo que eu
teria sido uma dessas pessoas de quem ela estava a falar. Na
verdade, j era uma delas. Jamie e Eddie, o duo dinmico, como
lhe chamvamos, depois de Miss Garber ter anunciado que seriam
eles a interpretar aqueles papis. O simples facto de ter sido eu
a comear essa brincadeira fez-me sentir pessimamente, quase at
 nusea.
     Ela endireitou-se na cadeira e olhou para mim com um ar
triste, como se j soubesse que eu ia dizer que no. Suponho que
no sabia como eu me estava a sentir. Continuou.
     - Sei que os desafios so sempre parte dos desgnios de
Deus, mas no quero crer que Deus seja cruel, especialmente para
algum como o meu pai. Ele dedica a sua vida a Deus, entrega-se 
comunidade. E j perdeu a mulher e teve de me criar sozinho. E
amo-o muito por isso
     Jamie virou a cabea, mas pude ver lgrimas nos seus olhos.
Era a primeira vez que a via chorar. Penso que parte de mim
queria chorar tambm.
     - No estou a pedir que o faas por mim - disse baixinho - A
srio que no e, se recusares, continuarei a rezar por ti.
Prometo. Mas se quiseres fazer algo de simptico por um homem
maravilhoso que  to importante para mim... Podes s pensar no
assunto?
     Os olhos dela pareciam os de um cocker spaniel que tinha
acabado de fazer porcaria no tapete. Olhei para os ps.
     - No preciso de pensar no assunto - disse, por fim. -
Aceito. Realmente no tinha escolha, pois no?
CAPTULO 5

     No dia seguinte, falei com Miss Garber, prestei provas e
fiquei com o papel. Eddie no ficou nada aborrecido. Na verdade,
percebi que tinha ficado verdadeiramente aliviado com tudo
aquilo. Quando Miss Garber lhe perguntou se estaria disposto a
deixar-me interpretar o papel de Tom Thornton, o seu rosto
descontraiu-se de imediato e um dos seus olhos voltou a abrir-se.
- S-s-sim, c-c-com c-c-certeza - disse gaguejando. - E-e-eu
com-com-compreendo. - Levou quase dez segundos para conseguir
dizer aquilo.
     Pela sua generosidade, porm, Miss Garber deu-lhe o papel do
vagabundo e todos sabamos que ele iria sair-se bastante bem
nesse papel. O vagabundo, esto a ver, era completamente mudo,
mas o anjo sabia sempre o que ele estava a pensar. A certa altura
da pea, o anjo tem de dizer ao vagabundo mudo que Deus olhar
sempre por ele, porque Deus se preocupa especialmente com os
pobres e os oprimidos. Esse era um dos sinais para a assistncia
de que o anjo tinha sido enviado por Deus. Como disse antes,
Hegbert queria que ficasse bem claro quem concedia a redeno e a
salvao, e por certo, no iriam ser uns quantos fantasmas
raquticos que surgiam subitamente do nada.
     Os ensaios comearam na semana seguinte. Ensaivamos na sala
de aulas, porque a Playhouse no nos abria as portas at termos
superado todos as "pequenas falhas" na nossa representao. Por
pequenas falhas, quero referir-me  nossa tendncia para derrubar
acidentalmente os adereos. Estes tinham sido feitos por Toby
Bush, cerca de quinze anos antes, quando a pea foi encenada pela
primeira vez. Toby Bush era uma espcie de biscateiro errante que
tinha realizado alguns projectos para a Playhouse no passado. Era
um biscateiro errante porque bebia cerveja o dia inteiro enquanto
trabalhava, e por volta das duas horas, mais ou menos, j estava
nas nuvens. Suponho que no via bem, porque magoava os dedos com
o martelo pelo menos uma vez por dia. Sempre que isso acontecia,
atirava o martelo para o cho e desatava aos pulos, segurando os
dedos e amaldioando toda a gente desde a me at ao Diabo.
Quando, por fim, se acalmava, bebia outra cerveja para aliviar as
dores antes de regressar ao trabalho. Tinha os ns dos dedos do
tamanho de amndoas, permanentemente inchados devido a anos e
anos de marteladas, e ningum estava disposto a contrat-lo a
tempo inteiro. A nica razo por que Hegbert o havia contratado
foi por ele cobrar os preos mais baixos da cidade
     Mas Hegbert no permitia a bebida ou palavres e Toby,
realmente, no sabia como trabalhar num ambiente to severo. Como
resultado, o trabalho ficou meio desengonado, embora no fosse,
na verdade, assim to mau. Alguns anos depois, os adereos
comearam a desconjuntar-se e Hegbert assumiu a tarefa de manter
as coisas juntas. Mas embora Hegbert fosse bom a pregar a Bblia,
no o era a pregar pregos, e os adereos tinham pregos torcidos e
ferrugentos espetados por todo o lado, de tal modo que tnhamos
de ter o cuidado de andar exactamente pelo stio certo. Se
fossemos de encontro a eles seguindo um trajecto errado, ou se
nos magossemos e os adereos tombassem, os pregos faziam
pequenos buracos no cho do palco. Alguns anos mais tarde, o
palco da Playhouse teve de levar um novo revestimento e, embora
no pudessem fechar as suas portas a Hegbert, fizeram um acordo
com ele para que tivesse mais cuidado no futuro. Isso queria
dizer que devamos ensaiar na sala de aula at superarmos as
"pequenas falhas".
     Felizmente, Hegbert no se envolvia na produo da pea,
devido a todos os seus deveres de pastor. A tarefa cabia a Miss
Garber, e a primeira coisa que ela nos disse foi para
memorizarmos os nossos textos o mais depressa possvel. No
tnhamos tanto tempo quanto o que normalmente era concedido para
os ensaios, porque o Dia de Aco de Graas calhava no ltimo dia
de Novembro, e Hegbert no queria que a pea fosse representada
muito prximo do Natal, de modo a no interferir com "o seu
verdadeiro significado". Isso deixava-nos apenas trs semanas
para a conseguirmos montar, uma semana menos do que era habitual.
     Os ensaios comeavam s trs, e Jamie sabia todo o seu texto
de cor logo no primeiro dia, o que no era realmente
surpreendente. O surpreendente era que ela sabia todo o meu texto
tambm, assim como o texto de todos os outros. Quando estvamos a
ensaiar uma cena, ela fazia-o sem o guio, e eu tinha de olhar
para uma pilha de folhas, tentando descobrir qual seria a minha
prxima deixa. Sempre que olhava para Jamie ela parecia
verdadeiramente radiante, como se o brilho de uma chama a
iluminasse. As nicas deixas que eu sabia naquele primeiro dia
eram as do vagabundo mudo e, de repente, fiquei mesmo com inveja
do Eddie, pelo menos nesse aspecto. Aquilo ia dar muito trabalho,
no era bem o que tinha esperado quando me inscrevera na
disciplina de teatro.
     Os sentimentos nobres que nutria pela minha participao na
pea haviam-se desvanecido logo no segundo dia de ensaios. Embora
soubesse que estava a fazer a "coisa certa", os meus amigos no
compreendiam nada daquilo, e andavam a chatear-me desde que
descobriram que eu ia entrar.
- Vais fazer o qu?      - perguntou Eric quando soube.       -
Vais entrar na pea com a Jamie Sullivan? Ests doido ou s
simplesmente estpido? - Resmunguei que tinha uma boa razo, mas
ele no largava o assunto e disse a todos do nosso grupo que eu
tinha um fraquinho por ela. Neguei-o, claro, o que s fez com que
ficassem a pensar que era verdade; riam-se ainda mais alto e
contavam  pessoa que encontrassem a seguir. As histrias
comeavam a tornar-se mais disparatadas tambm -  hora do almoo
j tinha ouvido a Sally dizer que eu estava a pensar em ficar
noivo. Com efeito, penso que Sally ficou com cimes. Ela tivera
um fraquinho por mim durante anos, e o sentimento poderia ter
sido recproco se no fosse o facto de ela ter um olho de vidro,
e isso era coisa que eu simplesmente no conseguia ignorar. O
olho de vidro lembrava-me algo que podamos ver enfiado na cabea
de um mocho embalsamado numa loja de antiguidades pirosa e, para
ser franco, isso causava-me arrepios.
     Suponho que foi ento que comecei de novo a sentir rancor
por Jamie. Sei que a culpa no era dela, mas era eu quem estava a
sacrificar-me por Hegbert, que na noite do baile no se esforara
para que eu me sentisse bem-vindo. Comecei a encalhar nas deixas
durante os ensaios dos dias seguintes, na verdade nem sequer
tentando decor-las, e, de vez em quando, saa-me com uma piada
ou duas, de que todos se riam menos Jamie e Miss Garber. Depois
de terminados os ensaios, ia para casa esquecer a pea, e nem me
dava ao trabalho de pegar no texto. Em vez disso, gozava com os
meus amigos sobre as coisas esquisitas que Jamie fazia e contava
mentiras sobre como tinha sido Miss Garber a forar-me a entrar
na pea.
     A Jamie, porm, no me ia largar to facilmente. No,
atingiu-me mesmo onde di, mesmo em cheio no meu ego.
     Cerca de uma semana aps o incio dos ensaios, eu sa com
Eric um sbado  noite para assistir a um jogo do campeonato
estadual de futebol de Beaufort. Aps o jogo, encontrvamo-nos 
beira do mar junto ao Ceci'ls Diner a comer hushpuppies e a ver
as pessoas a passearem de carro de um lado para o outro, quando
vi Jamie a descer a rua. Vinha ainda a uns cem metros de
distncia, voltando a cabea de um lado para o outro, vestindo
aquela velha camisola castanha de novo e com a Bblia na mo.
Deviam ser mais ou menos nove horas, o que era tarde para ela
andar na rua e, mais estranho ainda, era v-la naquela zona da
cidade. Voltei-lhe as costas e puxei a gola do casaco para cima,
mas at a Margaret - que tinha pudim de banana no lugar do
crebro - era suficientemente esperta para perceber de quem  que
ela andava  procura.
     - Landon, vem ali a tua namorada.
     - Ela no  a minha namorada - resmunguei. - No tenho
namorada.
     - A tua noiva, ento.
     Imagino que tambm tivesse falado com a Sally.
     - No estou noivo - disse. - Parem j com isso.
     Olhei por cima do ombro para ver se ela j me tinha visto, e
imagino que sim. Caminhava na nossa direco. Fingi no reparar.
     - A vem ela - disse Margaret, soltando umas risadinhas.
     - Eu sei - disse eu.
     Vinte segundos depois, repetiu o aviso.
     - Continua a vir. - J vos tinha dito que ela era
inteligente.
     - Eu sei - resmunguei entre dentes. Se no fossem as pernas
dela, podia quase irritar-nos tanto como a Jamie.
     Olhei de novo em volta e, desta vez, Jamie sabia que eu a
tinha visto. Sorriu e acenou para mim. Voltei-me para o lado, e
um momento depois ela estava ali mesmo  minha frente.
     - Ol, Landon - disse, sem reparar no meu desdm. - Ol,
Eric, Margaret... - Cumprimentou o grupo todo. Toda a gente
murmurou uma espcie de "ol" e tentou no olhar para a Bblia.
     Eric tinha uma cerveja na mo e escondeu-a atrs das costas.
At mesmo Eric, Jamie era capaz de o fazer sentir-se culpado se
estivesse bem perto dele. Tinham sido vizinhos em tempos, e Eric
j ouvira as suas conversas antes. Nas costas dela, chamava-lhe
"a Senhora da Salvao", numa referncia bvia ao Exrcito de
Salvao. - Ela teria dado um bom general de brigada - gostava de
dizer. Mas quando ela estava mesmo  sua frente, a histria era
outra. Na mente de Eric, Jamie tinha um acordo com Deus, e ele
no queria deixar de estar nas suas boas graas.
     - Como ests, Eric? No te tenho visto muito ultimamente.
Disse isto como se ainda falasse com ele todos os dias.
     Eric passava o peso de um p para o outro e olhava para os
sapatos, fazendo aquele seu ar de culpado. No que isso lhe
valesse de muito.
     - Bem, no tenho ido  igreja ultimamente - disse ele.
     Jamie fez aquele sorriso brilhante:
- Bem, no faz mal, julgo eu, desde que no se torne um hbito.
     -No.
     - Ora bem, j ouvi falar da confisso, aquela coisa quando
os catlicos se sentam atrs de uma cortina e contam ao padre
todos os seus pecados - e era assim que Eric agia quando estava
perto de Jamie. Por um segundo, pensei que a fosse tratar por
"minha senhora".
     - Queres uma cerveja? - perguntou Margaret. Acho que estava
a tentar ser engraada, mas ningum se riu.
     Jamie levou a mo ao cabelo, mexendo levemente no carrapito.
-Oh... no... Mas obrigada, de qualquer maneira.
     Olhou directamente para mim com um brilho muito carinhoso, e
soube de imediato que estava metido em sarilhos. Pensei que me
fosse pedir que nos afastssemos para conversar ou coisa
parecida, o que para ser franco achava melhor, mas suponho que
isso no estava nos seus planos.
     - Estiveste realmente muito bem esta semana nos ensaios -
disse-me. - Sei que tens muito texto para decorar, mas tenho
a certeza de que vais conseguir decor-lo todo no tarda nada.
E queria s agradecer-te por te teres oferecido como o fizeste.
s um verdadeiro cavalheiro.
     - Obrigado - disse eu, um pequeno n formando-se no meu
estmago. Tentei agir  maneira, mas todos os meus amigos olhavam
para mim, a questionarem-se subitamente se eu lhes havia dito a
verdade sobre Miss Garber me ter forado para o papel. Esperava
que no tivessem reparado.
     - Os teus amigos devem estar orgulhosos de ti - acrescentou
Jamie, anulando essa hiptese.
     - Mas  claro que estamos - disse Eric, continuando a
espicaar-me. - Muito orgulhosos. E um bom rapaz, o Landon,
oferecendo-se como voluntrio.
     Jamie sorriu para ele; depois, voltou-se de novo para mim,
sempre da mesma maneira alegre.
- Tambm queria dizer-te que se precisares de alguma ajuda podes
ir visitar-me a qualquer altura. Podemos sentar-nos na varanda
como fizemos antes e ensaiar o teu texto, se precisares.
     Vi Eric pronunciar as palavras "como fizemos antes" a
Margaret. As coisas realmente no estavam a correr nada bem.
Nessa altura, o buraco no meu estmago j estava to grande como
uma bola de bowling gigante.
     - No  preciso - murmurei, perguntando a mim mesmo como
poderia escapar daquela situao. - Posso decor-lo em casa.
     - Bem, s vezes ajuda se houver algum para o ler contigo,
Landon - sugeriu Eric.
     Eu disse-vos que ele me trairia, apesar de ser meu amigo.
     - No, a srio - disse-lhe - Decoro o texto sozinho.
     - Se calhar - sugeriu Eric, sorrindo - vocs deviam era
ensaiar em frente dos rfos, quando j souberem o texto um
potico melhor. Uma espcie de ensaio geral, sabem? Tenho a
certeza de que eles adorariam ver a pea.
     Quase se podia ver a mente de Jamie comear a tremeluzir 
meno da palavra rfos. Toda a gente sabia qual era o seu ponto
sensvel.
- Achas que sim? - perguntou.
     Eric acenou com a cabea com ar srio.
- Tenho a certeza. foi Landon que pensou nisso primeiro, mas sei
que se fosse rfo, adoraria uma coisa assim, mesmo que no fosse
exactamente a representao no palco.
     - Eu tambm - ajudou Margaret.
     Enquanto falavam, a nica coisa em que eu conseguia pensar
era naquela cena de Jlio Csar em que Brutus o apunhala pelas
costas. Et tu, Eric?
     - Foi ideia de Landon? - perguntou Jamie, franzindo as
sobrancelhas. Ela olhou para mim, e eu podia ver que ela ainda
estava com dvidas.
     Mas Eric no me ia deixar escapar do anzol assim to
facilmente. Agora que me tinha a estrebuchar no convs, a nica
coisa que lhe restava fazer era estripar-me.
- Gostavas de fazer isso, no gostavas, Landon? - perguntou. -
Ajudar os rfos?
     No era propriamente algo a que se pudesse responder que
no.
     - Suponho que sim - disse baixinho, olhando furioso para o
meu melhor amigo. Eric, apesar das lies dadas por um explicador
a que tinha de recorrer, teria dado um grande jogador de xadrez.
     - ptimo, ento, est tudo combinado. Isto , se no te
importares, Jamie. - O sorriso dele era to doce que teria
chegado para dar sabor a metade das RC Colas de todo o distrito.
     -Bem... sim, suponho que terei de falar com a Miss Garber e
o director do orfanato mas, se eles concordarem, penso que ser
uma ptima ideia.
     E a verdade  que se podia perceber que ela estava realmente
contente com aquilo.
Xeque-mate.
     No dia seguinte, passei catorze horas a memorizar o meu
texto, amaldioando os meus amigos, e perguntando-me como  que a
minha vida tinha descarrilado daquela maneira. O meu ltimo ano
na escola secundria, decididamente, no estava a correr como eu
imaginara, mas se tinha de representar para um grupo de rfos,
certamente no queria fazer figura de idiota.
CAPTULO 6

     A primeira coisa que fizemos foi falar com Miss Garber sobre
os nossos planos para os rfos. Achou que a ideia era
maravilhosa. Essa era mesmo a sua palavra preferida, depois de
nos cumprimentar com um "Ol". Na segunda-feira, quando se
apercebeu de que eu sabia o meu texto todo de cor, disse - 
maravilhoso! - e durante as duas horas seguintes, sempre que eu
terminava uma cena, dizia-o de novo. Quando chegmos ao fim do
ensaio j a tinha ouvido quatro milhes de vezes.
          Mas Miss Garber, na verdade, teve uma ideia ainda
melhor do que a nossa. Disse  turma o que amos fazer e
perguntou aos outros membros do elenco se estariam dispostos a
representar tambm os seus papis, para que os rfos pudessem
desfrutar da pea completa. O modo como fez a pergunta
significava que eles, na realidade, no tinham alternativa. Olhou
em redor da sala,  espera que algum acenasse afirmativamente
com a cabea para poder tornar a deciso oficial. Ningum mexeu
um msculo, exceptuando Eddie. No sei bem como foi, mas um
insecto que se introduziu pelo nariz dele naquele preciso momento
f-lo espirrar violentamente. O bicho saiu a voar do nariz do
Eddie, projectando-se sobre a carteira dele e foi cair no cho
mesmo ao lado da perna de Norma Jean. Ela saltou da cadeira e deu
um grito, e os que estavam ao lado dela exclamaram
-Fuu... que nojo! - O resto da turma comeou a olhar em volta e a
esticar os pescoos para tentar perceber o que tinha acontecido
e, durante os dez segundos seguintes, o pandemnio na sala foi
geral. Para Miss Garber essa era a resposta de que precisava.
     - Maravilhoso! - exclamou, pondo fim quela desordem.
     Jamie, entretanto, estava a ficar verdadeiramente
entusiasmada com a ideia de representar para os rfos. Durante
um intervalo nos ensaios, puxou-me para o lado e agradeceu-me por
ter pensado neles.
- No o podias saber de maneira nenhuma - disse ela quase em tom
de conspirao - mas eu tinha andado a pensar no que fazer para o
orfanato este ano. Tenho rezado por isso h meses, porque quero
que este Natal seja o mais especial de todos.
     - Porque  que este Natal  to importante? - perguntei-lhe,
e ela sorriu pacientemente, como se fosse uma pergunta que no
tivesse grande importncia.
     - Porque sim - respondeu, apenas.
     O passo seguinte era falar do assunto com Mr. Jenkins, o
director do orfanato. Ora, eu no conhecia Mr. Jenkins, uma vez
que o orfanato ficava em Morehead City, do outro lado da ponte
que saa de Beaufort, e nunca tivera qualquer motivo para l ir.
Quando, no dia seguinte, Jamie me surpreendeu com a notcia de
que nos iramos encontrar com ele naquela tarde, fiquei meio
preocupado pensando que no estaria vestido  altura. Sei que era
um orfanato, mas gostamos sempre de causar uma boa impresso.
Apesar de no estar to entusiasmado com a ideia como Jamie
(ningum se entusiasmava tanto pelas coisas como ela), tambm no
queria ser visto como o Grinch que tinha estragado o Natal dos
rfos.
     Antes de irmos ao orfanato para o nosso encontro, tivemos de
ir a p at minha casa buscar o carro da minha me e, uma vez l,
planeava mudar de roupa e vestir qualquer coisa melhor. A
caminhada durou cerca de dez minutos, e Jamie pouco falou, pelo
menos at chegarmos ao meu bairro. As casas que ficavam junto da
minha eram todas grandes e bem conservadas, e ela quis saber quem
vivia nelas e h quantos anos tinham sido construdas. Respondi
s suas perguntas sem prestar muita ateno, mas quando abri a
porta da frente da minha casa, percebi, de repente, como aquele
mundo era to diferente do dela. Jamie tinha uma expresso de
espanto no rosto enquanto olhava em volta da sala de estar,
absorvendo aquilo que a rodeava.
     Aquela era, com certeza, a casa mais luxuosa que ela alguma
vez conhecera. No instante seguinte, reparei nos seus olhos a
viajarem pelos quadros que ornavam as paredes. Eram retratos dos
meus antepassados. Como em muitas famlias do Sul, toda a minha
ascendncia completa podia ser seguida atravs da dezena de
rostos que ladeavam as paredes. Jamie examinou-os demoradamente,
procurando parecenas, penso eu; depois, voltou a sua ateno
para a moblia, que parecia ainda praticamente nova, mesmo
passados vinte anos. Os mveis tinham sido fabricados e
esculpidos  mo, em mogno e cerejeira, e concebidos
especificamente para cada diviso da casa. Eram bonitos, tinha de
admitir mas, na realidade, eu no lhes prestava muita ateno.
Para mim, era apenas uma casa. A minha parte preferida era a
janela do meu quarto que dava para a varanda do primeiro andar.
Essa era a janela das minhas escapadelas.
     De qualquer maneira, mostrei-lhe a casa, conduzindo-a numa
pequena excurso  sala de visitas, biblioteca, escritrio e sala
de estar. Os olhos de Jamie iam ficando cada vez mais arregalados
com cada diviso da casa que ia vendo. A minha me estava l fora
no solrio, bebericando um ch de hortel-pimenta e a ler.
Ouviu-nos a espiolhar pela casa, e veio para dentro para nos
cumprimentar.
     Acho que j disse que todos os adultos na cidade adoravam
Jamie, incluindo a minha me. Apesar de Hegbert fazer sempre
aquele gnero de sermes em que o nome da nossa famlia estava
fortemente implcito, a minha me nunca tomara isso contra Jamie,
por ela ser to amorosa. Assim, elas ficaram a conversar enquanto
eu subi ao meu quarto no andar de cima para vasculhar o armrio 
procura de uma camisa limpa e de uma gravata. Naquele tempo, os
rapazes usavam gravata, especialmente quando se iam encontrar com
algum com autoridade. Quando desci as escadas vestido a rigor,
Jamie j tinha contado o plano  minha me.
     -  uma ideia maravilhosa - disse Jamie, sorrindo
alegremente para mim. - O Landon tem mesmo um corao especial.
     A minha me - depois de se certificar de que tinha ouvido
bem o que Jamie dissera - olhou para mim com as sobrancelhas
erguidas, como se eu fosse um extraterrestre.
      - Ento isto foi ideia tua? - perguntou-me. Como toda a
gente na cidade, ela sabia que Jamie no mentia.
      Pigarreei, pensando em Eric e no que ainda lhe queria fazer.
Havia de me vingar com melao e formigas.
      - Mais ou menos - respondi.
      - Espantoso. - Foi a nica palavra que conseguiu atirar para
fora. No conhecia os pormenores, mas sabia que eu devia ter sido
encurralado para fazer uma coisa daquelas. As mes sabem sempre
essas coisas e reparei nela a fitar-me com ateno tentando
descortinar o que se tinha passado. Para fugir ao seu olhar
inquiridor, ollhei para o meu relgio, fingi surpresa e,
despreocupadamente, disse a Jamie que era melhor irmos andando. A
minha me foi buscar as chaves do carro  sua carteira e
entregou-mas, continuando a olhar-me de cima a baixo enquanto nos
dirigamos para a porta. Suspirei de alivio, imaginando que de
uma maneira ou de outra me havia livrado de qualquer coisa, mas
enquanto acompanhava Jamie at ao carro, ouvi de novo a sua voz.
      - Aparece quando quiseres, Jamie - gritou a minha me. -
Sers sempre bem-vinda.
At as mes, por vezes, podem apunhalar-nos pelas costas. Estava
ainda a abanar a cabea quando entrei no carro.
- A tua me  uma senhora encantadora - disse Jamie.
Liguei o motor.
- E - disse eu - suponho que sim.
- E a tua casa  linda.
-Ah!
- Devias sentir-te grato.
      - Oh - disse eu - Sinto-me, pois! Sou o tipo com mais sorte
no mundo.
      Mas ela no detectou o tom sarcstico na minha voz.

     Chegmos ao orfanato mesmo quando comeava a escurecer.
Chegmos alguns minutos antes, e o director falava ao telefone.
Era uma chamada importante, e no nos podia receber de imediato,
por isso sentmo-nos num banco no corredor junto  sua porta.
Estvamos ali  espera, quando Jamie se virou para mim. Tinha a
Bblia no colo. Suponho que a queria para apoio mas, por outro
lado, podia ser s um hbito.
     -     Saste-te muito bem hoje - disse ela. - Isto , com o
teu texto.
     -     Obrigado - disse, sentindo-me orgulhoso e deprimido ao
mesmo tempo. - Mas ainda no consegui aprender os movimentos -
concedi. No havia maneira de podermos ensaiar isso na varanda, e
esperava que ela no o fosse sugerir.
     - Vais aprender.  fcil depois de se saber o texto todo.
     -     Espero que sim.
     Jamie sorriu e passado um momento mudou de assunto,
apanhando-me mais ou menos desprevenido.
- Costumas pensar no futuro, Landon? - perguntou.
Fiquei surpreendido com a pergunta, pois parecia... to banal.
- Sim, claro. Suponho que sim - respondi com cuidado.
     - Ento, o que  que queres fazer da tua vida?
Encolhi os ombros, um pouco receoso com o rumo da conversa.
-    Ainda no sei. No resolvi essa parte. No Outono, vou para a
UNC, pelo menos espero ir.  preciso que me aceitem primeiro.
     - Vo aceitar-te - disse ela.
- Como  que sabes?
     - Porque tambm rezei por isso.
     Quando ela disse aquilo, pensei que fssemos entrar numa
conversa sobre o poder da orao e da f, mas Jamie atirou-me
outra pergunta inesperada.
- E depois da universidade? O que  que pensas fazer ento?
- No sei - respondi, encolhendo os ombros. - Se calhar
vou ser um lenhador maneta.
Ela no achou graa.
     -    Acho que deverias ser sacerdote - disse ela seriamente.
- Acho que s bom a lidar com as pessoas, e elas respeitariam o
que tu tivesses para dizer.
     Embora a ideia fosse completamente ridcula, eu sabia que
lhe vinha directamente do corao e que o dizia como um elogio.
     -    Obrigado - disse. - No sei se farei isso, mas tenho a
certeza de que encontrarei qualquer coisa. - Levou-me um momento
a perceber que a conversa tinha estagnado e que era a minha vez
de fazer uma pergunta.
     -    E tu? Que queres fazer no futuro?
     Jamie desviou o rosto, agora com um olhar distante, fazendo
com que me interrogasse sobre o que ela estaria a pensar. Mas o
olhar desapareceu quase to subitamente como tinha surgido.
     -    Quero casar-me - disse baixinho. - E quando casar,
quero que o meu pai me leve at ao altar ao longo da nave da
igreja e quero que toda a gente que conheo esteja l. Quero a
igreja a abarrotar de pessoas.
     -    S isso? - Embora no fosse adverso  ideia de me
casar, parecia-me algo absurdo desejar isso como o objectivo da
minha vida.
     - Sim - respondeu. -  tudo o que quero.
     O modo como respondeu fez-me suspeitar que ela pensava que
acabaria como Miss Garber. Tentei fazer com que ela se sentisse
melhor, apesar de continuar a achar aquilo ridculo.
     - Bem, hs-de casar-te um dia. Vais conhecer um rapaz, vo
dar-se bem e ele h-de pedir-te em casamento. E tenho a certeza
de que o teu pai ter muito prazer em te acompanhar at ao altar.
     No inclu a parte da igreja cheia de gente. Suponho que era
a nica coisa que at eu no conseguia imaginar.
     Jamie reflectiu atentamente na minha resposta, ponderando no
modo como eu a havia proferido, embora eu no percebesse porqu.
     -    Espero que sim - disse ela por fim.
     Percebi que ela j no queria mais falar naquilo, no me
perguntem como, por isso mudei de assunto.
     -    H quanto tempo  que vens aqui ao orfanato? -
perguntei em tom de conversa.
     -    H sete anos. Tinha dez anos quando vim pela primeira
vez. Era mais nova do que muitos dos midos daqui.
     -    Gostas de o fazer, ou entristece-te?
     -    As duas coisas. Algumas destas crianas vieram de
situaes realmente horrveis. Ficamos de corao partido quando
ouvimos as suas histrias. Mas quando nos vem chegar com alguns
livros da biblioteca ou um jogo novo, os seus sorrisos afastam
toda a tristeza.  a melhor sensao do mundo.
     Jamie como que resplandecia enquanto falava. Embora no
estivesse a contar aquilo para me fazer sentir culpado, era
exactamente assim que me sentia. Era uma das razes por que se
tornava to difcil atur-la, mas, por aquela altura, estava j a
habituar-me bastante bem quilo. Eu comeava a perceber que ela
conseguia dar-nos a volta de forma invulgar.
     Naquele momento, Mr. Jenkins abriu a porta e convidou-nos a
entrar. O escritrio parecia quase um quarto de hospital, com
cho de azulejos pretos e brancos, paredes e tecto brancos, um
armrio de metal encostado  parede. Onde normalmente estaria a
cama, havia uma secretria de metal que parecia acabada de sair
da linha de montagem. Estava obcessivamente arrumada, sem um
nico objecto pessoal. No havia uma nica fotografia ou algo
semelhante.
     Jamie apresentou-me e cumprimentei Mr. Jenkins com um aperto
de mo. Depois de nos sentarmos, foi Jamie quem se encarregou da
maior parte da conversa. Eram velhos amigos, percebia-se isso de
imediato e Mr. Jenkins abraou-a efusivamente logo que ela
entrou. Depois de alisar a saia, Jamie exps o nosso plano. Mr.
Jenkins j tinha visto a pea h alguns anos e soube desde o
inicio do que ela estava a falar. Mas apesar de gostar muito de
Jamie e de saber que as suas intenes eram boas, no achou que
fosse uma boa ideia.
     - No acho que seja boa ideia - disse ele.
     Foi assim que soube o que ele estava a pensar.
     - Porque no? - perguntou Jamie, franzindo o sobrolho.
Parecia verdadeiramente perplexa com a falta de entusiasmo dele.
     Mr. Jenkins pegou num lpis e comeou a bater levemente com
ele na secretria, como que a pensar na explicao a dar. Passado
algum tempo, pousou o lpis e suspirou.
     - Apesar de ser uma oferta maravilhosa, e eu sei que
gostarias de fazer algo de especial, a pea  sobre um pai que no
final se apercebe de como ama a filha. - Deixou que pensssemos
nisso durante um momento e pegou de novo no lpis. - O Natal aqui
j  difcil que chegue sem termos de lembrar s crianas aquilo
que elas no tm. Penso que se as crianas vissem alguma coisa
assim...
     Nem sequer precisou de terminar. Jamie levou as mos  boca.
-    Cus - disse ela, de repente - tem razo. No tinha pensado
nisso.
     Nem eu, para dizer a verdade. Mas era evidente logo ali que
o que Mr. Jenkins dissera fazia sentido.
     Agradeceu-nos, apesar de tudo, e conversou durante algum
tempo sobre o que planeava fazer como alternativa.
- Vamos ter uma pequena rvore e alguns presentes - alguma coisa
que todos eles possam partilhar. Vocs sero bem-vindos se nos
quiserem visitar na vspera de Natal...
     Depois de nos despedirmos, Jamie e eu caminhmos em
silncio. Reparei que ela estava triste. Quanto mais tempo
passava com Jamie, mais me apercebia de que ela tinha muitas e
diferentes emoes - no estava sempre bem disposta e alegre.
Acreditem ou no, mas aquela foi a primeira vez que reconheci que
em algumas coisas ela era exactamente como todos ns.
     - Lamento que no tenha resultado - disse eu baixinho.
     - Tambm eu.
     Tinha de novo uma expresso distante nos olhos e demorou
algum tempo antes de prosseguir.
     - Queria apenas fazer algo diferente para eles este ano.
Alguma coisa especial de que eles se lembrassem para sempre.
Pensei ter a certeza de que seria isto... - Suspirou. - Deus
parece ter um desgnio que eu ainda no conheo.
     Permaneceu calada durante muito tempo, e eu observei-a. Ver
Jamie sentir-se mal era quase pior do que nos sentirmos mal por
causa dela. Ao contrrio de Jamie, eu merecia sentir-me mal em
relao a mim mesmo - sabia que tipo de pessoa eu era. Mas com
ela...
     -J que estamos aqui, no queres entrar e ver os midos? -
perguntei ao silncio. Foi a nica coisa que me ocorreu que
talvez a fizesse sentir-se melhor. - Posso esperar aqui fora
enquanto tu falas com eles, ou espero no carro se quiseres.
     - No queres ir comigo? - perguntou, de repente.
     Para dizer a verdade, no tinha a certeza se seria capaz de
lidar com aquilo, mas sabia que ela queria muito que eu fosse. E
ela estava to em baixo que as palavras saram-me
automaticamente.
     - Est bem, vou contigo.
     - Devem estar na sala de recreio agora.  onde costumam
estar a esta hora - disse.
     Percorremos os corredores at ao fundo do vestbulo, onde
duas portas davam para uma sala grande. Numa parede mais distante
estava suspenso um pequeno televisor com cerca de trinta cadeiras
articuladas colocadas em volta. Os midos estavam em volta do
televisor, sentados, e percebia-se que apenas os da fila da
frente tinham uma boa viso do ecr.
     Olhei em redor. No canto, havia uma velha mesa de
pinguepongue. A superfcie estava rachada e suja, a rede no
estava em lado algum que se visse. Em cima da mesa, estavam dois
copos vazios de plstico, e conclu que no era usada h meses,
talvez anos. Ao longo da parede a seguir  mesa de pinguepongue
havia um conjunto de prateleiras, com alguns brinquedos aqui e
ali - blocos e puzzles, alguns jogos. No eram muitos e pareciam
j estar naquela sala h muito tempo. Ao longo das paredes mais
prximas, encontravam-se pequenas secretrias individuais com
pilhas de jornais rabiscados a lpis.
     Detivemo-nos  entrada apenas por um segundo. Ainda no
tinham reparado em ns, e perguntei para que serviam os jornais.
     - Eles no tm livros para colorir - murmurou - por isso,
usam os jornais. - No olhou para mim enquanto falava. A sua
ateno estava voltada para os midos. Comeara a sorrir de novo.
- Estes so os nicos brinquedos que eles tm? - perguntei.
Confirmou com a cabea.
- Sim, tirando os animais de peluche. Podem guard-los nos
quartos. Aqui, guardam o resto das coisas.
Suponho que ela j estava habituada quilo. Para mim, no entanto,
o vazio da sala tornava tudo to deprimente. No conseguia
imaginar-me a crescer num lugar daqueles.
Jamie e eu entrmos finalmente na sala e um dos midos voltou-se
ao som dos nossos passos. Teria perto de oito anos, cabelo ruivo
e sardas e faltavam-lhe os dois dentes da frente.
     -Jamie! - gritou alegremente quando a viu, e, de repente,
todas as outras cabeas se voltaram. Os midos tinham entre os
cinco e os doze anos, mais rapazes do que raparigas. Depois dos
doze anos tinham de sair para viver com pais adoptivos
temporrios, como mais tarde me disseram.
     - Ol, Roger - respondeu Jamie -, como ests?
     Roger e alguns dos outros comearam a reunir-se  nossa
volta. Outros midos ignoraram-nos e aproximaram-se do televisor,
agora que havia lugares vagos nos bancos da frente. Jamie
apresentou-me a um dos mais velhos, que viera ter com ela para
lhe perguntar se eu era o namorado dela. Pelo seu tom de voz,
penso que ele tinha de Jamie a mesma opinio que a maior parte
dos midos da nossa escola.
-     s um amigo - disse ela. - Mas  muito simptico.
     Durante a hora seguinte, conversmos com as crianas.
Fizeram-me muitas perguntas sobre o stio onde eu vivia e se a
minha casa era grande ou que carro  que tinha e, quando
finalmente tivemos de ir embora, Jamie prometeu que voltaria em
breve. Reparei que no prometeu que eu viria com ela.
No caminho para o carro, eu disse:
- So midos simpticos. -    Encolhi os ombros desajeitadamente.
- Fico contente por quereres ajud-los.
     Jamie voltou-se para mim e sorriu. Ela sabia que no havia
muito mais a acrescentar depois daquilo, mas percebi que ainda
estava a pensar no que fazer para eles naquele Natal.
CAPTULO 7

     Num dos primeiros dias de Dezembro, pouco mais de duas
semanas aps o comeo dos ensaios, o cu estava escuro e
invernoso quando Miss Garber nos deixou sair e Jamie perguntou se
eu no me importava de a acompanhar a casa. No sei por que razo
queria que eu a acompanhasse. Beaufort no era propriamente um
foco de criminalidade na altura. O nico homicdio de que alguma
vez ouvira falar tinha acontecido seis anos antes quando um homem
foi esfaqueado  sada da Maurice's Tavem, por acaso um lugar
frequentado por pessoas como Lew. Foi um momento difcil, esse.
Durante cerca de uma hora, houve grande agitao e os telefones
retiniam por toda a cidade, enquanto as mulheres dominadas pelo
nervosismo se interrogavam sobre a possibilidade de um luntico
desvairado comear a rondar as ruas atacando vtimas inocentes.
Trancaram-se as portas, carregaram-se as armas, os homens
sentaram-se s janelas da frente procurando algum fora do normal
que pudesse estar a aproximar-se sorrateiramente da sua rua. Mas
tudo terminara ao fim da noite quando o homem entrou na esquadra
da polcia para se entregar, explicando que aquilo tinha sido uma
briga de taberna que fora longe de mais. Aparentemente, a vtima
tinha sado do bar sem pagar uma aposta. O homem foi acusado de
homicdio no premeditado e condenado a seis anos na
penitenciria estadual. Os polcias da nossa cidade tinham o
emprego mais aborrecido do mundo, mas, ainda assim, gostavam de
se passear com ar empertigado ou sentar-se nos cafs a falar dos
"crimes a srio", como se tivessem resolvido o caso do beb dos
Lindbergh.
     Mas a casa de Jamie ficava a caminho da minha e no podia
recusar sem mago-la. No era que gostasse dela ou isso, no me
interpretem mal, mas quando somos obrigados a passar algumas
horas por dia com algum, tendo de continuar a faz-lo durante
pelo menos mais uma semana, no queremos fazer nada que possa
tornar o dia seguinte difcil para qualquer um de ns.
     A pea ia ser representada na sexta-feira e no sbado
seguintes, e muita gente andava j a falar no assunto. Miss
Garber tinha ficado to bem impressionada com Jamie e comigo que
dizia a todos que aquele ia ser o melhor espectculo que a escola
alguma vez apresentara. Descobrimos que ela tambm tinha um
verdadeiro talento para a publicidade. Havia uma estao de rdio
na cidade, e eles entrevistaram-na, no uma, mas duas vezes. -
Vai ser maravilhoso - declarou - uma autntica maravilha. -
Tambm tinha telefonado para o jornal local e eles, especialmente
devido  relao Jamie-Hegbert, concordaram em escrever um artigo
sobre a pea, embora toda a gente na cidade j soubesse da sua
realizao. Mas Miss Garber era implacvel e, naquele mesmo dia,
dissera-nos que a Playhouse ia arranjar mais cadeiras para
acomodar a enorme multido que se esperava. A turma fez vrias
exclamaes de espanto e aprovao, como se fosse uma coisa de
grande importncia, e acho que para alguns at era. No nos
podemos esquecer que tinhamos pessoas como o Eddie na turma. Ele
devia pensar que aquela seria talvez a nica vez na sua vida em
que algum iria mostrar algum interesse por ele. A triste verdade
era que, provavelmente, ele tinha razo.
     Poder-se-ia pensar que eu tambm estaria a ficar
entusiasmado com tudo aquilo, mas, na verdade, no estava. Os
meus amigos continuavam a troar de mim na escola, e no tinha
uma tarde livre h muito tempo. A nica coisa que me fazia
continuar era o facto de estar a fazer o que era "correcto". Sei
que no  muito, mas, sinceramente, era tudo o que tinha. De vez
em quando, at me sentia um pouco satisfeito com aquilo tambm,
embora jamais o admitisse perante algum. Podia quase imaginar os
anjos no Cu, reunidos a olhar melancolicamente para mim das
alturas, com pequenas lgrimas enchendo-lhes os cantos dos olhos,
dizendo como eu era maravilhoso por todos os sacrifcios que
estava a fazer.
     Assim estava eu a acompanh-la at casa naquela primeira
noite, a pensar nessas coisas, quando Jamie me fez uma pergunta.
     -     verdade que tu e os teus amigos s vezes vo para o
cemitrio  noite?
     Fiquei meio surpreendido por ela mostrar sequer algum
interesse por aquilo. Embora no fosse propriamente um segredo,
no parecia de todo ser o gnero de coisa por que ela se
interessasse.
     -    Sim - disse, encolhendo os ombros. - s vezes.
     -    O que  que fazem l, alm de comer amendoins?
     Suponho que sabia isso tambm.
     -    Sei l - respondi. - Conversamos... Dizemos piadas. 
apenas um stio onde gostamos de ir.
     -    Alguma vez tiveste medo?
     -    No - respondi. - Porqu? Terias medo?
     -    No sei - disse ela. - Talvez.
     -    Porqu?
     -    Porque teria medo de fazer alguma coisa de errado.
     -    No fazemos nada de mal l. Quer dizer, no derrubamos
as lpides ou deixamos l o nosso lixo - expliquei. No lhe
queria contar as nossas conversas sobre Henry Preston porque
sabia que isso no era coisa que Jamie pudesse gostar de ouvir.
Na semana anterior, Eric tinha pensado em voz alta sobre quanto
tempo um tipo como aquele podia estar deitado na cama e... bem...
vocs sabem.
     -    Nunca se sentam s a escutar os sons? - perguntou. -
Como os grilos a cantar ou o sussurrar das folhas quando o vento
sopra? Ou, simplesmente, deitarem-se de costas e olhar para as
estrelas?
     Embora fosse uma adolescente, e j o era h alguns anos,
Jamie no entendia absolutamente nada de adolescentes, e tentar
compreender rapazes adolescentes para ela era como tentar
decifrar a teoria da relatividade.
     -    No propriamente - respondi.
     Acenou ligeiramente com a cabea.
- Acho que era isso que faria se estivesse l, se alguma vez
fosse, quero dizer. Olharia apenas em volta para ver bem o lugar,
ou sentava-me em silncio e escutava, simplesmente.
     Toda aquela conversa me parecia estranha, mas no o revelei,
e caminhmos em silncio durante algum tempo. E uma vez que ela
quis saber um pouco sobre mim, senti-me meio obrigado a perguntar
alguma coisa sobre ela. Quer dizer, ela no mencionara os
desgnios de Deus nem nada disso, por isso era o mnimo que eu
podia fazer.
     -    Ento, o que  que tu fazes? - perguntei. - Quer dizer,
alm de trabalhar com os rfos, ou ajudar os animaizinhos, ou
ler a Bblia? - Parecia ridculo, at para mim, admito, mas era
isso o que ela fazia.
     Sorriu para mim. Penso que ficou surpreendida com a minha
pergunta, e at mais surpreendida com o meu interesse por ela.
     -    Fao muitas coisas. Estudo, fao companhia ao meu pai.
De vez em quando, jogamos ao gin rummy. Coisas dessas gnero.
     -    Nunca sais com amigos para te divertires?
     -    No. - Percebi pela maneira como respondeu que, mesmo
para ela, era evidente que ningum a queria por perto.
     -    Aposto que ests entusiasmada com a perspectiva de ir
para a universidade para o ano - disse, mudando de assunto.
     Demorou um pouco a responder.
     -    Acho que j no vou - disse, prosaicamente. A sua
resposta apanhou-me desprevenido. Jamie tinha algumas das notas
mais altas do nosso ano e, dependendo de como corresse o ltimo
semestre, podia at acabar por fazer o discurso de despedida na
cerimnia de formatura. Tnhamos uma tabela de apostas a correr
sobre quantas vezes ela iria mencionar os designios de Deus. O
meu palpite era catorze, uma vez que ela teria apenas cinco
minutos para discursar.
     -    E Mount Sermon? Pensei que fosse para a que planeavas
ir. Ias adorar um stio como aquele - aventei.
     Olhou para mim com um tremeluzir nos olhos.
- Queres dizer que  mesmo o stio ideal para mim, no ?
     Aquelas perguntas inesperadas que ela s vezes me lanava
deixavam-me completamente zonzo.
     -    No quis dizer isso - emendei depressa. - S que tinha
ouvido dizer que estavas muito entusiasmada por ires para l para
o ano.
     Encolheu os ombros sem me responder e, para ser franco, no
sabia o que pensar do assunto. Nessa altura, tnhamos j chegado
 casa dela e parado no passeio em frente. De onde estava, podia
vislumbrar a sombra de Hegbert atravs das cortinas. A luz estava
acesa, e ele encontrava-se sentado no sof junto  janela. Tinha
a cabea inclinada, como se estivesse a ler qualquer coisa.
Imaginei que fosse a Bblia.
     - Obrigada por me teres acompanhado at casa, Landon - disse
ela, erguendo o olhar para mim por um instante antes de,
finalmente, comear a dirigir-se para a porta.
     Ao v-la partir, no pude deixar de pensar que, de todas as
vezes que tinha falado com ela, aquela fora a conversa mais
esquisita que tnhamos tido. Apesar da estranheza de algumas das
suas respostas, ela parecia quase normal.

     Na noite seguinte, quando a acompanhava a casa, perguntou
pelo meu pai.
     - Est bem, suponho - respondi. - Mas nunca fica muito tempo
por c.
     - Sentes falta disso? Crescer sem t-lo por perto.
     - s vezes.
     - Sinto a falta da minha me, tambm - disse ela - apesar de
nem sequer a ter conhecido.
     Pela primeira vez, considerei que Jamie e eu podamos ter
algo em comum. Pensei nisso durante algum tempo.
     - Deve ser difcil para ti - disse eu com sinceridade. -
Mesmo que o meu pai seja como um estranho, pelo menos ainda anda
por a.
     Olhou para mim enquanto caminhvamos, depois voltou-se de
novo para a frente. Mexeu delicadamente no cabelo outra vez.
Comeava a reparar que ela fazia isso sempre que estava nervosa
ou no sabia bem o que dizer.
     - Por vezes . No me interpretes mal - amo o meu pai do
fundo do corao - mas, s vezes, h alturas em que me pergunto
como teria sido ter uma me. Acho que eu e ela poderamos ter
conversado sobre coisas de uma maneira que eu e o meu pai no
podemos.
     Imaginei que estivesse a falar de rapazes. S mais tarde 
que soube como estava errado.
     -     Como  que  viver com o teu pai? Ele  como quando
est na igreja?
     -     No. Na verdade, at tem um bom sentido de humor.
     -     Hegbert? - deixei escapar. Nem sequer conseguia
imaginar tal coisa.
     Penso que ela ficou chocada por ouvir referir-me a ele pelo
primeiro nome, mas deixou passar e no respondeu ao meu
comentrio. Ento,
continuou: - No estejas to surpreendido. Gostarias dele, se o
conhecesses melhor.
     -     Duvido que alguma vez o venha a conhecer melhor.
     -     Nunca se sabe, Landon - disse ela, sorrindo - quais so
os designios de Deus.
     Detestava quando Jamie dizia coisas daquelas. Com ela, s se
sabia que falava com Deus todos os dias e nunca se sabia o que 
que o "Chefe l em cima" lhe tinha dito. Jamie podia at ter uma
entrada reservada para o cu, sendo uma pessoa to boa.
     -     E como  que poderia vir a conhec-lo melhor? -
perguntei.
     No respondeu, mas sorriu para consigo, como se soubesse de
algum segredo que me estava a esconder. Como disse, detestava
quando ela fazia aquilo.

     Na noite seguinte, falmos sobre a Bblia com que ela andava
sempre.
     -    Porque  que a trazes sempre contigo? - perguntei.
     Eu julgava que ela andava com a Bblia s porque era a filha
do Reverendo. No era uma suposio assim to difcil, tendo em
conta a opinio de Hegbert sobre as Escrituras. Mas a Bblia que
ela tinha era velha e a capa estava j meia esfarrapada; eu
imaginava-a o tipo de pessoa que comprava um exemplar novo todos
os anos s para ajudar a indstria editorial da Bblia, ou para
demonstrar a sua dedicao renovada a Deus, ou outra coisa
qualquer.
     Deu alguns passos antes de responder.
     -    Era da minha me - respondeu simplesmente.
     -Ah... - Disse-o sentindo-me como se tivesse pisado na
tartaruga de estimao de algum, esmagando-a debaixo do meu
sapato.
          Olhou para mim.
- No faz mal, Landon. Como  que podias saber?
          -    Desculpa ter perguntado...
          -    No tens de pedir desculpa. No fizeste mal nenhum
em perguntar. - Fez uma pausa. - Ofereceram esta Bblia aos meus
pais quando se casaram, mas foi a minha me que a utilizou
primeiro. Lia-a o tempo todo, especialmente quando estava a
atravessar um perodo difcil na vida.
Pensei nos abortos espontneos. Jamie continuou.
          -    Gostava muito de a ler  noite, antes de dormir, e
tinha-a consigo no hospital quando eu nasci. Quando o meu pai
soube que ela tinha morrido, pegou na Bblia e em mim e levou-nos
para fora do hospital ao mesmo tempo.
          -    Sinto muito - disse eu. Sempre que algum nos
conta uma coisa triste,  a nica coisa que conseguimos pensar
para dizer, mesmo que j o tenhamos dito antes.
     -     apenas uma maneira de... de me sentir parte dela.
Compreendes? - No o disse com um ar contristado, mas mais para
que eu ficasse a saber a resposta  minha pergunta. De alguma
maneira, isso piorou as coisas.
          Depois de me contar a sua histria, pensei de novo nela
a crescer com Hegbert e, na verdade, no sabia o que dizer.
Enquanto ponderava a minha resposta, porm, ouvi um carro apitar
atrs de ns, e tanto eu como Jamie parmos e voltmo-nos ao
mesmo tempo quando o ouvimos encostar junto  berma.
          Eric e Margaret estavam dentro do carro. Eric no lado
do condutor, Margaret no lado mais prximo de ns.
          -    Ora vejam quem temos aqui - disse Eric
debruando-se sobre o volante para que eu pudesse ver-lhe a cara.
No lhe tinha dito que andava a acompanhar Jamie a casa e,
segundo a maneira curiosa como a mente adolescente funciona, este
novo acontecimento tornou-se mais importante do que tudo o que
estava a sentir em relao  histria de Jamie.
          -    Ol, Eric. Ol, Margaret - disse Jamie
animadamente.
          -    A acompanhar Jamie a casa, Landon? - Podia ver o
diabinho por detrs do sorriso de Eric.
          -    Ol, Eric - disse, desejando que ele nunca me
tivesse visto.
     - Est uma linda noite para se passear, no est? -
perguntou Eric. Acho que por Margaret estar entre ele e Jamie
Eric se sentia um pouco mais atrevido do que habitualmente na
presena desta. E, de modo nenhum, ia deixar escapar aquela
oportunidade para me picar.
     Janiie olhou em volta e sorriu.
- Sim, est.
     Eric olhou em volta tambm, com uma expresso melanclica
nos olhos, depois respirou fundo. Percebi logo que estava a
fingir.
-    Caramba, est-se mesmo bem aqui. - Suspirou e olhou para
ns, encolhendo os ombros. - Oferecia-vos uma boleia, mas no
seria to agradvel como passear sob as estrelas, e no queria
que vocs perdessem isso. - Disse isto como se estivesse a
fazer-nos um favor.
     - , estamos quase em minha casa, de qualquer maneira- disse
Jamie. - Ia oferecer a Landon um copo de sidra. No querem ir l
ter? Temos bastante.
     Um copo de sidra? Em casa dela? No tinha falado disso...
     Enfiei as mos nos bolsos, perguntando-me se aquilo podia
ainda piorar.
     - Ah, no... no  preciso. amos a caminho do Cecil's
Diner.
     - Em noite de semana? - perguntou ela ingenuamente.
     - Oh, no vamos ficar at muito tarde - prometeu Eric - mas,
se calhar,  melhor irmos andando. Divirtam-se os dois.
     - Obrigado por terem parado - disse Jamie, acenando.
     Eric ps o carro de novo em andamento, mas devagar. Jamie
pensou, provavelmente, que ele era um condutor cuidadoso. Na
verdade, no era, embora fosse bom a esquivar-se de problemas
quando chocava contra alguma coisa. Lembro-me de uma vez em que
ele disse  me que uma vaca tinha saltado  frente do carro e
que era por isso que a grelha e o guarda-lamas estavam
danificados. - Aconteceu to depressa, me, a vaca apareceu do
nada. Surgiu de repente  minha frente, e no pude travar a
tempo. Bem, toda a gente sabe que as vacas no surgem de repente
de lado algum, mas a me acreditou nele. Na verdade, ela tambm
havia sido chefe de claque na escola.
     Depois de terem desaparecido de vista, Jamie voltou-se para
mim.
     - Tens amigos simpticos, Landon.
     - Com certeza que tenho. - Recordo-me da maneira cuidadosa
como expressei a minha resposta.
     Depois de deixar Jamie - no, no fiquei para tomar sidra -
dirigi-me rapidamente para casa, resmungando o tempo todo. Agora
a histria deJamie j tinha desaparecido da minha mente e quase
podia ouvir os meus amigos no Cecil's Diner a rirem-se de mim.
     Vem o que acontece quando se  bom rapaz?

     Na manh seguinte, j toda gente sabia que eu acompanhava
Jamie a casa, e isso deu origem a outra onda de especulao sobre
ns os dois. Dessa vez, foi ainda pior do que da primeira. Foi
to mau que tive de passar o intervalo do almoo na biblioteca s
para fugir daquilo tudo.
     Nessa noite, o ensaio teve lugar na Playhouse. Era o ltimo
antes de o espectculo estrear e tnhamos muito que fazer. Logo
depois da escola, os rapazes da aula de teatro tinham de carregar
todos os adereos da sala de aulas para a camioneta alugada a fim
de os transportar para a Playhouse. O nico problema era que
Eddie e eu ramos os dois nicos rapazes, e ele no 
propriamente o indivduo mais coordenado deste mundo. Ao
passarmos por uma porta, carregando uma das coisas mais pesadas,
o seu corpo  Hooville atrapalhava-o. Em todos os momentos
crticos em que realmente eu precisava da sua ajuda para
equilibrar a carga, ele tropeava num bocado de p ou num insecto
no cho, e o peso do adereo caia-me nas mos, entalando-as
contra o umbral da porta da maneira mais dolorosa possvel.
     - D-d-desculpa - dizia ele. - M-m-magoaste-te?
     Abafava os palavres que me subiam  garganta e dizia
irritado:
-    No, mas no faas isso outra vez.
     Mas ele no conseguia evitar andar aos tropees, tal como
no conseguiria evitar que chovesse. Quando acabmos de carregar
e descarregar tudo, os meus dedos pareciam os de Toby, o
biscateiro errante. O pior de tudo foi que nem sequer tive
hipteses de comer antes de o ensaio comear. O transporte dos
adereos demorou trs horas, e s os acabmos de montar alguns
minutos antes de os outros chegarem para o inicio do ensaio. Com
tudo o resto que tinha acontecido naquele dia, escusado ser
dizer que eu estava mesmo de muito mau humor.
     Debitei o meu texto sem sequer pensar nele e Miss Garber no
pronunciou a palavra maravilhoso durante toda a noite. No final,
tinha uma expresso inquieta nos olhos, mas Jamie sorria apenas e
dizia-lhe que no se preocupasse, que tudo iria correr bem. Sabia
que Jamie estava a tentar ajudar-me, mas quando me pediu que a
acompanhasse a casa, eu disse-lhe que no. A Playhouse ficava no
centro da cidade e para a acompanhar teria de me desviar um bom
bocado do meu caminho. Alm disso, no queria que me vissem
nenhuma vez a acompanh-la. Mas Miss Garber ouviu o pedido de
Jienie e adiantou, muito firmemente, que eu teria muito prazer em
faz-lo.
- Podem falar sobre a pea - sugeriu. - Talvez pudessem trabalhar
os pontos fracos. - Por pontos fracos, claro, referia-se
especificamente a mim.
     Ento, mais uma vez, acabei por acompanhar Jamie a casa, mas
ela percebeu que eu no estava realmente com disposio para
conversar, porque caminhava uns passos  sua frente, as mos nos
bolsos, sem sequer me voltar para ver se ela vinha atrs de mim.
Procedi assim durante os primeiros minutos, sem dizer uma
palavra.
     -     No ests l muito bem disposto hoje, pois no? - disse
ela finalmente. - Esta noite nem sequer tentaste.
     -     No deixas escapar nada, pois no? - resmunguei
sarcasticamente sem olhar para ela.
     -     Talvez possa ajudar - ofereceu-se. Disse-o num tom
animado, o que me irritou ainda mais.
     -     Duvido - retorqui asperamente.
     -     Talvez, se me dissesses o que se passa.
     No a deixei terminar.
     - Olha - disse eu, parando, virando-me para encar-la. -
Passei o dia inteiro a carregar a porcaria dos adereos, no como
desde o almoo e agora tenho de me desviar quase dois quilmetros
do meu caminho para te levar a casa, quando ambos sabemos que nem
sequer precisas que eu o faa.
     Foi a primeira vez que lhe levantei a voz. Para dizer a
verdade, senti-me bem. H muito tempo que aquilo se andava a
acumular. Jimie ficou demasiado surpreendida para reagir, e eu
prossegui.
     - E a nica razo por que estou a fazer isto  por causa do
teu pai, que nem sequer gosta de mim. Tudo isto  uma estupidez,
e desejava que nunca tivesse aceite faz-lo.
     -     Ests a dizer isso s porque ests nervoso com o
espectculo.
Interrompi-a abanando a cabea. Quando comeava a desbobinar, por
vezes era-me difcil parar. S conseguia suportar o optimismo e a
jovialidade dela at certo ponto, e aquele no era dia para se
meterem comigo.
     -     No percebes? - perguntei, exasperado. - No estou
nervoso por causa do espectculo, simplesmente no quero estar
aqui. No te quero acompanhar a casa, no quero que os meus
amigos continuem a falar de mim, e no quero passar o tempo
contigo. Ests sempre a comportar-te como se fossemos amigos, mas
no somos. No somos nada. S quero que tudo isto acabe para que
possa voltar  minha vida normal.
     Ela parecia magoada com a minha exploso e, para ser franco,
no lhe podia levar a mal.
     -     Compreendo - foi tudo o que disse. Esperei que ela me
fosse levantar a voz, que se defendesse, que expusesse de novo o
seu caso, mas no o fez. Tudo o que fez foi olhar para o cho.
Penso que parte dela queria chorar, mas no chorou, e eu, por
fim, afastei-me em silncio, deixando-a sozinha. Pouco depois,
porm, ouvi-a comear tambm a andar. Manteve-se cerca de cinco
metros atrs de mim o resto do trajecto e no tentou falar comigo
outra vez at comear a subir a ladeira da sua casa. Afastava-me
j ao longo do passeio quando ouvi a voz dela.
     -    Obrigada por me teres acompanhado a casa, Landon -
gritou.
     Estremeci assim que ela disse aquilo. Mesmo quando era mau
para ela e dizia as piores coisas, Jamie conseguia encontrar uma
razo para me agradecer. Era mesmo desse gnero de raparigas, e
penso que a odiava realmente por isso.
     Ou melhor, penso eu, odiava-me a mim prprio.
CAPTULO 8

     A noite do espectculo estava fresca e seca, o cu
completamente limpo sem sinal de nuvens. Tnhamos de estar no
teatro uma hora mais cedo, e eu sentira-me mal durante todo o dia
devido  maneira como falara com Jamie na noite anterior. Ela
nunca fora outra coisa seno simptica comigo, e eu sabia que
tinha agido como um idiota. Vi-a nos corredores entre as aulas, e
queria ir ter com ela, e pedir-lhe desculpa pelo que dissera, mas
ela acabava por desaparecer no meio da multido antes de eu ter
oportunidade para o fazer.
     Jamie j estava na Playhouse quando finalmente cheguei. Vi-a
a conversar com Miss Garber e Hegbert a um canto, junto s
cortinas. Toda a gente andava de um lado para o outro, tentando
atenuar o nervosismo com energia, mas ela parecia estranhamente
aptica. Ainda no vestira o seu fato - deveria usar um vestido
branco flutuante para lhe dar aquela aparncia anglica - e
trazia ainda a mesma camisola que levara para a escola. Apesar da
minha incerteza em relao ao modo como ela iria reagir, fui ter
com os trs.
     - Ol, Jamie - disse eu. - Ol, Reverendo... Miss Garber.
     Jamie voltou-se para mim.
     - Ol, Landon - disse ela baixinho. Percebi que Jamie tambm
estivera a pensar na noite anterior, porque no me sorriu como
sempre fazia quando me via. Perguntei se podia falar com ela a
ss, e pedimos licena para nos retirarmos. Reparei em Hegbert e
Miss Garber a observar-nos quando nos afastmos alguns passos
para onde no nos pudessem ouvir.
     Olhei nervoso em volta do palco.
          -    Peo desculpa pelas coisas que disse ontem  noite
- comecei. - Sei que provavelmente te magoaram, e fiz mal em
t-las dito.
          Olhou-me como se estivesse a pensar se deveria ou no
acreditar em mim.
          -    Estavas a falar a srio quando disseste aquelas
coisas? - perguntou por fim.
     -    Estava apenas de mau humor, s isso. s vezes, perco as
estribeiras. - Sabia que, na verdade, no tinha respondido  sua
pergunta.
     - Compreendo - retorquiu. Disse-o como o dissera na noite
anterior, depois voltou o olhar para os assentos vazios na
plateia. Tinha novamente aquela expresso triste nos olhos.
     - Olha - exclamei, pegando-lhe na mo. - Prometo
compensar-te pelo que fiz. - No me perguntem por que disse
aquilo
-    pareceu-me simplesmente que era o que devia fazer naquele
momento.
     Pela primeira vez naquela noite, ela comeou a sorrir.
     -    Obrigada - disse ela, virando-se para me olhar.
     -    Jamie?
     Jamie voltou-se.
- Sim, Miss Garber?
     -    Acho que estamos prontos para comear contigo. - Miss
Garber fazia-lhe sinais com a mo.
     -    Tenho de ir - disse-me ela.
     -    Eu sei.
     -    Parte uma perna - disse eu. Dizem que d azar desejar
boa sorte antes de um espectculo.  por isso que toda a gente
diz "parte uma perna".
     Larguei-lhe a mo.
- Havemos de partir os dois. Prometo.

     Depois disto, tnhamos de nos aprontar e cada um seguiu para
seu lado. Dirigi-me para o camarim dos homens. A Playhouse era
razoavelmente sofisticada, tendo em conta que se situava em
Beaufort, com camarins separados que nos faziam sentir como se
fssemos verdadeiros actores, em vez de meros estudantes.
     O meu fato, que ficava guardado na Playhouse, j estava no
camarim. No comeo dos ensaios tinham-nos tirado as medidas para
que os fatos pudessem ser ajustados. Estava a vestir-me quando
Eric irrompeu pela porta sem se anunciar. Eddie estava ainda no
camarim a vestir o seu fato de vagabundo mudo e, quando o viu,
uma expresso de terror surgiu-lhe nos olhos. Uma vez por semana,
pelo menos, Eric atacava-o por trs e puxava-lhe as cuecas para
cima, e Eddie escapuliu-se dali o mais depressa possvel, uma
perna ainda a enfiar-se no fato ao sair pela porta. Eric
ignorou-o e sentou-se no toucador frente ao espelho.
     - Ento - disse Eric com um sorriso malandro no rosto - o
que  que vais fazer?
     Olhei para ele, curioso.
- Que queres dizer?
     - No espectculo, estpido. Vais dizer mal o teu texto ou
qualquer coisa assim?
     Abanei a cabea.
- No.
     - Vais deitar os adereos abaixo? - Toda a gente sabia dos
adereos.
-    No tinha planeado fazer isso - respondi estoicamente.
- Quer dizer que vais fazer isto direitinho?
     Fiz sinal que sim com a cabea. Pensar de outro modo nem
sequer me tinha ocorrido.
     Ele olhou para mim durante muito tempo, como se estivesse a
examinar algum que nunca tinha visto antes.
     - Parece que ests finalmente a crescer, Landon - disse, por
fim. Vindo de Eric, no tinha a certeza se era um elogio.
     Fosse como fosse, porm, sabia que ele tinha razo.

     Na pea, Tom Thornton fica espantado quando v o anjo pela
primeira vez, e  por isso que o segue e o ajuda quando ele sai
para partilhar o Natal com os menos favorecidos. As primeiras
palavras proferidas por Tom so "s bela" e eu tinha de diz-las
como se as sentisse do fundo do corao. Era o momento crucial de
toda a pea, estabelecendo o tom de tudo o que acontecia depois.
O problema, porm, era que eu ainda no tinha agarrado aquela
frase. Claro, dizia as palavras, mas elas no saam de maneira
muito convincente, uma vez que as proferia como provavelmente
qualquer outra pessoa ao
olhar para Jamie, com a excepo de Hegbert. Era a nica cena
durante a qual Miss Garber nunca dissera a palavra maravilhoso,
por isso sentia-me nervoso e preocupado com isso. Tentava sempre
imaginar outra pessoa no papel de anjo para que pudesse dizer o
texto como deve ser, mas com todas as outras coisas em que
tentava concentrar-me, perdia-se sempre na confuso.
     Jamie estava ainda no camarim quando o pano finalmente
abriu. No a vira antes disso, mas no fazia mal. De qualquer
maneira, no entrava nas primeiras cenas que eram principalmente
sobre Tom Thornton e a sua relao com a filha.
     Eu achava que no iria ficar demasiado nervoso quando
entrasse em palco, uma vez que tinha tido tantos ensaios, mas
quando isso de facto acontece atinge-nos em cheio. A Playhouse
estava a abarrotar e, tal como Miss Garber previra, tinham
instalado mais duas filas de cadeiras a todo o comprimento ao
fundo da sala. Normalmente, o teatro tinha capacidade para
quatrocentas pessoas, mas com aqueles assentos havia pelo menos
outras cinquenta sentadas. Alm disso, havia gente de p
encostada s paredes, amontoada como sardinhas em lata.
     Mal pus os ps no palco, fez-se silncio absoluto. A
assistncia, reparei, era composta principalmente por senhoras
idosas de cabelo meio azulado, daquelas que jogam bingo e bebem
Bloody Marys nos lanches de domingo, embora pudesse ver Eric com
todos os meus amigos sentado perto da ltima fila. Era
francamente arrepiante estar ali diante deles enquanto todos
esperavam que eu dissesse alguma coisa.
     Assim,  medida que representava as primeiras cenas da pea,
fiz o melhor que pude para no pensar nisso. Sally, o prodigio
zarolho, fazia o papel de minha filha, pois era baixa, e
representmos as nossas cenas tal como as tnhamos ensaiado.
Nenhum de ns se atrapalhou com as deixas, apesar de no termos
sido espectaculares, ou coisa do gnero. Quando baixamos o pano
para o segundo acto, tivemos de recolocar rapidamente os
adereos. Desta vez, todos ajudaram e os meus dedos escaparam
inclumes porque evitei Eddie a todo o custo.
     Ainda no tinha visto Jamie - julgo que estava dispensada de
ir carregar os adereos, porque o fato dela era feito de um
tecido muito leve e rasgar-se-ia se ficasse preso num dos pregos
- mas no tive muito tempo para pensar nela por causa de tudo o
que tnhamos para fazer. Quando dei por mim, o pano estava a
subir de novo e eu regressava ao mundo de Hegbert Sullivan,
passeando diante das lojas e a espreitar pelas vitrinas  procura
da caixa de msica que a minha filha queria para o Natal. Tinha
as costas voltadas para onde Jamie deveria entrar e ouvi a
assistncia suster a respirao em conjunto logo que ela fez a
sua apario em palco. Antes, achava que a assistncia estava
silenciosa, mas agora estava completamente queda e muda. Nesse
instante, do canto do olho e a um dos lados do palco, vi o queixo
de Hegbert estremecer. preparei-me para me voltar, e quando o
fiz, percebi, finalmente, o que  que se passava.
     Pela primeira vez desde que a conhecera, o seu cabelo cor de
mel no estava apanhado. Em vez disso, caa solto, mais comprido
do que imaginara, chegando-lhe abaixo dos ombros. Apresentava
vestgiOs de um p brilhante, que reflectia as luzes do palco,
cintilando como uma aurola de cristal. Contrastando com o
vestido branco flutuante, feito exactamente  sua medida, era
absolutamente espantoso de se ver. No parecia a rapariga com
quem eu havia crescido ou a rapariga que tinha vindo a conhecer
recentemente. Tinha tambm um leve toque de maquilhagem - no
muito, apenas o suficiente para fazer realar a suavidade das
suas feies. Sorria docemente, como se estivesse a guardar um
segredo junto ao corao, tal como o papel exigia.
Parecia mesmo um anjo.
     O meu queixo descaiu um pouco e fiquei ali a olhar para ela
durante o que me pareceu ser muito tempo, silenciado pelo choque,
at, de repente, me lembrar que tinha uma frase para dizer.
Respirei fundo, depois deixei sair lentamente.
     - s bela - pronunciei por fim, e penso que toda a gente no
auditrio, desde as senhoras de cabelo azul, que estavam 
frente, at aos meus amigos na fila de trs, sabia que eu estava
realmente a Falar a srio.
     Pela primeira vez, tinha agarrado aquela frase.
CAPTULO 9

     Dizer que o espectculo foi um xito estrondoso  dizer
pouco. O pblico riu e o pblico chorou, o que, na verdade, era o
que se esperava que fizesse. Mas devido  presena de Jamie, a
pea tornou-se, de facto, algo especial - e penso que todos no
elenco ficaram to espantados como eu com o sucesso de tudo
aquilo. Ficaram todos com a mesma expresso com que eu fiquei
quando vi Jamie pela primeira vez, e isso fez com que a pea
tivesse muito mais fora enquanto cada um representava o seu
papel. Chegmos ao fim do primeiro espectculo sem uma falha, e
na noite seguinte apareceu ainda mais gente. At Eric veio ter
comigo aps o espectculo para me felicitar, o que, depois do que
me dissera antes, foi um tanto surpreendente.
     - Estiveram os dois muito bem - disse simplesmente. - Estou
orgulhoso de ti, amigo.
     Enquanto ele dizia isto, Miss Garber exclamava "
maravilhoso!" a qualquer pessoa que a quisesse ouvir ou que por
acaso passasse por ela, repetindo-o tantas vezes que eu continuei
a ouvi-la muito tempo depois de ter ido para a cama naquela
noite. Quando baixmos o pano pela ltima vez, fui  procura de
Jamie. Descobri-a num dos cantos do palco, com o pai. Ele tinha
lgrimas nos olhos - era a primeira vez que eu o via chorar - e
Jamie correu para os seus braos e estiveram abraados durante
muito tempo. Ele afagava-lhe o cabelo e murmurava, "Meu anjo",
enquanto ela mantinha os olhos fechados. At eu me senti com um
n na garganta.
     Fazer o que estava certo, percebi ento, no era assim to
mau.
     Depois de, por fim, se terem desprendido, Hegbert fez-lhe
sinal orgulhosamente para que fosse confraternizar com o resto do
elenco, e ela recebeu uma enxurrada de felicitaes de todos ns
nos bastidores. Jamie sabia que se tinha saido bem, mas dizia
sempre s pessoas que no percebia para que era todo aquele
estardalhao. Era a mesma rapariga alegre de sempre, mas como
estava to bonita, isso revelava-se de uma maneira totalmente
diferente. Mantive-me afastado, deixando-a desfrutar o seu
momento de sucesso, e admito que em parte me sentia como o velho
Hegbert. No podia deixar de me sentir feliz por ela, um pouco
orgulhoso tambm. Quando, finalmente, me viu  parte num dos
cantos do palco, pediu licena e veio ter comigo.
     Olhando-me, sorriu.
- Obrigada, Landon, pelo que fizeste. Fizeste o meu pai muito
feliz.
     - De nada - disse, falando a srio.
     O estranho  que quando ela disse aquilo percebi que Hegbert
ia lev-la de carro para casa e, pela primeira vez, desejei ter
tido a oportunidade de acompanh-la.

     Na segunda-feira seguinte comeava a nossa ltima semana de
aulas antes das frias de Natal e estavam programados testes
finais para todas as turmas. Alm disso, tinha de acabar as
composies para a minha candidatura  UNC, trabalho que tive de
adiar por causa dos ensaios. Planeava agarrar-me aos livros
seriamente naquela semana, trabalhando na candidatura  noite
antes de me deitar. Mesmo assim, no conseguia evitar pensar em
Jamie.
     A transformao de Jamie durante o espectculo tinha sido
espantosa, no mnimo, e imaginei que isso assinalasse uma mudana
nela. No sei por que pensei isso, mas pensei, e da que tenha
ficado surpreendido quando ela apareceu na primeira manh de
regresso s aulas vestida como de costume: camisola castanha,
cabelo apanhado, saia de xadrez.
     Bastu olh-la uma vez, e no pude deixar de sentir pena
dela. Durante o fim-de-semana, Jamie tinha sido encarada como
normal - especial at - ou assim me parecera, mas ela, de alguma
forma, desaproveitara isso. Sim, as pessoas eram um pouco mais
simpticas para ela e os que ainda no lhe tinham falado iam
dizer-lhe que
ela se tinha saido muito bem, tambm, mas percebi logo que aquilo
no ia durar muito tempo. As atitudes forjadas desde a infncia
so difceis de quebrar e interrogava-me em parte se as coisas
no poderiam piorar para ela depois daquilo. Agora que as pessoas
sabiam que ela podia ter um aspecto normal, podiam at tornar-se
mais cruis.
     Queria falar com Jamie sobre as minhas impresses, queria
mesmo, mas planeava faz-lo quando terminasse a semana. No s
tinha muito que fazer, como queria um pouco de tempo para pensar
na melhor maneira de lhe dizer o que tinha para dizer. Para ser
franco, ainda me sentia um pouco culpado por causa das coisas que
lhe havia dito no nosso ltimo passeio, mas no era s porque a
pea tinha sido um xito. Tinha mais que ver com o facto de
durante todo o tempo em que estivramos juntos, Jamie no ter
sido outra coisa seno amvel, e eu sabia que tinha agido mal.
     Tambm no achava que ela quisesse falar comigo, para dizer
a verdade. Sabia que me podia ver com os meus amigos ao almoo
enquanto ela se sentava a um canto a ler a sua Bblia, mas nunca
deu sinal de querer vir ter connosco. Mas quando eu ia a sair da
escola naquele dia, ouvi a voz dela atrs de mim, perguntando-me
se no me importava de a acompanhar at casa. Apesar de ainda no
estar preparado para lhe falar dos meus pensamentos, aceitei. Em
nome dos velhos tempos.
     Um minuto depois, Jamie foi directa ao assunto.
     - Lembras-te daquelas coisas que disseste da ltima vez que
me acompanhaste a casa? - perguntou.
     Acenei com a cabea, desejando que ela no tivesse abordado
o assunto.
-    Prometeste que me irias compensar - disse ela.
     Por um momento, fiquei confuso. Pensei que j o tivesse
feito com a minha participao na pea. Jamie continuou.
     - Tenho andado a pensar no que  que poderias fazer -
continuou sem deixar que eu metesse uma palavra pelo meio - e o
que eu proponho  isto.
     Perguntou-me ento se no me importava de ir recolher os
frascos de picles e latas de caf que ela distribuira em
estabelecimentos comerciais por toda a cidade no principio do
ano. Encontravam-se em cima dos balces, normalmente perto das
caixas registadoras para que as pessoas pudessem l deixar os
trocos. O dinheiro destinava-se aos rfos. Jamie nunca queria
pedir dinheiro directamente s pessoas, queria que elas o dessem
de livre vontade. Essa, na sua opinio, era a maneira crist de
fazer as coisas.
     Lembro-me de ver os recipientes em lugares como o Cecil's
Diner e o Crown Theater. Os meus amigos e eu costumvamos atirar
l para dentro clipes e fichas metlicas quando os caixeiros no
estavam a olhar, pois o barulho que faziam ao cair era mais ou
menos parecido com o de uma moeda. Depois riamos entre ns por
estarmos a pregar uma partida a Jamie. Gracejvamos imaginando
Jamie a abrir uma das suas latas, esperando uma boa colecta por
causa do peso, a esvazi-las e a encontrar apenas fichas e
clipes. s vezes, quando nos lembramos das coisas que costumamos
fazer, arrepiamo-nos, e foi precisamente isso que me aconteceu.
     Jamie reparou na expresso no meu rosto.
     - No tens de o fazer - disse, evidentemente decepcionada. -
Estava s a pensar que uma vez que o Natal est a aproximar-se
to depressa, e como no tenho carro, vai levar-me demasiado
tempo a recolh-las todas
     - No - interrompi-a - eu fao isso. No tenho muito que
fazer, de qualquer maneira.

     Ento foi isso que fiz comeando na quarta-feira, apesar de
ter de estudar para os testes e precisar de acabar as composies
para a candidatura. Jamie deu-me uma lista de todos os stios
onde tinha deixado uma lata. Pedi o carro emprestado  minha me
e, no dia seguinte, comecei num extremo da cidade. Ela
distribuira cerca de sessenta latas e imaginei que precisaria de
apenas um dia para recolh-las todas. Comparado com a tarefa de
ter de distribui-las, ia ser fcil. Jamie precisara de quase seis
semanas para o fazer, porque teve primeiro de arranjar sessenta
frascos e latas vazias e depois s podia distribuir duas ou trs
por dia, pois no tinha carro e s podia transportar esse nmero
de cada vez. Quando comecei, senti-me meio esquisito por ser a
pessoa que ia recolher os frascos e as latas, uma vez que aquilo
tinha sido um projecto deJamie, mas dizia constantemente a mim
prprio que fora ela quem me havia pedido para a ajudar.
     Fui de estabelecimento em estabelecimento, recolhendo os
frascos e as latas e, ao fim do primeiro dia, percebi que aquilo
ia demorar um pouco mais do que havia previsto. Tinha recolhido
apenas cerca de vinte recipientes, porque me esquecera de uma
simples realidade da vida em Beaufort. Numa cidade pequena como
aquela, era completamente impossvel entrar numa loja e pegar na
lata sem ter uma conversa com o dono ou cumprimentar outra pessoa
qualquer que se conhecesse. Pura e simplesmente, no se fazia.
Assim, tinha de ficar ali sentado enquanto um tipo qualquer me
contava a histria do espadim que tinha pescado no Outono
anterior, ou perguntavam-me como estava a correr a escola e
diziam que precisavam de uma mozinha nas traseiras para
descarregar umas caixas, ou, ento, queriam a minha opinio sobre
se deveriam mudar o expositor das revistas para o outro lado da
loja. Jamie, sabia-o, teria lidado muito bem com este tipo de
coisas, e tentei comportar-me como pensava que ela queria que eu
me comportasse. Afinal de contas, era o projecto dela.
     Para acelerar as coisas no parava entre cada
estabelecimento para verificar o dinheiro recolhido. Depositava
apenas o contedo dos frascos ou das latas dentro de outro
recipiente juntando tudo. Ao fim do primeiro dia, tinha os trocos
todos reunidos em dois frascos grandes, e levei-os para cima para
o meu quarto. Reparei nalgumas notas atravs do vidro - no
muitas - mas s fiquei realmente nervoso quando esvaziei o
contedo dos frascos no cho e vi que os trocos consistiam
sobretudo de moedas de um cntimo. Apesar de no haver tantas
fichas e clipes como imaginara, ainda assim fiquei desapontado
quando contei o dinheiro todo. Havia vinte dlares e trinta e
dois cntimos. Mesmo em 1958, isso no era muito dinheiro,
especialmente quando dividido por trinta midos.
     No desanimei, porm. Pensando tratar-se de algum engano,
sa no dia seguinte, recolhi duas dzias de latas e frascos e
cavaqueei com outros vinte proprietrios de estabelecimentos. A
receita recolhida: vinte e trs dlares e oitenta e nove
cntimos.
     O terceiro dia foi ainda pior. Depois de contar o dinheiro,
nem eu conseguia acreditar. Havia apenas onze dlares e cinquenta
e dois cntimos. Estes vinham dos estabelecimentos junto ao mar,
frequentados principalmente por turistas e adolescentes. ramos
realmente incrveis, no pude deixar de pensar.
     Vendo que ao todo tinha sido recolhido to pouco dinheiro
     cinquenta e cinco dlares e setenta e trs cntimos senti-me
pessimamente, sobretudo tendo em conta que os frascos e as latas
tinham estado l fora durante quase um ano e que eu prprio as
vira vezes sem conta. Naquela noite, devia telefonar a Jamie e
dizer-lhe quanto  que tinha recolhido, mas simplesmente no o
conseguia fazer. Ela falara-me de como queria algo de muito
especial para aquele ano, e aquele dinheiro no ia dar para nada,
at eu sabia isso. Ento, decidi mentir-lhe e dizer-lhe que no
ia contar o dinheiro at que ns dois o pudssemos fazer juntos,
porque o projecto era dela, no meu. Era, na verdade, deprimente
de mais. Prometi levar-lhe o dinheiro na tarde seguinte, depois
das aulas.
O dia seguinte era o 21 de Dezembro, o dia mais curto do ano.
Faltavam apenas quatro dias para o Natal.
     - Landon - disse ela depois de contar o dinheiro - isto  um
milagre!
     - Quanto  que est a? - perguntei. Sabia exactamente
quanto era.
     - So quase duzentos e quarenta e sete dlares! - Estava
absolutamente radiante enquanto olhava para mim. Como Hegbert
estava em casa, foi-me permitido sentar na sala de estar. Fora a
que Jamie tinha contado o dinheiro. Estava disperso pelo cho em
montinhos bem ordenados, quase tudo em moedas de vinte e cinco e
dez cntimos. Hegbett encontrava-se sentado  mesa da cozinha, a
escrever o seu sermo, e at ele virou a cabea quando ouviu a
voz dela.
     - Achas que isso  suficiente? - perguntei inocentemente.
     Pequenas lgrimas escorriam-lhe pela face enquanto olhava em
redor da sala, no acreditando ainda no que estava a ver ali
mesmo  sua frente. Mesmo depois do espectculo, no tinha
demonstrado tamanha felicidade. Ento olhou directamente para
mim.
     - ... fantstico! - exclamou sorrindo. Jamais ouvira tanta
emoo na sua voz. - O ano passado consegui apenas setenta
dlares.
     - Fico feliz por este ano as coisas terem corrido melhor -
disse atravs do caroo que se me havia formado na garganta. - Se
no tivesses distribudo esses frascos to cedo este ano, talvez
no tivesses conseguido tanto.
     Sei que estava a mentir, mas no me importava. Por uma vez,
estava a fazer aquilo que era certo.

     No ajudei Jamie a escolher os brinquedos de qualquer
maneira, imaginei que ela soubesse melhor do que eu o que os
midos queriam mas ela insistiu que a acompanhasse ao orfanato na
vspera do Natal de modo a poder estar presente quando as
crianas abrissem as prendas. Por favor, Landon proferira, e
estando ela to entusiasmada, no tive coragem de recusar.
     Assim, trs dias depois, tendo o meu pai e a minha me ido a
uma festa na casa do presidente da cmara, vesti um casaco de
pied-de-poule, pus a minha melhor gravata e dirigi-me para o
carro da minha me com o presente de Jamie debaixo do brao.
Gastara os meus ltimos dlares numa bonita camisola, porque foi
tudo o que pude pensar em comprar para lhe oferecer. Fazer
compras para ela no era propriamente a coisa mais fcil deste
mundo.
     Tinha de estar no orfanato s sete, mas a ponte junto ao
porto de Morehead City encontrava-se iada e tive de esperar que
um cargueiro que partia para um porto estrangeiro deslizasse
lentamente canal abaixo. Por causa disso, cheguei alguns minutos
atrasado. A porta principal j estava trancada e tive de bater
com fora at Mr. Jenkins finalmente me ouvir. Remexeu no seu
molho de chaves para encontrar a chave certa e, um instante
depois, abriu a porta. Entrei, dando palmadinhas nos braos para
afastar o frio.
     - Ah... Ests aqui - disse ele alegremente. - Estivemos 
tua espera. Anda, vou levar-te para onde est toda a gente.
     Conduziu-me ao longo do vestbulo at  sala de recreio, o
mesmo stio onde eu estivera antes. Parei apenas um momento para
respirar fundo antes de, por fim, entrar.
     Estava tudo melhor do que eu imaginara.
     Ao centro da sala, vi uma rvore de Natal gigantesca,
decorada com fitas brilhantes e luzes coloridas e uma centena de
diferentes ornamentos feitos  mo. Por baixo da rvore,
espalhados em todas as direces, havia presentes embrulhados de
todos os tamanhos e feitios. Encontravam-se amontoados bem alto e
as crianas no cho, sentadas muito juntas umas das outras num
grande semicirculo. Vestiam as suas melhores roupas, presumi - os
rapazes de calas azul-marinho e camisas brancas de colarinho, as
raparigas com saias azul-marinho e blusas de manga comprida.
Estavam todos com o aspecto de se terem lavado e arranjado antes
do grande acontecimento, e a maioria dos rapazes tinha o cabelo
cortado.
     Na mesa ao lado da porta, havia uma grande taa de ponche e
travessas com bolinhos, com a forma de rvores de Natal e
salpicados de acar verde. Reparei nalguns adultos que estavam
sentados com as crianas; alguns dos midos mais novos
encontravam-se ao colo dos adultos, os rostos muito concentrados
enquanto escutavam a leitura de A Vspera de Natal.
     No vi Jamie, pelo menos naquele preciso momento. Mas foi a
voz dela que reconheci primeiro. Era ela quem lia a histria e,
por fim, localizei-a, sentada no cho  frente da rvore, apoiada
sobre as pernas.
     Para surpresa minha, vi que trazia o cabelo solto, tal como
na noite do espectculo. Em vez do velho casaco de l castanho
que eu j tinha visto tantas vezes, vestia uma camisola vermelha
com decote em V que, de certa maneira, acentuava a cor dos seus
olhos azuis-claros. Mesmo sem o p brilhante no cabelo nem o
comprido vestido flutuante, a viso dela era fascinante. Sem
sequer me aperceber, tinha estado a conter a respirao e pelo
canto do olho vi Mr. Jenkins a sorrir para mim. Expirei e sorri,
tentando recuperar o controlo.
     Jamie fez uma pausa apenas para erguer os olhos do livro.
Reparou que eu estava  porta, depois voltou a ler para as
crianas. Levou mais um minuto ou dois para terminar e, quando o
fez, levantou-se e endireitou a saia, depois contornou as
crianas para vir ter comigo. No sabendo para onde ela queria
que eu fosse, fiquei onde me encontrava.
     Mr. Jenkins j se havia retirado de ao p de mim.
     - Desculpa termos comeado sem ti - disse quando se
aproximou - mas os midos estavam mesmo muito entusiasmados.
     - No faz mal - retorqui, sorrindo, pensando em como ela
estava bonita.
     - Estou muito contente por poderes ter vindo.
     - Tambm eu.
     Jamie sorriu e levou-me pela mo.
- Vem comigo disse. Ajuda-me a distribuir os presentes.
     Passmos a hora seguinte a fazer exactamente isso,
observando as crianas a abrir os presentes um por um. Jamie
fizera as compras pela cidade inteira e escolhera duas ou trs
coisas para cada criana do orfanato, presentes individuais que
nunca tinham recebido antes. Os presentes que Jamie comprara no
eram os nicos que as crianas recebiam, tanto o orfanato como os
que ali trabalhavam tinham tambm comprado alguma coisa.  medida
que os papis voavam pela sala num frenesim intenso, ouviam-se
gritinhos de satisfao por todo o lado. A mim, pelo menos,
parecia que todas as crianas tinham recebido muito mais do que
aquilo que tinham esperado e no se cansavam de agradecer a
Jamie.
     Quando a poeira finalmente assentou, e todas as prendas
estavam abertas, o ambiente comeou a acalmar. Mr. Jenkins e uma
mulher que eu nunca tinha visto antes arrumaram a sala e algumas
das crianas mais pequenas comeavam a adormecer debaixo da
rvore. Alguns dos mais velhos tinham j regressado aos seus
quartos com os presentes e, ao sairem diminuiram a intensidade
das luzes. As luzes da rvore de Natal projectavam um brilho
etreo, enquanto a msica Noite Feliz tocava baixinho no
fongrafo que tinha sido colocado a um canto. Eu estava ainda
sentado no cho ao lado de Jamie, que segurava uma rapariguinha
que adormecera no seu colo. Por causa de toda aquela confuso,
ainda no tivramos verdadeiramente uma oportunidade para
conversar. No que qualquer de ns se tivesse importado.
Estvamos ambos a olhar para as luzes na rvore, e perguntava a
mim mesmo em que  que Jamie estaria a pensar. Para dizer a
verdade, no sabia, mas estava com uma expresso terna. Achava
no, sabia que ela estava satisfeita pela maneira como a noite
tinha corrido, e l no fundo, eu tambm estava. At quele
momento, fora a melhor vspera de Natal que eu j tinha tido.
     Olhei-a de relance. Com as luzes a brilhar no seu rosto,
estava bonita como ningum.
     - Comprei-te uma coisa - disse-lhe, por fim. - Quero dizer,
um presente. - Falei baixinho para no acordar a menina e
esperava que isso escondesse o nervosismo na minha voz.
     Ela desviou o olhar da rvore para mim, sorrindo docemente.
-    No precisavas de fazer isso. - Manteve baixa a voz, que
parecia quase musical.
     - Eu sei - disse-lhe. - Mas apeteceu-me. - Tinha mantido a
prenda junto a mim. Peguei no embrulho e entreguei-lho.
     - Podes abri-lo por mim? Tenho as mos meio ocupadas neste
momento. - Olhou para a menina, depois para mim.
     - No precisas de abri-lo agora, se no quiseres - disse,
encolhendo os ombros - na verdade, no  nada de muito especial.
     - No sejas tolo - adiantou ela. - S o abriria  tua
frente.
     Para clarear a minha mente, olhei para o presente e comecei
a abri-lo, descolando a fita-cola para que no fizesse muito
barulho, em seguida desembrulhando o papel at chegar a caixa.
Depois de pr o papel de lado, levantei a tampa e tirei a
camisola para fora, erguendo-a para lha mostrar. Era castanha,
como as que ela normalmente usava. Mas achei que pudesse usar uma
nova.
     Tendo em conta a alegria que tinha visto antes, no esperava
grande reaco da parte dela.
     - Ests a ver?  s isto. Disse-te que no era nada de
especial
     avisei. Esperava que ela no ficasse desapontada.
     -  linda, Landon - comentou ela com sinceridade. - Vou
us-la da prxima vez que estiver contigo. Obrigada.
     Permanecemos em silncio durante um momento, e uma vez mais
comecei a olhar para as luzes.
     - Tambm te trouxe uma coisa - murmurou Jamie por fim. Olhou
para a rvore e os meus olhos seguiram os dela. O seu presente
estava ainda debaixo da rvore, parcialmente escondido pela base,
e estendi o brao para o retirar. Era rectangular, flexivel e um
pouco pesado. Pousei-o no colo e deixei-o a sem sequer tentar
abri-lo.
     - Abre-o - disse ela, fixando-me com o olhar.
     - No me podes dar isto - disse, sem flego. J sabia o que
estava l dentro e no conseguia acreditar no que ela tinha
feito. As minhas mos comearam a tremer.
     - Por favor - insistiu Jamie com a voz mais bondosa que
jamais ouvira - abre-o. Quero que fiques com ela.
     Com relutncia abri lentamente o embrulho. Quando estava
finalmente livre do papel, segurei-a com cuidado, com medo de a
estragar. Olhei para ela, hipnotizado, e passei lentamente a mo
pela capa, os dedos roando pela pele bem gasta enquanto os olhos
se me enchiam de lgrimas. Jamie estendeu o brao e pousou a mo
sobre a minha. Estava quente e macia.
          Olhei para ela, no sabendo o que dizer.
          Jamie oferecera-me a sua Bblia.
     - Obrigada por teres feito o que fizeste - sussurrou-me. -
Foi o melhor Natal que j tive.
          Virei a cabea sem responder e estendi o brao para o
lado onde pousara o meu copo de ponche. O coro de Noite Feliz
ouvia-se ainda, e a msica enchia a sala. Bebi um golo de ponche,
tentando aliviar a secura repentina na minha garganta. Enquanto
bebia, as vezes todas em que tinha estado com Jamie inundaram-me
a mente. Pensei no baile, e no que ela fizera por mim naquela
noite. Pensei na pea, e na sua aparncia to anglica. Pensei
nas vezes em que a acompanhara a casa, e em como a tinha ajudado
a recolher os frascos e as latas cheios de cntimos para os
rfos.
          Enquanto estas imagens passavam pela minha cabea, a
minha respirao acalmou-se de repente. Olhei para Jamie, depois
para o tecto e em redor da sala, esforando-me por manter a
compostura, depois novamente para Jamie. Ela sorriu para mim, e
eu sorri para ela, e tudo o que conseguia fazer era perguntar a
mim mesmo como  que me havia apaixonado por uma rapariga como
aJamie Sullivan.
CAPTULO 10

     Mais tarde, naquela noite, levei Jamie a casa. A principio
no tinha a certeza se deveria tentar o velho truque de bocejar e
estender o brao sobre os seus ombros mas, para ser sincero, no
sabia exactamente o que ela sentia por mim. Certo, oferecera-me o
mais admirvel presente que jamais recebera e, apesar de,
provavelmente, nunca o ir abrir e ler como ela fazia, sabia que
era como se ela me tivesse oferecido parte de si mesma. Mas Jamie
era o tipo de pessoa capaz de doar um rim a um estranho que
conhecesse na rua, se ele realmente precisasse. Por isso, no
sabia exactamente o que pensar.
     Jamie dissera-me uma vez que no era nenhuma imbecil, e
suponho que, finalmente chegara  concluso de que, de facto, no
era. Ela podia ser... bem, diferente... mas descobrira o que eu
tinha feito pelos rfos e, olhando para trs, penso que j o
sabia mesmo quando estvamos sentados no cho da sua sala de
estar Quando ela disse que aquilo era um milagre, suponho que
estava a referir-se a mim especificamente.
     Hegbert, lembro-me, entrara na sala quando eu e Jamie
falvamos no assunto, mas, na verdade, no tivera muito que
dizer. O velho Hegbert no andava bem nos ltimos tempos, pelo
menos tanto quanto eu conseguia perceber. Os seus sermes ainda
falavam de dinheiro, e ainda se referia aos fornicadores, mas
ultimamente eram mais curtos do que o habitual e de vez em quando
parava a meio de um apoderando-se dele uma expresso estranha,
como se estivesse a pensar noutra coisa, em algo triste.
     Eu no sabia o que pensar daquilo, uma vez que, na
realidade, no o conhecia assim to bem. E Jamie, quando falava
dele, parecia descrever outra pessoa completamente diferente.
Era-me to difcil imaginar Hegbert com sentido de humor como era
imaginar duas luas no cu.
     Bem, prosseguindo, ele entrou na sala quando estvamos a
contar o dinheiro. Jamie levantou-se com lgrimas nos olhos, e
Hegbert parece nem ter percebido que eu estava presente. Disse a
Jamie que se sentia orgulhoso dela e que a amava, mas depois
arrastou os ps de volta para a cozinha para continuar a
trabalhar no seu sermo. Nem sequer me cumprimentou. Bem, eu
sabia que no era propriamente o mido mais religioso da
comunidade mas, ainda assim, achei o seu comportamento algo
estranho.
     Enquanto pensava em Hegbert, observava Jamie sentada a meu
lado. Olhava pela janela com uma expresso tranquila no rosto,
quase a sorrir, mas muito distante ao mesmo tempo. Sorri. Se
calhar, estava a pensar em mim. A minha mo comeou a fugir ao
longo do assento para mais prximo da dela mas, antes de a poder
alcanar, Jamie quebrou o silncio.
     - Landon - perguntou, finalmente, virando-se para mim -
Costumas pensar em Deus?
     Retirei a mo.
     Bem, quando eu pensava em Deus, normalmente imaginava-o como
naquelas pinturas antigas que tinha visto nas igrejas - um
gigante pairando sobre a paisagem, trajando vestes brancas, com
cabelo comprido e flutuante, apontando o dedo - mas sabia que ela
no se referia a isso. Estava a falar dos designios de Deus.
Levei algum tempo para responder.
     - Claro - respondi. - s vezes, suponho.
     - Nunca te perguntas por que  que as coisas tm de ser da
maneira como so?
     Fiz que sim com a cabea, hesitante.
     - Tenho pensado muito nisso ultimamente.
     Mais at do que o costume? Quis perguntar, mas no o fiz.
Percebi que ela tinha mais para dizer e fiquei calado.
     - Eu sei que Deus tem um plano para todos ns mas, s vezes,
no consigo perceber a mensagem. Isso nunca te acontece?
     Disse aquilo como se fosse algo em que eu pensasse o tempo
todo.
     - Bem - disse, tentando fingir que pensava no assunto -
no creio que tenhamos sempre de a compreender. Acho que, s
vezes, precisamos apenas de ter f.
     Foi uma resposta bastante boa, admito. Suponho que os meus
sentimentos por Jamie estavam a fazer com que o meu crebro
trabalhasse um pouco mais depressa do que o habitual. Vi que ela
estava a reflectir na minha resposta.
          - Sim - disse ela, por fim - tens razo.
     Sorri para mim mesmo e mudei de assunto, uma vez que falar
de Deus no era coisa que fizesse uma pessoa sentir-se romntica.
     - Sabes - disse, descontraidamente - foi mesmo boa esta
noite, sentados ao p da rvore.
     - Sim, foi - confirmou ela. A sua mente estava ainda noutro
lado.
-    E tu tambm estavas muito bonita.
     - Obrigada.
     Aquilo no estava a resultar muito bem.
     - Posso fazer-te uma pergunta? - questionei por fim, na
esperana de a trazer de volta para mim.
     - Claro - respondeu ela.
     Respirei fundo.
     - Depois da missa amanh, e, bem... depois de teres passado
algum tempo com o teu pai... quer dizer... - Fiz uma pausa e
olhei para ela. - Gostarias de vir a minha casa para o jantar de
Natal?
     Apesar de ter ainda o rosto virado para a janela, pude
vislumbrar os vagos contornos de um sorriso.
     - Sim, Landon, gostaria muito.
     Suspirei de alivio, no acreditando que lhe tivesse mesmo
perguntado aquilo e ainda a interrogar-me sobre como tudo tinha
acontecido. Conduzi por ruas com montras decoradas com luzes de
Natal e atravessei a Beaufort City Square. Alguns minutos mais
tarde, quando estendi o brao ao longo do assento, consegui
finalmente segurar na mo dela, e para completar uma noite
perfeita, ela no a retirou.
     Quando estacionmos em frente da casa dela, as luzes da sala
de estar ainda estavam acesas e reparei em Hegbert atrs das
cortinas. Suponho que estava  espera de Jamie para saber como
tinha corrido a noite no orfanato. Ou era isso, ou queria
certificar-se de que eu no beijaria a sua filha na soleira da
porta. Sabia que ele no via estas coisas com bons olhos.
     Pensava nisso no que fazer quando finalmente nos
despedssemos, quero dizer quando saimos do carro e nos dirigimos
para a porta. Jamie parecia calma e satisfeita ao mesmo tempo, e
penso que estava feliz por eu a ter convidado a ir a minha casa
no dia seguinte. Como ela tinha sido suficientemente esperta para
descobrir o que eu tinha feito pelos rfos, imaginei que talvez
o fosse tambm para compreender a situao presente. Na mente de
Jamie, penso que ela percebeu que aquela fora a primeira vez que
eu lhe pedira de livre vontade para estar comigo.
     Mesmo quando chegvamos aos degraus da porta, vi Hegbert
espreitar pelas cortinas e depois recuar. Com alguns pais, os de
Angela por exemplo, isso queria dizer que eles sabiam que
tnhamos chegado e que dispnhamos de uns breves momentos at
eles abrirem a porta. Normalmente, isso dava-nos tempo para fazer
olhinhos um ao outro enquanto ganhvamos coragem para nos
beijarmos.
     Ora bem, eu no sabia se Jamie me beijaria; na verdade,
duvidava que o fizesse. Mas to bonita como ela estava, com o
cabelo solto e com tudo o que tinha acontecido naquela noite, eu
no queria perder a oportunidade se ela surgisse. Sentia j
pequenas tremuras quando Hegbert abriu a porta.
     - Ouvi-os chegar - disse ele baixinho. A sua pele estava
amarelada, como de costume, mas parecia cansado.
     - Boa noite, Reverendo Sullivan - disse eu, desapontado.
     - Ol, Pap - disse Jamie alegremente, um segundo depois. -
Quem me dera que pudesse ter vindo hoje  noite. Foi maravilhoso.
     - Fico muito feliz por ti. - Ele pareceu recompor-se ento e
pigarreou. - Dou-te um tempinho para te despedires. Deixo-te a
porta aberta.
     Deu meia volta e regressou  sala de estar. De onde se tinha
sentado, eu sabia que ele ainda nos podia ver. Fingia estar a
ler, embora eu no conseguisse ver o que ele tinha nas mos.
     - Tive uma noite maravilhosa, Landon - disse Jamie.
     - Eu tambm - respondi, sentindo os olhos de Hegbert em mim.
Perguntava a mim mesmo se ele sabia que eu tinha segurado a mo
dela no carro.
     - A que horas devo estar em tua casa amanh? - perguntou. A
sobrancelha de Hegbert ergueu-se apenas um pouco.
     - Eu venho buscar-te. Cinco horas est bem?
     Olhou por cima dos ombros.
- Pap, importa-se que v jantar com Landon e os pais dele
amanh?
     Hegbert levou a mo aos olhos e comeou a esfreg-los.
Suspirou.
     - Se  importante para ti, podes ir - respondeu.
     No foi o voto de confiana mais entusiasmado que j ouvira,
mas para mim chegava.
     - Que devo levar? - perguntou ela. No Sul, era tradio
fazer sempre essa pergunta.
     - No precisas de levar nada - respondi. Venho buscar-te s
cinco menos um quarto.
     Ficmos ali parados por um momento sem dizer nada, e pude
perceber que Hegbert estava a ficar algo impaciente. No tinha
virado uma pgina do livro desde que se sentara.
     - Vemo-nos amanh - disse ela por fim.
     - Est bem - retorqui.
     Olhou para os ps durante um instante, depois de novo para
mim.
- Obrigada por me teres trazido a casa.
     Com isso, voltou-se e entrou. Mal pude ver o ligeiro sorriso
docemente esboado nos seus lbios quando espreitou pela porta
mesmo antes de a fechar.

     No dia seguinte, fui busc-la  hora combinada e fiquei
contente por ver que ela tinha novamente o cabelo solto. Vestia a
camisola que eu lhe oferecera, tal como havia prometido
     Tanto a minha me como o meu pai ficaram um pouco
surpreendidos quando lhes perguntei se no se importavam que
Jamie viesse para jantar. No era um problema de maior sempre que
o meu pai estava em casa, a minha me pedia a Helen, a
cozinheira, que fizesse comida suficiente para um pequeno
exrcito.
     Suponho que no tenha falado dela antes, da cozinheira. Em
casa tnhamos uma empregada de limpeza e uma cozinheira, no s
porque a minha famlia tinha dinheiro para tal, mas tambm porque
a minha me no era l muito boa dona de casa. Conseguia fazer
umas sanduches para o meu almoo de vez em quando, mas havia
alturas em que a mostarda lhe manchava as unhas e precisava de
pelo menos trs ou quatro dias para se restabelecer. Sem Helen,
eu teria sido criado a pur de batata queimado e bifes
estorricados.
O meu pai, felizmente, apercebera-se disso logo aps o casamento
e tanto a cozinheira como a empregada estavam connosco desde
antes de eu ter nascido.
     Apesar de a nossa casa ser maior do que a maioria, no era
um palcio, e nem a cozinheira, nem a empregada viviam connosco
porque no tnhamos alojamentos separados nem nada disso.
O meu pai tinha comprado a casa devido ao seu valor histrico.
Embora no fosse a casa onde Blackbeard vivera em tempos, o que
teria sido mais interessante para algum como eu, pertencera de
facto a Richard Dobbs Spaight, que participara na assinatura da
Constituio. Spaight tambm possuira uma quinta nos arredores de
New Bem, que ficava a cerca de sessenta quilmetros dali estrada
acima, e a tinha sido sepultado. A nossa casa podia no ser to
famosa como aquela onde Dobbs Spaight estava sepultado, mas,
ainda assim, proporcionava ao meu pai alguma legitimidade para se
gabar nos corredores do Congresso e, sempre que ele dava passeios
pelo jardim, podia v-lo a sonhar com o legado que queria deixar.
De certa maneira, isso entristecia-me pois, por mais que ele
fizesse, nunca chegaria aos calcanhares do velho Richard Dobbs
Spaight. Acontecimentos histricos como a assinatura da
Constituio do-se apenas uma vez em algumas centenas de anos e,
por mais voltas que se d, debater subsdios agrcolas para os
agricultores de tabaco ou discutir o "perigo vermelho" nunca
seria suficiente. At algum como eu sabia isso.
     A casa estava mencionada no Registo Nacional de Monumentos
Histricos ainda est, presumo e embora Jamie j a tivesse
visitado, ficou ainda meio espantada quando l entrou. A minha
me e o meu pai estavam ambos muito bem vestidos, tal como eu, e
a minha me cumprimentou Jamie com um beijo na face. A minha me,
no pude evitar pens-lo enquanto a observava, tinha-o conseguido
antes de mim.
     Tivemos um jantar agradvel, bastante formal, com quatro
pratos, embora no enfadonho, nem nada disso. Os meus pais e
Jamie conversaram maravilhosamente isto faz-nos lembrar Miss
Garber , e embora eu tentasse injectar na conversa o meu estilo
particular de humor, na verdade, no tive grande xito, pelo
menos no que diz respeito aos meus pais. Jamie, contudo, ria-se,
e tomei isso como um bom sinal.
     Depois do jantar, convidei-a para dar um passeio pelo
jardim, apesar de ser Inverno e de nada estar em flor. Depois de
vestirmos os casacos, saimos para o ar frio de Dezembro. O ar da
nossa respirao saia em pequenas baforadas.
     - Os teus pais so pessoas maravilhosas - disse-me ela.
Deduzi que no tinha levado os sermes de Hegbert muito a peito.
     - So simpticos - respondi  sua maneira. - A minha me 
particularmente amorosa. - Disse isto no apenas porque era
verdade, mas tambm porque era a mesma coisa que os midos diziam
de Jamie. Esperei que ela percebesse a indirecta.
     Deteve-se para olhar as roseiras. Pareciam paus retorcidos,
e no percebi que interesse eles lhe podiam despertar.
     -  verdade aquilo que dizem do teu av? - perguntou-me. -
As histrias que as pessoas contam?
     Calculei que no percebera a minha indirecta.
     - Sim - respondi, tentando no mostrar a minha decepo.
     - Isso  triste - disse ela simplesmente. - H coisas mais
importantes na vida do que o dinheiro.
     - Eu sei.
     Ela olhou para mim.
- Sabes mesmo?
     No a olhei nos olhos quando respondi. No me perguntem
porqu.
     - Eu sei que aquilo que o meu av fez estava errado.
     - Mas no queres devolver o que ele tirou aos outros, pois
no?
- Para ser franco, nunca pensei nisso.
     - Mas serias capaz de o fazer?
     - No - respondi de imediato, e Jamie virou a cara. Estava a
olhar de novo para as roseiras com os seus paus retorcidos e
percebi, de repente, que ela teria querido que eu respondesse que
sim. Era o que ela faria sem pensar duas vezes.
     - Porque  que fazes isso? - deixei escapar antes de me
conseguir deter. O sangue inundou-me depressa a face. - Fazer-me
sentir culpado, quero dizer. No fui eu que o fiz. Aconteceu
simplesmente nascer nesta famlia.
 Estendeu o brao e tocou num galho.
- Isso no quer dizer que no possas reparar o mal feito - disse
suavemente - quando tiveres oportunidade.
     A sua posio era evidente, at mesmo para mim, e eu l no
fundo sabia que ela tinha razo. Mas essa deciso, se alguma vez
fosse tomada, vinha ainda muito longe. Do meu ponto de vista,
tinha coisas mais importantes em mente. Mudei o assunto para algo
com que me pudesse relacionar melhor.
     - O teu pai gosta de mim? - perguntei. Queria saber se
Hegbert me permitiria v-la de novo.
     Levou um momento para responder.
- O meu pai - disse ela devagar - preocupa-se comigo.
- No o fazem todos os pais? - perguntei.
     Olhou para os ps, depois de novo para o lado antes de se
voltar para mim.
     - Penso que com ele  diferente da maioria. Mas o meu pai
gosta de ti e sabe que fico feliz quando posso estar contigo. 
por isso que me deixou vir a tua casa jantar hoje  noite.
- Fico feliz por isso - disse, sinceramente.
- Tambm eu.
     Olhmos um para o outro sob o luar de um quarto crescente, e
quase a beijei logo ali, mas ela virou a cara um momento antes e
pronunciou algo que me deixou um pouco perplexo.
- O meu pai tambm se preocupa contigo, Landon.
     O modo como disse aquilo baixinho e triste ao mesmo tempo
fez-me perceber que no era s por ele achar que eu era
irresponsvel, ou porque costumava esconder-me atrs das rvores
e chamar-lhe nomes, ou at por eu pertencer  famlia Carter.
     - Porqu? - perguntei.
     - Pela mesma razo por que eu me preocupo contigo -
respondeu. No desenvolveu mais o assunto e eu soube
imediatamente que ela estava a esconder-me alguma coisa, alguma
coisa que no me podia contar, alguma coisa que tambm a
entristecia. Mas foi s mais tarde que soube do seu segredo.

     Estar apaixonado por uma rapariga como Jamie Sullivan era,
sem dvida, a coisa mais estranha por que tinha passado. No s
era uma rapariga em quem nunca tinha pensado at quele ano
apesar de termos crescido juntos, como havia alguma coisa de
diferente na maneira como os meus sentimentos por ela tinham
desabrochado. No era como estar com Angela, que eu beijei logo
na primeira vez que nos encontrramos a ss. Ainda no tinha
beijado Jamie. Nem sequer a tinha abraado, ou levado ao Cecil's
Diner, ou at a um cinema. No tinha feito nenhuma das coisas que
normalmente fazia com as raparigas e, no entanto, de alguma
maneira, havia-me apaixonado. O problema era que ainda no sabia
o que ela sentia por mim.
     Havia, obviamente, alguns sinais que no me tinham passado
despercebidos. A Bblia fora, claro, o grande sinal, mas havia
tambm a maneira como ela olhara para mim quando fechou a porta
na vspera de Natal e me deixou segurar-lhe a mo quando
regressvamos do orfanato. Na minha opinio, havia
definitivamente alguma coisa ali, s no tinha a certeza de como
dar o passo seguinte.
     Depois de finalmente a ter levado a casa aps o jantar de
Natal, perguntei-lhe se no se importava que eu aparecesse l em
casa de vez em quando, e ela disse que estava bem. Fora
exactamente assim que o dissera: "Est bem." No levei a mal a
falta de entusiasmo
     Jamie tinha a tendncia de falar como um adulto, e penso que
era tambm por isso que se dava to bem com pessoas mais velhas.
     No dia seguinte, fui a p a casa dela e a primeira coisa em
que reparei foi que o carro de Hegbert no estava  entrada da
garagem. Quando ela abriu a porta, sabia o suficiente para no
lhe perguntar se podia entrar.
     - Ol, Landon - disse ela como sempre dizia, como se fosse
uma surpresa ver-me. Tinha novamente o cabelo solto e vi isso
como um bom sinal.
     - Ol, Jamie - retorqui descontraidamente.
     Ela apontou para as cadeiras.
- O meu pai no est em casa, mas podemos sentar-nos na varanda
se quiseres...
     Nem sequer me perguntem como aconteceu, porque ainda hoje
no o consigo explicar. Num momento estava ali diante dela,
esperando dirigir-me para o canto da varanda e, no momento
seguinte, no estava. Em vez de me encaminhar para as cadeiras,
avancei um passo para mais perto dela e dei por mim a pegar-lhe
na mo. Tomei-a na minha e fixei-a com o olhar, aproximando-me s
mais um pouco. Ela no recuou propriamente, mas os seus olhos
dilataram-se, apenas um pouco e, durante um pequenissimo,
intermitente instante, pensei que tivesse feito mal e ponderei se
deveria ir mais alm. Parei e sorri, inclinando a cabea para o
lado e, logo a seguir, vi que ela tinha fechado os olhos e estava
tambm a inclinar a cabea e que os nossos rostos se estavam a
aproximar um do outro.
     No demorou assim tanto tempo e, certamente, no foi o beijo
que se v nos cinemas hoje em dia, mas foi maravilhoso  sua
maneira, e tudo o que consigo recordar daquele momento foi que,
quando os nossos lbios se tocaram pela primeira vez, eu sabia
que a recordao iria durar para sempre.
CAPTULO 11

     -Foste o primeiro rapaz que beijei - confidenciou-me.
Faltavam apenas uns dias para o Ano Novo e Jamie e eu estvamos
no ponto de Iron Steamer em Pine Knoll Shores. Para l chegar,
tivemos de atravessar a ponte sobre a Intracoastal Waterway e
descer um pouco ao longo da ilha. Hoje em dia, o lugar tem
algumas das casas de praia mais caras de todo o estado mas,
naquela altura, havia sobretudo dunas de areia perto da Floresta
Nacional Martima.
     - Calculei que fosse - disse eu.
     - Porqu? - perguntou ingenuamente. - Beijei mal?
No me parecia que ficasse muito aborrecida se lhe dissesse que
sim, mas isso no teria sido verdade.
     - Beijas muito bem - disse, apertando-lhe a mo.
     Acenou com a cabea e voltou-se para o mar, os olhos
ganhando de novo aquela expresso distante. Ultimamente, isso
acontecia com muita frequncia. Deixei-a continuar assim antes de
o silncio comear a inquietar-me.
     - Sentes-te bem, Jamie? - perguntei, por fim. Em vez de
responder, mudou de assunto.
     - J alguma vez estiveste apaixonado?   - perguntou-me.
     Passei a mo pelo cabelo e fixei-a com o olhar.
- Queres dizer antes de agora?
     Disse-o como James Dean o teria dito, da maneira como Eric
me indicara para dizer se alguma vez uma rapariga me fizesse essa
pergunta. Eric era bastante astuto com as raparigas.
     - Estou a falar a srio, Landon - disse ela, olhando-me de
soslaio.
     Suponho que tambm tinha visto aqueles filmes. Com Jamie,
comeava a ter conscincia disso, eu parecia estar sempre a ir de
cima para baixo e de novo para cima em menos tempo do que leva a
matar um mosquito. Ainda no tinha bem a certeza se gostava dessa
parte da nossa relao embora, para ser franco, isso me obrigasse
a estar sempre atento. Sentia-me ainda meio tonto enquanto
pensava na sua pergunta.
     - Por acaso, j - disse, por fim.
     Ela tinha ainda os olhos fixados no oceano. Acho que pensou
que eu estava a falar de Angela mas, olhando para trs, julgo que
me apercebi ento de que o que tinha sentido por Angela era
completamente diferente do que estava a sentir naquele momento.
     - Como  que sabes que era amor? - perguntou-me.
     Observei a brisa a levantar-lhe levemente os cabelos, e
sabia que no era altura de fingir ser uma coisa que na verdade
no era.
     - Bem - afirmei num tom srio -, sabe-se que  amor quando
tudo o que nos apetece fazer  estar com a outra pessoa, e
sabemos mais ou menos que a outra pessoa sente o mesmo.
     Jamie pensou na minha resposta antes de sorrir vagamente.
     - Estou a ver - disse ela baixinho. Esperei que
acrescentasse mais alguma coisa, mas no o fez e cheguei
subitamente a outra concluso.
     Jamie podia no ter muita experincia com rapazes mas, para
vos dizer a verdade, parecia estar a manipular muito bem os meus
sentimentos.
     Durante os dois dias seguintes, por exemplo, voltou a usar o
cabelo apanhado.

     Na vspera do Ano Novo levei Jamie a jantar fora. Era a
primeira vez que ela tinha um encontro para jantar fora e fomos a
um pequeno restaurante chamado Flauvin's junto ao canal em
Morehead City. O Flauvin's era daqueles restaurantes com toalhas
de mesa e velas e cinco talheres de prata diferentes por pessoa.
Os empregados de mesa vestiam-se de preto e branco, como
mordomos, e quando olhvamos pelas janelas gigantescas que se
estendiam ao longo de toda a parede, podamos contemplar o luar a
reflectir-se nas guas tranquilas.
     Tinha tambm um pianista e uma cantora, no todas as noites
ou mesmo todos os fins-de-semana, mas aos feriados, quando
pensavam que o restaurante ia encher. Tive de fazer uma reserva
e, da primeira vez que telefonei, disseram-me que j no havia
mesas disponveis. Mas pedi  minha me que telefonasse e, de
repente, surgiu uma mesa vaga. Suponho que o dono precisasse de
um favor do meu pai ou coisa parecida, ou talvez apenas no
quisesse aborrec-lo, sabendo que o meu av nessa altura ainda
estava vivo.
     Na verdade, foi a minha me que teve a ideia de eu levar
Jamie a um stio especial. Dois dias antes, num daqueles dias em
que Jamie resolveu usar o cabelo apanhado, conversei com a minha
me sobre aquilo por que estava a passar.
     - No consigo pensar noutra coisa seno nela, me -
confessei. - Quer dizer, eu sei que ela gosta de mim, mas no sei
se sente o mesmo que eu sinto.
     - Ela  assim to importante para ti? - perguntou.
          -  - respondi baixinho.
     - Bem, o que  que tentaste at agora?
     - Que quer dizer?
     A minha me sorriu.
- Quero dizer que as raparigas, mesmo a Jamie, gostam que as
faam sentir-se especiais.
     Pensei nisso durante um momento, um pouco confuso. No era o
que andava a tentar fazer?
     - Bem, tenho ido a casa dela todos os dias - disse eu.
     A minha me pousou-me a mo no joelho. Apesar de no ser uma
grande dona de casa e, de por vezes, me provocar, como j referi,
era mesmo uma senhora amorosa.
     - Ir a casa dela  bom, mas no  a coisa mais romntica do
mundo. Devias fazer alguma coisa que lhe mostrasse realmente o
que sentes por ela.
     A minha me sugeriu que comprasse um perfume e, embora
soubesse que Jamie provavelmente ficaria contente por o receber,
no me pareceu bem. Primeiro porque uma vez que Hegbert no a
deixava usar maquilhagem - a nica excepo foi no espectculo de
Natal - tinha a certeza de que ela no podia usar perfume. Disse
isso  minha me, e foi ento que ela sugeriu que a levasse a
jantar fora.
- J no tenho dinheiro - disse-lhe, desanimado. Embora a
minha famlia fosse rica e eles me dessem uma mesada, nunca me
davam extras se a gastasse demasiado depressa.
 - Ajuda-te a ser responsvel - disse o meu pai, explicando-me
uma vez.
     - Que aconteceu ao teu dinheiro no banco?
     Suspirei, e a minha me ouviu-me em silncio enquanto lhe
expliquei o que tinha feito. Quando terminei, uma expresso de
satisfao tranquila atravessou-lhe o rosto, como se tambm ela
soubesse que eu estava finalmente a tornar-me adulto.
     - Deixa que eu trato disso - disse baixinho. - Tu tratas
apenas de saber se ela gostaria de ir e se o Reverendo Sullivan o
permite. Se ela puder ir, arranjaremos maneira de fazer com que
isso acontea. Prometo.

     No dia seguinte, fui at  igreja. Sabia que Hegbert estaria
no seu gabinete. Ainda no tinha perguntado a Jamie porque
calculei que precisasse da autorizao dele e, por uma razo ou
por outra, queria ser eu a perguntar-lhe. Julgo que tinha a ver
com o facto de Hegbert no me receber propriamente de braos
abertos quando eu aparecia l em casa. Sempre que me via subir a
ladeira tal como Jamie, tinha um sexto sentido no que dizia
respeito a isso
espreitava pelas cortinas, recuando depois rapidamente, pensando
que eu no o tinha visto. Quando eu batia  porta, levava muito
tempo a abri-la, como se tivesse de vir da cozinha. Olhava para
mim durante um bom bocado, depois suspirava profundamente e
abanava a cabea antes de me cumprimentar.
     A porta estava entreaberta e vi-o sentado  secretria, os
culos apoiados sobre o nariz. Estava a examinar uns papis tinha
quase a certeza de que tinham que ver com finanas e imaginei que
estivesse a calcular o oramento da igreja para o ano seguinte.
At os reverendos tinham contas para pagar.
     Bati  porta, e ele ergueu o olhar com interesse, como se
estivesse  espera de outro membro da congregao, depois franziu
o sobrolho quando viu que era eu.
     - Bom dia, Reverendo Sullivan - disse educadamente. - Tem um
momento?
     Parecia ainda mais cansado do que o costume, e calculei que
no estivesse a sentir-se bem.
     - Ol, Landon - disse ele com um ar fatigado.
     Tinha-me vestido com muito cuidado para a ocasio, de casaco
e gravata.
- Posso entrar?
     Acenou levemente com a cabea e eu entrei no gabinete.
Fez-me sinal para me sentar na cadeira em frente da secretria.
     - Que posso fazer por ti? - perguntou.
     Endireitei-me nervosamente na cadeira.
- Bem, Reverendo, queria fazer-lhe uma pergunta.
     Fitou-me, estudando-me, e por fim falou.
- Tem que ver com Jamie? - perguntou.
     Respirei fundo.
     - Sim, Reverendo. Queria perguntar se o senhor no se
importaria que eu levasse Jamie a jantar fora na vspera do Ano
Novo.
     Ele suspirou.
-  s isso?
     - Sim, Reverendo - respondi. - Trago-a de volta a casa a
qualquer hora que o senhor achar conveniente.
     Tirou os culos e limpou-os com o leno antes de voltar a
coloc-los no nariz. Percebi que estava a aproveitar o momento
para pensar no assunto.
     - Os teus pais tambm vo? - perguntou.
     - No, Reverendo.
     - Ento no penso que seja possvel. Mas obrigado por teres
pedido a minha autorizao primeiro. - Voltou o olhar para os
papis, tornando claro que era altura de eu partir. Levantei-me
da cadeira e dirigi-me para a porta. Prestes a sair, enfrentei-o
de novo.
     - Reverendo Sullivan?
     Ergueu o olhar, surpreendido por eu ainda ali estar.
     - Peo desculpa por aquelas coisas que costumava fazer
quando era mais novo e peo desculpa tambm por nem sempre ter
tratado Jamie da maneira como ela merecia. Mas, a partir de
agora, vai tudo mudar, prometo-lhe.
     Parecia atravessar-me com o olhar. No era o suficiente.
     - Eu amo-a - disse por fim e, quando o disse, a sua ateno
centrou-se novamente em mim.
     - Eu sei que amas - respondeu num tom triste - mas no quero
v-la magoada. - Devia ser imaginao minha, mas pareceu-me ver
os seus olhos encherem-se de lgrimas.
     - No lhe faria isso - disse eu.
     Virou-me a cara e olhou pela janela, observando o sol de
Inverno tentar forar o seu caminho atravs das nuvens. Estava um
dia cinzento, frio e triste.
     - Tr-la de volta s dez - disse ele por fim, como se
soubesse que tinha tomado a deciso errada.
     Sorri e quis agradecer-lhe, mas no o fiz. Vi que queria
ficar sozinho. Quando olhei por cima do ombro ao sair pela porta,
fiquei perplexo ao v-lo cobrir o rosto com as mos.

     Uma hora depois, fiz o convite a Jamie. A primeira coisa que
disse foi que achava que no poderia ir, mas informei-a que j
falara com o pai. Pareceu surpreendida, e penso que isso teve
influncia na maneira como me comeou a encarar a partir dali. O
que no lhe contei foi que quase parecera que Hegbert estava a
chorar quando sa do seu gabinete. No s no compreendia
inteiramente aquela situao, como no queria que ela se
preocupasse. Naquela noite, porm, depois de falar novamente com
a minha me, ela deu-me uma explicao possvel que, para ser
franco, fazia todo o sentido para mim. Hegbert deve ter-se
apercebido de que a filha estava finalmente a crescer e de que
aos poucos estava a perd-la para mim. De certa maneira, esperava
que isso fosse verdade.
     Fui busc-la exactamente  hora combinada. Embora no lhe
tivesse pedido para usar o cabelo solto, ela fizera-o por mim.
Atravessmos a ponte em silncio, seguindo ao longo do canal at
ao restaurante. Quando chegmos  recepo, o prprio dono
apareceu e acompanhou-nos at  nossa mesa. Era uma das melhores
no restaurante.
     Estava cheio quando chegmos e por toda a sala as pessoas
pareciam bem dispostas. Na vspera de Ano Novo todos se vestiam
elegantemente e ns ramos os nicos adolescentes no restaurante.
Contudo, no me pareceu que destossemos muito.
     Jamie nunca estivera antes no Flauvin's, e s precisou de
alguns minutos para absorver tudo aquilo. Parecia feliz e nervosa
ao mesmo tempo. Percebi logo que a minha me tinha feito a
sugesto certa.
     -  maravilhoso - comentou. - Obrigada por me teres
convidado.
-    O prazer  todo meu - disse, sinceramente.
     - J aqui estiveste antes?
     - Algumas vezes. Os meus pais gostam de vir c de vez em
quando, quando o meu pai no est em Washington.
     Ela olhou pela janela e observou um barco que passava diante
do restaurante com as luzes a brilhar. Por um momento, parecia
maravilhada.
- Isto  muito bonito.
     - Tambm s muito bonita       - disse eu.
     Jamie corou.
- No ests a falar a srio.
     - Claro que estou - balbuciei.
     Demos as mos enquanto espermos pelo jantar e conversmos
sobre algumas das coisas que tinham acontecido nos ltimos meses.
Ela riu-se quando falmos do baile, e eu finalmente contei-lhe a
verdadeira razo por que lhe pedira para ir comigo. No levou
muito a mal - riu-se do assunto e eu sabia que ela j tinha
percebido isso sozinha.
     - Levavas-me outra vez? - perguntou a brincar.
     - Claro.
     O jantar estava delicioso - ambos pedimos perca-do-mar e
saladas, e quando o empregado, por fim, retirou os nossos pratos,
a msica comeou a tocar. Ainda tnhamos uma hora antes de eu ter
de a levar a casa, e ofereci-lhe a minha mo.
     A principio, ramos os nicos na pista de dana. Toda a
gente olhava para ns enquanto deslizvamos na pista. Penso que
sabiam o que estvamos a sentir um pelo outro, e isso fazia-os
recordarem-se de quando eram jovens tambm. A pista estava pouco
iluminada e quando a cantora iniciou uma melodia lenta, segurei
Jamie mais perto de mim com os meus olhos fechados,
perguntando-me se alguma coisa na minha vida fora assim to
perfeita, sabendo ao mesmo tempo que no.
     Estava apaixonado, e a sensao era ainda mais profunda do
que alguma vez eu imaginara ser possvel.

     Depois do Ano Novo passmos a semana e meia seguinte juntos,
a fazer o que os casais jovens faziam naqueles tempos, embora de
vez em quando ela parecesse cansada e aptica. Passmos algum
tempo  beira do rio Neuse, a lanar pedras  gua, observando a
ondulao enquanto conversvamos, ou amos  praia perto de Fort
Macon. Apesar de ser Inverno e do oceano estar da cor do ferro,
era algo que gostvamos de fazer. Passada mais ou menos uma hora,
Jamie pedia-me para a levar a casa e dvamos as mos no carro. s
vezes, parecia-me, ela quase adormecia antes mesmo de chegarmos,
enquanto noutras ocasies tagarelava o caminho todo, de tal modo
que eu mal conseguia meter uma palavra pelo meio.
     Claro, passar o tempo com Jamie tambm implicava fazer as
coisas de que ela gostava. Embora no fosse s suas aulas de
estudo da Bblia no queria fazer figura de idiota diante dela
fizemos mais duas visitas ao orfanato e, de cada vez que l
amos, ia-me sentindo mais em casa. Uma vez, porm, tivemos de
partir mais cedo, porque ela estava a ficar ligeiramente febril.
At para os meus olhos inexperientes, era evidente que o seu
rosto estava ruborizado.
     Tornmo-nos a beijar, tambm, embora no todas as vezes em
que estivemos juntos, e nem sequer pensei em tentar ir mais
longe. No havia necessidade de o fazer. Havia algo de agradvel
quando a beijava, algo delicado e bom, e isso era suficiente para
mim. Quanto mais o fazia, mais me apercebia de que Jamie tinha
sido incompreendida a vida inteira, no apenas por mim, mas por
toda a gente.
     Jamie no era apenas a filha do Reverendo, algum que lia a
Bblia e se esforava por ajudar os outros. Jamie era tambm uma
rapariga de dezassete anos com as mesmas esperanas e dvidas que
eu. Pelo menos, era isso que pensava, at ela finalmente me
contar.

     Nunca me esquecerei desse dia, porque ela esteve muito
calada, e eu tivera durante o dia inteiro a sensao estranha de
que ela estava a pensar em algo de importante.
     Vnhamos do Cecil's Diner no sbado antes de as aulas
comearem de novo, e acompanhava-a a casa. Era um dia de temporal
com um vento de nordeste violento e cortante, que soprava desde a
manh anterior. Enquanto caminhvamos, tnhamos de nos encostar
muito um ao outro para nos mantermos quentes. Jamie tinha o brao
preso em torno do meu, e caminhvamos devagar, ainda mais devagar
do que habitualmente, quando reparei que ela no se estava a
sentir bem outra vez. Na verdade, ela no tinha querido ir comigo
por causa do tempo, mas eu insisti por causa dos meus amigos.
Estava na altura, lembro-me de pensar, de eles finalmente saberem
de ns. O nico problema era que mais ningum estava no Cecil's
Diner. Como em muitos centros costeiros, no havia muita animao
 beira-mar a meio do inverno.
     Jamie caminhava em silncio e eu sabia que ela estava a
pensar na melhor maneira de me dizer qualquer coisa. Mas no
esperava que comeasse a conversa do modo como o fez.
     - As pessoas acham que eu sou estranha, no acham? - disse
ela finalmente, quebrando o silncio.
     - Que queres dizer? - perguntei, apesar de saber a resposta.
     - As pessoas na escola.
     - No, no acham nada - menti.
     Beijei-lhe a face enquanto apertava ligeiramente o seu brao
um pouco mais junto de mim. Ela encolheu-se, e percebi que, de
alguma forma, a tinha magoado.
     - Sentes-te bem? - inquiri, preocupado.
     - Estou bem - disse ela, recompondo-se e persistindo no
assunto. - Mas fazes-me um favor?
- O que quiseres - respondi.
     - Prometes-me dizer s a verdade a partir de agora? Ou seja,
sempre?
     - Est bem.
     De sbito, ela deteve-me e olhou-me fixamente.
- Ests a mentir-me neste preciso momento?
     No respondi na defensiva, perguntando-me onde ela quereria
chegar.
- Prometo que a partir de agora vou dizer-te sempre a verdade.
De certo modo, quando o disse, sabia que me havia de arrepender.
     Recomemos a andar. Enquanto descamos a rua, olhei para a
mo dela, que estava presa em volta da minha, e vi uma grande
contuso mesmo por debaixo do seu dedo anelar. No fazia a mnima
ideia de onde vinha aquilo, uma vez que no existia no dia
anterior. Por um segundo, pensei que pudesse ter sido causada por
mim, mas depois percebi que nem sequer a tinha tocado naquele
stio.
     - As pessoas acham que eu sou estranha, no acham? -
perguntou de novo.
     A minha respirao saa em pequenas baforadas.
- Sim - respondi por fim. Custou-me ter de diz-lo. - Porqu?
Parecia quase desanimada.
     Pensei no assunto.
- As pessoas tm razes diferentes - disse vagamente,
esforando-me para no ir mais longe.
     - Mas porqu, exactamente?  por causa do meu pai? Ou 
porque eu tento ser boa para as pessoas?
     No queria estar ali.
     - Suponho que sim - foi tudo o que consegui responder.
Senti-me um pouco agoniado.
     Jamie parecia desapontada e caminhmos um pouco mais em
silncio.
- Tambm pensas que eu sou estranha? - perguntou-me.
     A maneira como o disse magoou-me mais do que eu imaginara
possvel. Estvamos quase a chegar a casa dela quando lhe cortei
o passo e a abracei com fora. Beijei-a e, quando nos separmos,
ela olhou para o cho.
     Coloquei o meu dedo por baixo do queixo dela, levantando-lhe
a cabea e fazendo com que olhasse de novo para mim.
- Tu s uma pessoa maravilhosa, Jamie. s linda, s generosa, s
delicada... s tudo o que eu gostaria de ser. Se os outros no
gostam de ti, ou pensam que s estranha, o problema  deles.
     Sob o brilho acinzentado de um dia frio de Inverno, reparei
que o seu lbio inferior tremia. Com o meu acontecia o mesmo, e
percebi subitamente que o meu corao tambm estava a acelerar.
Olhei-a nos olhos, sorrindo com toda a emoo que consegui
reunir, sabendo que no conseguia manter as palavras dentro de
mim por mais tempo.
     - Amo-te, Jamie - disse-lhe. - s a melhor coisa que j me
aconteceu.
     Era a primeira vez que dizia aquelas palavras a algum.
Quando imaginava pronunci-las pensava sempre que iria ser
difcil, mas no foi. Nunca antes tivera tanta certeza de
qualquer coisa.
     Mal disse aquelas palavras, porm, Jamie baixou a cabea e
comeou a chorar, encostando o seu corpo ao meu. Envolvi-a nos
meus braos, perguntando-me o que se passava. Ela estava magra e
percebi, pela primeira vez, que os meus braos a envolviam
completamente. Tinha emagrecido, mesmo na ltima semana e meia, e
lembrei-me que mal tocara na sua comida naquele dia. Continuou a
chorar encostada ao meu peito durante o que me pareceu muito
tempo. No sabia bem o que pensar, ou at se ela sentia o mesmo
que eu. Ainda assim, no lamentei as minhas palavras. A verdade 
sempre a verdade e tinha acabado de lhe prometer que nunca mais
lhe mentiria.
     - Por favor, no digas isso - disse-me ela. - Por favor...
     - Mas  verdade - contrapus, pensando que ela no acreditara
em mim.
     Comeou a chorar ainda mais.
- Desculpa - sussurrou-me entre soluos rasgados. - Peo imensa
desculpa...
     Senti a garganta secar de repente.
     - Por que  que pedes desculpa? - perguntei, subitamente
ansioso por perceber o que estava a incomod-la. -  por causa
dos meus amigos e do que eles vo dizer? J no me importo com
isso, a srio que no. - Apegava-me a qualquer coisa, confuso e
com medo.
     Passou-se outro longo momento at ela deixar de chorar. Por
fim, ergueu os olhos para mim. Beijou-me suavemente, quase como a
respirao de um transeunte na rua de uma cidade, depois passou o
dedo pela minha face.
     - No podes estar apaixonado por mim, Landon - disse ela de
olhos vermelhos e inchados. - Podemos ser amigos, podemos
encontrar-nos... Mas no podes amar-me.
     - Por que no? - gritei roucamente, no percebendo nada
daquilo.
     - Porque - disse ela, por fim, baixinho - estou muito
doente, Landon.
     A ideia era-me to absolutamente estranha que no conseguia
compreender o que ela estava a tentar dizer.
     - E depois? Daqui a alguns dias...
     Um sorriso triste atravessou-lhe o rosto e soube
imediatamente o que ela estava a tentar dizer-me. Os seus olhos
nunca deixaram os meus quando, finalmente, disse as palavras que
me entorpeceram a alma.
- Estou a morrer, Landon.
CAPTULO 12

     Jamie tinha leucemia e sabia disso desde o Vero passado.
     No momento em que ela me falou da doena, o sangue
escoou-se-me do rosto e um feixe de imagens vertiginosas
percorreu trepidante a minha mente. Foi como se, naquele breve
instante, o tempo tivesse subitamente parado e eu compreendesse
tudo o que tinha acontecido entre ns. Compreendi por que quisera
que eu participasse na pea: compreendi por que razo, depois de
termos representado naquela primeira noite, Hegbert lhe
sussurrara com lgrimas nos olhos, chamando-a seu anjo;
compreendi por que razo parecia sempre to cansado e porque se
afligia com as minhas idas constantes l a casa. Tudo se tornou
absolutamente claro.
     Por que quisera que o Natal no orfanato fosse to
especial...
     Por que pensava que no iria para a universidade...
     Por que me havia dado a sua Bblia...
     Tudo fazia perfeito sentido e, ao mesmo tempo, nada parecia
fazer qualquer sentido.
     Jamie Sullivan tinha leucemia...
     Jamie, a querida Jamie, estava a morrer...
     A minha Jamie...
     - No, no - murmurei-lhe - tem de haver algum engano... Mas
no havia e, quando ela me falou de novo, o meu mundo
esvaziou-se. A minha cabea comeou a andar  roda, e agarrei-me
a ela com fora para no perder o equilbrio. Na rua, vi um homem
e uma mulher caminhando na nossa direco, de cabea baixa e as
mos nos chapus para evitar que o vento os levasse. Um co
atravessou rapidamente a rua e parou para farejar os arbustos. Um
vizinho em frente estava em cima de um escadote, desmontando as
suas luzes de Natal. Cenas normais da vida de todos os dias,
coisas em que nunca teria reparado antes, subitamente fazendo com
que me sentisse irritado. Fechei os olhos, querendo que tudo
aquilo desaparecesse.
     - Desculpa, Landon - dizia ela continuamente. No entanto,
era eu quem deveria pedir desculpas. Sei isso agora, mas a minha
confuso impediu-me de dizer fosse o que fosse.
     L no fundo, sabia que essa confuso no iria desaparecer.
Abracei Jamie de novo, no sabendo que mais fazer, as lgrimas
enchendo-me os olhos, tentando ser, mas sem conseguir, o rochedo
de que ela precisava.
     Chormos juntos na rua durante muito tempo, apenas a uma
curta distncia da casa dela. Chormos mais um pouco quando
Hegbert abriu a porta e viu as nossas caras, sabendo
imediatamente que o segredo deles tinha sido revelado. Chormos
quando contmos  minha me, mais tarde, naquele dia. Abraou-nos
e soluou to alto que tanto a empregada como a cozinheira
queriam chamar o mdico porque pensavam que alguma coisa tinha
acontecido ao meu pai. No domingo, Hegbert anunciou a noticia 
sua congregao, foi preciso ajud-lo a voltar para o seu lugar
antes mesmo de ter terminado.
     Todos na igreja se quedaram silenciosos e incrdulos perante
as palavras que tinham acabado de ouvir, como se estivessem 
espera de um desfecho para alguma histria horrvel que ningum
queria acreditar que tivesse sido contada. Depois em unssono, ao
mesmo tempo, comearam as lamentaes.
     -  assim que ela avana - explicou. - Sentimo-nos bem, e
depois, quando o corpo j no consegue continuar a lutar,
comeamos a sentir-nos mal.
     Lutando contra as lgrimas, no podia deixar de pensar na
pea.
     - Mas todos aqueles ensaios... aqueles dias compridos...
talvez no devesses ter...
     - Talvez - atalhou, pegando-me na mo.
     - Participar na pea foi o que me manteve saudvel durante
tanto tempo.

     Mais tarde, disse-me que tinham passado sete meses desde que
fora diagnosticada a doena. Os mdicos tinham-lhe dado um ano de
vida, talvez menos.
     Hoje em dia, talvez pudesse ter sido diferente. Hoje em dia,
poderia t-la tratado. Hoje em dia, Jamie, provavelmente, teria
sobrevivido. Mas isto passou-se h quarenta anos, e eu sabia o
que isso queria dizer.
     S um milagre a poderia salvar.

     Por que  que no me disseste?
     Esta era a nica pergunta que no lhe tinha feito, aquela em
que tinha estado a pensar. No dormira naquela noite e tinha os
olhos ainda inchados. Durante toda a noite, passei por sucessivos
estados de choque, negao, tristeza e raiva, desejando que
aquilo no fosse verdade e rezando para que no passasse de um
terrvel pesadelo.
     Sentmo-nos na sua sala de estar no dia seguinte, o dia em
que Hegbert dera a notcia aos fiis. Estvamos a 10 de Janeiro
de 1959.
     Jamie no parecia to deprimida como eu pensara que ela
fosse estar. Mas tambm j vivia com aquilo h sete meses. Ela e
Hegbert tinham sido os nicos a saber e nenhum deles havia
confiado em ningum, nem em mim. Fiquei magoado com isso e com
medo, ao mesmo tempo.
     - Tinha tomado a deciso - explicou-me - de que seria melhor
no dizer a ningum e pedi ao meu pai para fazer o mesmo. Viste
como as pessoas se comportaram hoje depois da missa. Ningum era
capaz de me olhar nos olhos. Se tivesses s alguns meses para
viver, era isso que querias?
     Sabia que ela tinha razo, mas isso no tornava as coisas
mais fceis. Pela primeira vez na minha vida, estava
completamente sem saber o que fazer.
     Nunca ningum que me fosse prximo tinha morrido, pelo menos
que me lembrasse. A minha av morreu quando eu tinha trs anos e
no me lembro nada dela, ou do servio religioso que se seguiu,
ou at dos anos seguintes. Tinha ouvido histrias, claro,
contadas tanto pelo meu pai como pelo meu av, mas para mim no
passavam de histrias. Era como ouvir sobre casos que poderia ter
lido num jornal, sobre uma mulher qualquer que eu jamais tivesse
conhecido. Embora o meu pai me levasse com ele ao cemitrio
quando ia pr flores na campa da minha av, nunca tive quaisquer
sentimentos associados a ela. Sentia apenas pena das pessoas que
ela tinha deixado para trs.
     Ningum da minha famlia ou do meu circulo de amigos alguma
vez tivera de se confrontar com uma situao daquele gnero.
Jamie tinha dezassete anos, uma criana, quase uma mulher, a
morrer e ainda muito viva, ao mesmo tempo. Eu estava com medo,
mais do que alguma vez estivera, no apenas por ela, mas por mim
tambm. Vivia com o receio permanente de fazer alguma coisa de
errado, de fazer alguma coisa que a ofendesse. Seria correcto
ficar zangado na presena dela? Seria correcto continuar a falar
do futuro? O meu medo tornava a conversa com Jamie difcil,
embora ela fosse paciente comigo.
     O medo, porm, fez-me perceber outra coisa, algo que tornava
tudo aquilo ainda pior. Percebi que nem sequer a conhecera quando
ela era ainda saudvel. Tinha comeado a passar algum tempo com
Jamie apenas uns escassos meses antes, e sentia-me apaixonado por
ela havia dezoito dias apenas. Esses dezoito dias pareciam a
minha vida inteira, mas agora, quando olhava para ela, tudo o que
conseguia fazer era perguntar-me quantos dias mais iramos ter.
     Na segunda-feira, Jamie no apareceu na escola e senti que
ela nunca mais voltaria a percorrer aqueles corredores. Nunca
mais a veria a ler a Bblia sozinha  hora do almoo, nunca mais
veria a sua camisola castanha deslocar-se por entre a multido
quando ela se dirigia para a aula seguinte. Terminara para sempre
a escola, nunca iria receber o seu diploma...
     No me conseguia concentrar nas aulas naquele primeiro dia
de regresso  escola depois das frias de Natal, escutando os
professores a dizer-nos, uns a seguir aos outros, aquilo que a
maior parte de ns j tinha ouvido. As reaces foram semelhantes
s que ocorreram na igreja no domingo. As raparigas choravam, os
rapazes baixavam a cabea. As pessoas contavam histrias sobre
ela como se ela j tivesse morrido. "Que podemos fazer?"
interrogavam-se em voz alta, e procuravam em mim as respostas.
     - No sei - era tudo o que conseguia dizer.
     Sa da escola cedo e fui at  casa de Jamie, faltando s
aulas depois do almoo. Quando bati  porta, Jamie recebeu-me da
maneira como sempre fazia, alegremente e, assim parecia, sem
qualquer preocupao no mundo.
     - Ol, Landon - disse ela - mas que surpresa.
     Quando se inclinou para me beijar, beijei-a tambm, embora
tudo aquilo me desse vontade de chorar.
     - O meu pai no est em casa neste momento, mas podemos
sentar-nos na varanda se quiseres.
     - Como  que podes fazer isso? - perguntei de repente. -
Como  que consegues fingir que est tudo bem?
     - No estou a fingir que est tudo bem, Landon. Deixa-me ir
l dentro buscar o casaco e sentamo-nos c fora a conversar, sim?
     Sorriu para mim,  espera de uma resposta e, por fim,
acenei-lhe com a cabea, os meus lbios comprimidos. Jamie
estendeu a mo e deu-me uma palmadinha no brao.
     - Volto j - disse ela.
     Dirigi-me para a cadeira e sentei-me. Jamie surgiu um
momento depois, trazendo um casaco pesado, luvas e um chapu para
se manter quente. O vento de nordeste j tinha passado e o dia
no estava nem de longe to frio como durante o fim-de-semana. No
entanto, era ainda demasiado frio para ela.
     - No foste  escola hoje.
     Ela olhou para baixo e acenou com a cabea:
- Eu sei.
     - Nunca mais vais voltar? - Apesar de j saber a resposta,
precisava ouvi-la da sua boca.
     - No - respondeu baixinho - no vou.
     - Porqu? J ests assim to doente?
As lgrimas enchiam-me os olhos. Ela estendeu o brao e pegou-me
na mo.
     - No. Hoje, por acaso, at me sinto muito bem.  s porque
quero estar em casa agora de manh, antes de o meu pai ter de ir
trabalhar para o gabinete. Quero passar o mximo de tempo com
ele.
     Antes de morrer, queria ela dizer, mas no o fez. Senti
nuseas e no consegui responder.
     - Quando os mdicos nos contaram pela primeira vez -
continuou - disseram-nos que eu deveria tentar levar uma vida o
mais normal possvel durante o maior perodo de tempo que
pudesse. Disseram que isso me ajudaria a manter as foras.
     - No h nada de normal nisto - disse amargamente.
     - Eu sei.
     - No tens medo?
     Esperava que ela respondesse que no, que dissesse algo de
sensato como diria um adulto, ou que me explicasse que no
podemos pretender compreender os desgnios de Deus.
     Desviou o olhar.
- Tenho - respondeu por fim. - Estou sempre com medo.
     - Ento por que  que no ages como se o tivesses?
     - Ajo. S que o fao em privado.
     - Por que no confias em mim?
     - No - respondeu - porque sei que tambm ests com medo.

    Comecei a rezar por um milagre.
    Parecia que estavam sempre a acontecer e lera acerca disso
nos jornais. Pessoas a recuperar o uso das pernas depois de lhes
ter sido dito que no voltariam a andar, ou sobrevivendo a um
acidente horrvel quando se havia j perdido toda a esperana. De
tempos a tempos, um padre itinerante montava uma tenda nos
arredores de Beaufort, e muita gente ia l para assistir  cura
de pessoas. Fui algumas vezes, e embora presumisse que a maior
parte das curas no passavam de um engenhoso espectculo de
magia, uma vez que eu nunca reconhecia as pessoas que eram
curadas, de vez em quando aconteciam coisas que nem eu conseguia
explicar. O velho Sweeney, o padeiro aqui da cidade, andou na
Primeira Guerra a lutar com uma unidade de artilharia atrs das
trincheiras e os meses de bombardeamentos contra o inimigo
deixaram-no surdo de um ouvido. No fingia, ele realmente no
conseguia ouvir nada e houve alturas, quando ramos midos, em
que tnhamos conseguido fugir com um pozinho de canela graas a
isso. Mas o padre comeara a rezar fervorosamente e, por fim,
colocou a mo num dos lados da cabea de Sweeney. Sweeney deu um
grito forte, fazendo com que as pessoas praticamente saltassem
das cadeiras. Tinha uma expresso apavorada no rosto, como se o
padre tivesse tocado com um atiador em brasa. Mas depois sacudiu
a cabea e olhou em volta, proferindo as palavras Consigo ouvir
de novo.
     Nem ele prprio conseguia acreditar.
- Deus - dissera o padre enquanto Sweeney voltava para o seu
lugar - pode fazer qualquer coisa. Deus escuta as nossas preces.
     Assim, naquela noite, abri a Bblia que Jamie me oferecera
no Natal e comecei a ler. J ouvira ler a Bblia na catequese de
domingo ou na igreja, mas para ser franco, apenas me lembrava dos
pontos altos - as sete pragas ordenadas por Deus para que os
Israelitas pudessem sair do Egipto, Jonas a ser engolido pela
baleia, Jesus caminhando sobre a gua ou a ressuscitar Lzaro de
entre os mortos. Tambm havia outros pontos altos. Sabia que
praticamente em cada captulo da Bblia Deus fazia alguma coisa
de espectacular, mas no os conhecia todos. Como cristos,
aprendamos muito os ensinamentos do Novo Testamento, e no sabia
absolutamente nada de livros como o de Josu, ou de Rute, ou de
Joel. Na primeira noite, li o Gnesis todo, na segunda noite li o
xodo. A seguir veio o Levtico, seguido dos Nmeros e depois do
Deuteronmio. Algumas partes lia mais devagar, especialmente
quando eram explicadas as leis todas. No entanto, no era capaz
de pousar o livro. Era uma compulso que eu no compreendia
inteiramente.
     Era j tarde uma noite, e j estava cansado, quando, por
fim, cheguei aos Salmos. Por um motivo qualquer, sabia que era
aquilo que procurava. J todos ouviram o vigsimo terceiro salmo,
que comea, "O Senhor  o meu pastor, nada me falta", mas queria
ler os outros, uma vez que nenhum deles devia ser mais importante
que os outros. Uma hora depois encontrei uma seco sublinhada
que supus ter sido anotada por Jamie, porque significaria algo de
importante para ela. Dizia assim:
     A Vs clamo, Senhor.'
           meu rochedo no sejais surdo  minha voz,
          No suceda que, no me ouvindo,
          Eu fique semelhante queles que descem ao abismo.
          Ouvi a voz da minha splica, quando clamo por Vs,
          Quando levanto as minhas mos para o Vosso santo
templo.

     Fechei a Bblia com lgrimas nos olhos, incapaz de terminar.
     De alguma maneira, sabia que ela a sublinhara para mim.

     - No sei o que fazer - disse entorpecido, olhando para a
luz fraca do candeeiro do meu quarto. A minha me e eu estvamos
sentados na cama. Aproximava-se o fim de Janeiro, o ms mais
difcil da minha vida, e sabia que em Fevereiro as coisas apenas
iriam piorar.
     - Sei que isto  difcil para ti - murmurou ela - mas no h
nada que possas fazer.
     No me refiro  doena de Jamie, sei que nada posso fazer em
relao a isso. Refiro-me a Jamie e eu.
     A minha me olhou-me, compreensiva. Estava preocupada com
Jamie, mas tambm se preocupava comigo. Prossegui.
     - difcil conversar com ela. Quando olho para ela s
consigo pensar no dia em que no poderei faz-lo. Passo o tempo
todo na escola a pensar nela, desejando poder v-la naquele
instante, mas quando chego a casa dela no sei o que dizer.
     - No sei se h alguma coisa que possas dizer que a faa
sentir-se melhor.
     - Ento que devo fazer?
     Olhou tristemente para mim e ps o brao  volta do meu
ombro.
- Amas a Jamie de verdade, no amas? - perguntou.
     - Com todo o meu corao.
Nunca a vira to triste.
- O que te diz o corao para fazeres?
     - No sei.
     - Talvez - disse ela com ternura - estejas a esforar-te de
mais para o ouvir.

     No dia seguinte, senti-me melhor na presena de Jamie,
embora no muito. Antes de chegar a casa dela, prometera a mim
mesmo nada dizer que a pudesse deprimir que tentaria conversar
com ela como costumava fazer antes e foi exactamente isso que se
passou. Sentei-me no sof e falei-lhe de alguns dos meus amigos e
do que eles andavam a fazer; pu-la a par do xito da equipa de
basquete. Disse-lhe que ainda no tido noticias da UNC, mas que
esperava saber alguma coisa dentro das semanas seguintes.
Disse-lhe que aguardava ansioso a cerimnia de formatura. Falei
como se ela fosse voltar  escola na semana seguinte e sabia que
me mostrava nervoso o tempo todo. Jamie sorria e acenava com a
cabea nas alturas apropriadas, fazendo perguntas de vez em
quando. Mas penso que quando acabei de falar, ambos sabamos que
era a ltima vez que o fazia daquela maneira. Nenhum de ns se
sentia bem com aquela conversa.
     O meu corao dizia-me exactamente a mesma coisa.
     Voltei-me de novo para a Bblia, na esperana de que me
ajudasse.
     - Como te sentes?   - perguntei dois dias depois.
     Por esta altura, Jamie j tinha emagrecido mais. A sua pele
comeava a ganhar um tom ligeiramente acinzentado e os ossos das
mos comeavam a tornar-se visveis atravs da pele. Apresentava
mais hematomas. Estvamos dentro de casa na sala de estar; l
fora fazia demasiado frio para ela.
Apesar de tudo isto, continuava linda.
     - Estou bem - disse ela, sorrindo corajosamente. - Os
mdicos deram-me um remdio para as dores e parece que ajuda um
pouco.
     Vinha-a visitar todos os dias. O tempo parecia estar a
desacelerar e a acelerar exactamente ao mesmo tempo.
     - Precisas de alguma coisa?
     - No, obrigada, estou bem.
     Olhei em volta da sala, depois novamente para ela.
- Tenho andado a ler a Bblia - disse, por fim.
     - Ah sim? - O seu rosto iluminou-se, lembrando-me o anjo que
vira na pea. No conseguia acreditar que tinham passado apenas
seis semanas.
     - Quis que soubesses.
     - Fico contente por me teres dito.
     - Li o Livro de Job ontem  noite - disse eu - em que Deus
ps  prova a f de Job.
     Ela sorriu e inclinou-se para me dar uma palmadinha no
brao, a sua mo macia sobre a minha pele. Era uma sensao to
boa.
- Devias ler outra coisa. Nesse livro, Deus no est nos seus
melhores momentos.
-    Por que lhe teria Ele feito aquilo?
- No sei - respondeu.
-    Nunca te sentes como Job?
     Ela sorriu, uma pequena cintilao nos olhos.
- s vezes.
- Mas no perdeste a tua f?
     - No. - Sabia que no, mas acho que eu estava a perder a
minha.
-    Porque pensas que podes ficar melhor?
-    No - respondeu - porque  a nica coisa que me resta.
Depois disso, comemos a ler a Bblia juntos. Parecia o melhor a
fazer, mas o meu corao, no entanto, dizia-me que talvez
houainda mais alguma coisa.
 noite, fiquei acordado na cama, a pensar no assunto.
     A leitura da Bblia proporcionava algo em que nos podamos
concentrar. De repente, tudo comeou a correr melhor entre ns,
talvez porque no estivesse com tanto receio de fazer alguma
coisa que a ofendesse. O que podia ser mais correcto do que ler a
Bblia? Embora no conhecesse a Bblia to bem como Jamie, penso
que ela apreciou o gesto. Por vezes, quando estvamos a ler, ela
colocava a mo no meu joelho e escutava simplesmente  medida que
a minha voz enchia a sala.
     Outras vezes, sentava-me ao seu lado no sof, olhando para a
Bblia, observando Jamie pelo canto do olho ao mesmo tempo.
Encontrvamos uma passagem ou um salmo, talvez at um provrbio,
e eu perguntava-lhe o que pensava dele. Tinha sempre uma
resposta, e eu acenava com a cabea, pensando no assunto. s
vezes, era ela quem me perguntava o que eu achava, e eu tambm me
esforava, apesar de haver momentos em que fingia e tinha a
certeza de que ela percebia.
-  isso o que realmente significa para ti? - perguntava, e eu
coava o queixo e pensava antes de tentar de novo. s vezes,
porm, era por culpa dela que no conseguia concentrar-me, com a
sua mo no meu joelho.
     Uma sexta-feira  noite levei-a a jantar a minha casa. A
minha me fez-nos companhia durante o prato principal, depois
saiu da mesa e foi sentar-se no escritrio para que pudssemos
ficar a ss.
     Era bom estar ali, sentado com Jamie, e sabia que ela sentia
o mesmo. No saa muito de casa agora, e aquilo era uma mudana
boa para ela.
     Desde que me contou sobre a doena, Jamie deixou de usar o
cabelo apanhado. Era to deslumbrante ainda como da primeira vez
em que a vira com ele solto. Ela estava a olhar para o armrio da
porcelana
- a minha me tinha um daqueles armrios com luzes l dentro
quando estendi o brao por cima da mesa e lhe peguei na mo.
     - Obrigado por teres vindo esta noite - disse eu.
     Voltou novamente a sua ateno para mim.
- Obrigada por me teres convidado.
     Fiz uma pausa.
- Como est o teu pai a aguentar-se?
     Jamie suspirou.
- No muito bem. Preocupo-me muito com ele.
     - Ele ama-te muito, sabes?
     - Sei.
     - E eu tambm - disse eu, e quando o fiz, ela desviou o
olhar. Ouvir-me dizer aquilo pareceu assust-la de novo.
     - Vais continuar a ir visitar-me a minha casa? - perguntou.
- Mesmo mais tarde, sabes, quando...?
     Apertei-lhe a mo, no com muita fora, mas o suficiente
para que ela soubesse que eu falava a srio.
     - Enquanto quiseres que eu v, eu l estarei.
     - No precisamos de continuar a ler a Bblia, se no
quiseres.
     - Sim - disse baixinho - acho que precisamos.
     Ela sorriu.
- s um bom amigo, Landon. No sei o que faria sem ti.
     Apertou-me a mo, retribuindo o favor. Sentada  minha
frente, ela estava radiante.
     - Amo-te, Jamie - declarei de novo, mas desta vez ela no
teve medo. Em vez disso, os nossos olhos encontraram-se por cima
da mesa, e vi os dela comearem a brilhar. Suspirou e desviou o
olhar, passando a mo pelo cabelo. Depois voltou-se de novo para
mim. Beijei-lhe a mo, sorrindo tambm.
     - Tambm te amo - murmurou ela finalmente.
     Eram as palavras que eu havia rezado por ouvir.

     No sei se Jamie falou a Hegbert do que sentia por mim, no
entanto, duvido, pois a sua rotina no mudou em nada. Era seu
hbito sair de casa sempre que eu l ia depois das aulas e isso
continuou. Batia  porta e ouvia Hegbert dizer a Jamie que ia
sair e que estaria de volta dentro de duas horas.
- Est bem, Pap
ouvia-a sempre dizer. Em seguida, esperava que Hegbert abrisse a
porta. Depois de me deixar entrar, abria o armrio do corredor e
retirava em silncio o chapu e o sobretudo, abotoando este
ltimo de cima a baixo antes de sair de casa. O sobretudo era
antiquado, preto e comprido, como um impermevel militar sem
fechos clair, daqueles que estiveram na moda no principio deste
sculo. Raramente falava directamente comigo, mesmo depois de
saber que tnhamos comeado a ler a Bblia juntos.
     Embora ainda no gostasse que eu ficasse dentro de casa
enquanto ele l no estava, continuava a deixar-me entrar. Sabia
que, em parte, isso se devia ao facto de ele no querer que Jamie
se constipasse sentada na varanda, e a nica alternativa era
esperar em casa enquanto eu ali estivesse. Mas penso que Hegbert
precisava de algum tempo sozinho tambm e essa era a verdadeira
razo daquela mudana. No me falou das regras da casa - pude
divis-las nos seus olhos da primeira vez que me permitiu ficar.
Podia permanecer na sala de estar, apenas isso.
     Jamie ainda se movimentava bastante bem, apesar de o Inverno
estar horrvel. Durante a ltima parte de Janeiro, soprou um
vento frio que durou nove dias, seguido de trs dias consecutivos
de fortes chuvadas. Ela no tinha qualquer interesse em sair de
casa com um tempo daqueles, mas, depois de Hegbert sair, eu e ela
podamos ficar na varanda durante alguns minutos para respirar o
ar fresco do mar. Sempre que fazamos isso, dava por mim a
preocupar-me com ela.
     Quando lamos a Bblia, havia gente que batia  porta pelo
menos trs vezes por dia. As pessoas estavam sempre a aparecer,
algumas com comida, outras apenas para cumprimentar. At Eric e
Margaret apareceram para uma visita e, embora Jamie no estivesse
autorizada a deix-los entrar, f-lo de qualquer maneira.
Sentmo-nos na sala de estar para conversar um pouco, os dois
incapazes de a olhar nos olhos.
     Estavam ambos nervosos e precisaram de alguns minutos para,
finalmente, chegarem ao assunto que ali os tinha trazido. Eric
tinha vindo pedir desculpa. Disse que no conseguia imaginar por
que  que, entre todas as pessoas, tudo aquilo tivera de
acontecer a ela. Trazia tambm uma coisa para lhe dar e, colocou
um envelope sobre a mesa, a sua mo a tremer. Tinha a voz
estrangulada enquanto falava, as palavras vibrando-lhe com a
emoo mais sentida que alguma vez o ouvira expressar.
     - Nunca conheci ningum com um corao to grande como o teu
- disse ele a Jamie, a voz perturbada - e apesar de no ter
ligado a isso e de nem sempre ter sido simptico contigo, queria
que soubesses o que sinto. Nunca me arrependi tanto de uma coisa
na minha vida. - Fez uma pausa e limpou disfaradamente o canto
do olho. - s a melhor pessoa que por certo conhecerei em toda a
minha vida.
     Enquanto ele lutava contra as lgrimas e as fungadelas,
Margaret j havia sucumbido s suas e soluava sentada no sof,
incapaz de falar. Quando Eric terminou, Jamie limpou as lgrimas
da face, levantou-se devagar e sorriu, abrindo os braos no que
apenas podia ser descrito como um gesto de perdo. Eric
aproximou-se dela espontaneamente, comeando, por fim, a chorar
enquanto ela lhe afagava ternamente o cabelo, sussurrando-lhe. Os
dois abraaram-se durante muito tempo, e Eric soluou at ficar
demasiado exausto para chorar mais.
     Depois foi a vez de Margaret, e ela e Jamie fizeram
exactamente a mesma coisa.
     Quando Eric e Margaret estavam prontos para partir, vestiram
os seus casacos e olharam para Jamie mais uma vez, com o se para
a recordar para sempre. No tinha qualquer dvida de que queriam
record-la como ela estava naquele momento. Na minha opinio,
estava linda, e sei que eles sentiam o mesmo.
     - Fora - disse Eric quando ia a sair. - Vou rezar por ti.
Todos ns vamos rezar por ti. - Depois, olhou para mim e deu-me
umas palmadinhas no ombro. - Tu tambm - disse, com os olhos
vermelhos. Enquanto os via partir, sabia que nunca tinha sentido
tanto orgulho deles.
     Mais tarde, quando abrimos o envelope, descobrimos o que
Eric tinha feito. Sem nos dizer o que quer que fosse, tinha
recolhido mais de quatrocentos dlares para o orfanato.

     Esperei pelo milagre.
     No aconteceu.
     Em princpios de Fevereiro, o nmero de comprimidos que
Jamie estava a tomar foi aumentado para a ajudar a combater as
dores cada vez mais fortes que sentia. As doses reforadas
provocavam-lhe tonturas e, por duas vezes, caiu quando ia a
caminho da casa de banho, uma vez bateu com a cabea contra o
lavatrio. Depois disso, insistiu para que os mdicos reduzissem
os medicamentos e, com relutncia, eles cederam. Embora ainda
conseguisse andar normalmente, as dores que sentia
intensificaram-se, e mesmo o simples gesto de erguer um brao lhe
provocava esgares. A leucemia  uma doena do sangue, uma doena
que segue o seu curso atravs de todo o corpo de uma pessoa. O
corao vai continuando a bater at a doena o dominar
implacavelmente.
     Mas a doena enfraquecia-lhe tambm o resto do corpo,
consumindo-lhe os msculos, tornando at as coisas simples mais
difceis. Na primeira semana de Fevereiro, perdeu quase trs
quilos, e pouco depois tornou-se-lhe difcil andar, a no ser que
apenas por uma curta distncia. Isto, claro, se ela conseguisse
suportar as dores, o que passado algum tempo j no era possvel.
Regressou aos comprimidos, aceitando as tonturas no lugar das
dores.
     Continuvamos a ler a Bblia.
     Sempre que visitava Jamie, encontrava-a no sof j com a
Bblia aberta, e sabia que agora o pai j tinha de a levar para
ali ao colo se quisssemos continuar. Embora ela no me falasse
no assunto, ambos sabamos exactamente o que isso queria dizer.
     O tempo de que ainda dispunha era pouco, e o meu corao
continuava a dizer-me que havia mais alguma coisa que eu podia
fazer.

     No dia 14 de Fevereiro, dia de S. Valentim, Jamie escolheu
uma passagem da primeira carta aos Corntios que tinha grande
significado para ela. Disse-me que, se alguma vez tivesse
oportunidade, queria que fosse essa a passagem a ser lida no seu
casamento. Era isto o que dizia:

     O amor  paciente, o amor  benigno, no  invejoso; o amor
no se ufana, no se ensoberbece, no  inconveniente, no
procura o seu interesse, no se irrita, no suspeita o mal; no
se alegra com a injustia, mas rejubila com a verdade. Tudo
desculpa, tudo cr, tudo espera, tudo suporta.

     Jamie era a verdadeira essncia dessa descrio.

     Trs dias depois, quando o tempo aqueceu ligeiramente,
mostrei-lhe algo maravilhoso, algo que duvidava que ela tivesse
visto antes, algo que eu sabia que ela quereria ver.
     O Leste da Carolina do Norte  um pedao belo e especial do
pas, abenoado com um clima temperado e, na maior parte, uma
paisagem maravilhosa. Em nenhum outro lugar  isso mais evidente
do que em Bogue Banks, uma ilha mesmo ao largo da costa, perto do
local onde crescemos. Com trinta e nove quilmetros de
comprimento e quase dois de largura, esta ilha  um acaso feliz
da Natureza, estendendo-se de leste para oeste e abraando a
costa a oitocentos metros da praia. Os que ali vivem podem
presenciar o espectculo fantstico do nascer e do pr do Sol o
ano inteiro, ambos desenrolando-se sobre a extenso do majestoso
Oceano Atlntico.
     Jamie, muito agasalhada, encontrava-se de p a meu lado no
extremo do ponto Jron Steamer vendo cair aquela perfeita noite
do sul. Apontei para o horizonte e disse-lhe para esperar.
Reparei nas nossas respiraes, a dela mais rpida do que a
minha. Tive de apoiar Jamie enquanto ali permanecamos - parecia
mais leve do que as folhas de uma rvore cadas no Outono - mas
sabia que ia valer a pena.
     Finalmente a Lua, com as suas crateras, resplandecente,
iniciou a sua aparente ascenso a partir do mar, projectando um
prisma de luz atravs das guas que escureciam devagar,
dividindo-se em mil partes distintas, cada uma mais bonita do que
a outra. Exactamente ao mesmo tempo, o Sol encontrava-se com o
horizonte na direco oposta, pintando o cu de vermelho,
corde-laranja e amarelo, como se o Paraso acima tivesse
subitamente aberto as suas portas e deixado toda aquela beleza
evadir-se dos seus confins divinos. O oceano transformava-se em
prata dourada  medida que as cores volveis se reflectiam nele,
as guas encrespando-se e cintilando com a mudana de luz, uma
viso gloriosa, quase como no principio do mundo.
     O Sol continuou a cair, projectando o seu brilho to longe
quanto a vista podia alcanar, antes de por fim, lentamente,
desaparecer sob as ondas. A Lua continuava a sua vagarosa
escalada, tremeluzindo em mil diferentes tons de amarelo, cada
vez mais plidos, antes de finalmente se tornar da cor das
estrelas.
     Jamie observou tudo isto em silncio, o meu brao apoiando-a
com firmeza, a sua respirao ofegante e fraca. Quando o cu, por
fim, escureceu e as primeiras luzes cintilantes comearam a
aparecer no distante firmamento do sul, tomei-a nos braos.
Beijei-lhe delicadamente ambas as faces e depois, por fim, os
lbios.
-  isto - disse eu - exactamente o que sinto por ti.

     Uma semana depois, as deslocaes de Jamie ao hospital
tornaram-se mais regulares, se bem que ela insistisse em no
querer passar l a noite. - Quero morrer em casa - era tudo o que
dizia. Dado que os mdicos nada podiam fazer por ela, no tinham
alternativa seno fazer-lhe as vontades.
     Pelo menos, por enquanto.

- Tenho andado a pensar nestes ltimos meses - disse-lhe.
     Estvamos sentados na sala, de mos dadas enquanto lamos a
Bblia. O seu rosto estava mais magro, o cabelo comeando a
perder o brilho. Os olhos, no entanto, aqueles meigos olhos
azuis, estavam to bonitos como sempre.
     Penso que nunca antes vira algum to bonito.
     - Tambm tenho andado a pensar ao longo deste tempo
retorquiu.
     - Tu sabias, desde o primeiro dia na aula de Miss Garber,
que eu ia fazer a pea, no sabias? Quando olhaste para mim e
sorriste?
     Acenou com a cabea.
- Sabia.
     - E quando te pedi para ires comigo ao baile, fizeste-me
prometer no me apaixonar por ti, mas sabias que eu ia
apaixonar-me, no sabias?
     Jamie tinha um brilho travesso nos olhos.
- Sim.
     - Como  que sabias?
     Encolheu os ombros sem responder, e permanecemos alguns
instantes a observar a chuva batendo contra as vidraas.
     - Quando te dizia que rezava por ti - disse ela, finalmente
- de que  que achas que estava a falar?

     O avano da sua doena continuava, acelerando  medida que
se aproximava o ms de Maro. Jamie estava a tomar mais
medicamentos para as dores e sentia-se demasiado enjoada para
conseguir segurar muita comida no estmago sem vomitar. Estava a
enfraquecer, e tudo indicava que teria de ir para o hospital para
ficar, apesar de ela no querer.
     Foi o meu pai e a minha me que mudaram tudo isso.
     O meu pai tinha vindo de carro de Washington, partindo a
toda a pressa apesar de o Congresso estar ainda reunido em
sesso. Parece que a minha me lhe telefonou dizendo-lhe que se
no viesse para casa imediatamente, podia ficar em Washington
para sempre.
     Quando a minha me lhe contou o que estava a acontecer, o
meu pai disse que Hegbert nunca aceitaria a sua ajuda, que as
feridas eram demasiado profundas, que era tarde de mais para
fazer fosse o que fosse.
     - Isto no tem nada que ver com a tua famlia, ou at com o
Reverendo Sullivan, ou com o que quer que tenha acontecido no
passado - disse-lhe ela, recusando-se a aceitar a resposta dele.
- Trata-se do nosso filho, que, por acaso, est apaixonado por
uma jovem que precisa da nossa ajuda. E tu vais encontrar uma
maneira de a ajudar.
     No sei o que  que o meu pai disse a Hegbert, ou que
promessas teve de fazer, ou quanto  que a coisa toda acabou por
custar. Tudo o que sei  que de um momento para o outro Jamie se
viu rodeada de equipamentos caros, foram-lhe proporcionados todos
os medicamentos de que precisava e era vigiada por duas
enfermeiras a tempo inteiro enquanto um mdico vinha examin-la
vrias vezes ao dia.
     Jamie iria poder ficar em casa.
     Naquela noite, chorei ao ombro do meu pai pela primeira vez
na minha vida.
     - Arrependes-te de alguma coisa? - perguntei a Jamie. Estava
na cama sob as cobertas, um tubo aplicado a um dos braos
providenciava o medicamento de que precisava. Tinha o rosto
plido, o corpo leve como uma pena. Mal conseguia andar e quando
o fazia tinha de ser apoiada por outra pessoa.
     - Todos ns nos arrependemos de alguma coisa, Landon - disse
ela - mas eu tive uma vida maravilhosa.
     - Como  que podes dizer isso? - reclamei, incapaz de
esconder a minha angstia. - Com tudo o que te est a acontecer?
     Ela apertou-me a mo, muito levemente, sorrindo-me com
ternura.
     - Isto - admitiu, olhando em volta do quarto - podia ser
melhor.
     Apesar das minhas lgrimas, ri-me, sentindo-me logo culpado
por o ter feito. Devia estar a apoi-la, no o contrrio. Jamie
continuou.
     - Mas alm disso, tenho sido feliz, Landon. Tenho mesmo.
Tive um pai especial que me ensinou acerca de Deus. Posso olhar
para trs e saber que no podia ter tentado ajudar mais as outras
pessoas do que ajudei. - Fez uma pausa e olhou-me nos olhos. -
At me apaixonei e fui correspondida.
     Beijei-lhe a mo quando ela disse aquilo, depois encostei-a
 minha face.
     - No  justo - disse eu.
     Ela no respondeu.
     - Ainda ests com medo? - perguntei.
     - Estou.
     - Tambm estou - disse eu.
     - Eu sei. Sinto muito.
     - O que  que eu posso fazer? - perguntei desesperado. -J
no sei o que devo fazer.
     - Ls para mim?
     Fiz que sim com a cabea, no sabendo, no entanto, se seria
capaz de chegar  pgina seguinte sem desatar a chorar.
Por favor, Deus, diz-me o que fazer!
entanto, se seria chorar.

     Estvamos sentados no sof no escritrio, o fogo ardendo na
lareira diante de ns. Naquela tarde, Jamie adormecera enquanto
eu lia e, sabendo que ela precisava de descansar, sa
silenciosamente do quarto. Mas antes de o fazer, beijei-a com
ternura na face. Foi um beijo inofensivo, mas Hegbert entrara no
quarto naquele momento, e senti emoes conflituosas nos seus
olhos. Olhou para mim, sabendo que eu amava a sua filha mas
tambm que eu quebrara uma das regras da sua casa, ainda que no
verbalizadas. Se ela estivesse bem, sabia que ele nunca mais me
teria autorizado dentro de casa. Dirigi-me ento sozinho  porta.
     Na verdade, no o podia censurar. Descobri que o tempo que
estava com Jamie esvaziava-me da energia para me sentir magoado
com o comportamento dele. Se Jamie me ensinara alguma coisa
durante aqueles ltimos meses, foi que era atravs dos actos -
no dos pensamentos ou das intenes que se julgavam os outros, e
eu sabia que Hegbert me deixaria entrar em sua casa no dia
seguinte. Estava a pensar em tudo isto sentado no sof ao lado da
minha me.
     - Me? - disse mais tarde naquela noite.
     - Sim.
- Acha que temos um objectivo na vida? - perguntei.
     Era a primeira vez que lhe fazia uma pergunta daquele
gnero, mas aqueles eram tempos extraordinrios.
     - No tenho a certeza se percebo o que ests a perguntar
disse ela, franzindo o sobrolho.
     - Quer dizer - como  que se sabe o que se deve fazer?
     - Ests a falar-me de quando ests com Jamie?
     Acenei que sim com a cabea, embora estivesse ainda confuso.
- Mais ou menos. Sei que estou a proceder bem, mas... falta
alguma coisa. Passo o tempo com ela e conversamos e lemos a
Bblia, mas...
Fiz uma pausa e a minha me completou-me o pensamento.
     - Achas que deverias estar a fazer mais?
     Acenei afirmativamente.
     - No sei se existe mais alguma coisa que possas fazer,
querido - disse ela delicadamente.
     - Ento por que  que me sinto desta maneira?
     Aproximou-se um pouco mais de mim no sof e olhmos para as
chamas juntos.
     - Penso que  porque ests com medo e sentes-te impotente e,
embora estejas a tentar, as coisas continuam a tornar-se cada vez
mais difceis para os dois. E quanto mais tentas, mais inteis
parecem as coisas.
     - H algum modo de fazer com que deixe de me sentir assim?
Abraou-me e puxou-me para mais perto dela.
- No - respondeu baixinho - no h.

     No dia seguinte, Jamie no conseguiu levantar-se da cama.
Como estava agora to fraca, at para andar apoiada, lemos a
Bblia no seu quarto.
     Adormeceu passados alguns minutos.

     Passou-se outra semana e Jamie estava cada vez pior, o seu
corpo mais enfraquecido. Presa ao leito, parecia mais pequena,
quase como uma criana de novo.
     - Jamie - implorei - que posso fazer por ti?
     Jamie, a minha querida Jamie, dormia horas a fio agora,
mesmo enquanto falava com ela. No se mexia ao som da minha voz;
a respirao era ofegante e fraca.
     Sentei-me ao lado da cama e fiquei a observ-la durante
muito tempo, pensando em como a amava. Segurei a mo dela junto
ao meu corao, sentindo a magreza dos seus dedos. Parte de mim
quis chorar ali mesmo mas, em vez disso, pousei de novo a sua mo
na cama e voltei-me para a janela.
     Por que razo, questionei-me,  que o meu mundo se havia
subitamente desmoronado daquela maneira? Porque tinha tudo aquilo
acontecido a uma pessoa como ela? Perguntei-me se havia uma lio
maior a tirar do que estava a acontecer. Seria tudo, como diria
Jamie, simplesmente parte dos desgnios de Deus? Quis Deus que me
apaixonasse por ela? Ou foi isso resultado da minha livre
vontade? Quanto mais tempo Jamie dormia, mais sentia a sua
presena a meu lado e, no entanto, as respostas quelas perguntas
no eram mais claras do que antes.
     L fora, as ltimas gotas de chuva da manh tinham cado.
Parecia que ia ser um dia escuro, mas naquele momento o sol do
fim de tarde estava a romper por entre as nuvens. No fresco ar
primaveril, vi os primeiros sinais da Natureza regressando 
vida. As rvores l fora estavam a brotar, as folhas esperando
pelo momento certo para se desenrolarem e se abrirem para mais
outra estao estival.
     Na mesa de cabeceira ao lado da cama, vi a coleco de
objectos que Jamie conservava mais perto do corao. Havia
fotografias do pai, segurando-a quando era ainda criana, no seu
primeiro dia no jardim de infncia; havia uma coleco de cartes
que as crianas do orfanato lhe haviam mandado. Suspirando,
peguei neles e abri o carto que estava no topo da pilha.
     Escrito a lpis, dizia simplesmente:

     Por favor fica melhor depressa. Tenho saudades tuas.

     Tinha sido assinado por Lydia, a menina que adormecera ao
colo de Jamie na vspera de Natal. O segundo carto expressava os
mesmos sentimentos, mas o que realmente me chamou a ateno foi o
desenho que o rapaz, Roger, tinha feito. Tinha desenhado um
pssaro, voando sobre um arco-ris.
     Contendo as lgrimas, fechei o carto. No suportava olhar
mais, e quando coloquei de novo a pilha sobre a mesa, reparei num
recorte de jornal, ao lado do copo de gua. Peguei no artigo e vi
que era sobre a pea de Natal, publicado no jornal de domingo
depois da segunda representao. Por cima do texto, vi a nica
fotografia que nos tinha sido tirada.
     Parecia h tanto tempo. Aproximei o artigo de mim. Enquanto
o observava, lembrei-me da maneira como me senti quando a vi
naquela noite. Olhando de perto para a sua imagem, procurei algum
sinal de que ela suspeitasse do que iria acontecer. Sabia que
sim, mas a sua expresso naquela noite nada revelava. Em vez
disso, via apenas uma alegria resplandecente. Por fim, suspirei e
pus o recorte de lado.
     A Bblia estava ainda aberta na pgina onde eu interrompera
a leitura e, apesar de Jamie estar a dormir, senti necessidade de
ler mais um pouco. Acabei por descobrir outra passagem. Era isto
que dizia:
          No digo isto como quem manda. mas para provar;
comparando-a  dos outros, a sinceridade do vosso amor.

     As palavras trouxeram-me as lgrimas de novo e, no momento
em que ia comear a chorar, o seu significado tornou-se-me
subitamente claro.
     Deus tinha, finalmente, respondido  minha pergunta e, de
repente, soube o que tinha a fazer.

     No podia ter chegado  igreja mais depressa, mesmo de
carro. Meti por todos os atalhos possveis, atravessando a correr
os quintais das casas, saltando cercas, e atravessando uma
garagem, e saindo pela porta do lado. Tudo o que aprendera sobre
a cidade quando criana foi aproveitado naquele momento, e apesar
de nunca ter sido grande atleta, naquele dia estava imparvel,
impelido pelo que tinha de fazer.
     No me preocupei com o aspecto que teria quando l chegasse
porque suspeitava que Hegbert tambm no se importaria. Quando
entrei, por fim, na igreja, reduzi o passo, tentando recuperar o
flego enquanto me dirigia para as traseiras, na direco do seu
gabinete.
     Hegbert olhou para cima quando me viu e percebi por que 
que ele ali estava. No me convidou a entrar, desviou
simplesmente o olhar, mais uma vez em direco  janela. Em casa,
lidava com a doena da filha fazendo limpezas e arrumaes quase
obsessivamente. Ali, porm, os papis estavam espalhados pela
secretria, os livros dispersos pelo gabinete como se ningum o
tivesse arrumado h semanas. Percebi que aquele era o lugar onde
ele pensava em Jamie; aquele era o lugar para onde Hegbert vinha
chorar.
     - Reverendo? - chamei baixinho.
No respondeu, mas entrei de qualquer modo.
     - Gostaria de estar sozinho - resmungou.
     Estava com um aspecto velho e exausto, to estafado como os
israelitas descritos nos Salmos de David. Tinha o rosto cado, e
o cabelo tornara-se mais ralo desde Dezembro. At mais do que eu,
talvez, ele tinha de manter o nimo na presena de Jamie, e a
tenso que isso provocava estava a esgot-lo.
     Fui direito  sua secretria, e ele olhou-me de relance
antes de se voltar de novo para a janela.
     - Por favor - disse-me, num tom derrotado, como se nem
tivesse foras para me confrontar.
     - Gostaria de falar consigo - insisti. - No o incomodaria
se no fosse muito importante.
     Hegbert suspirou, e eu sentei-me na cadeira onde me tinha
sentado antes, quando lhe perguntara se ele me deixaria levar
Jamie a jantar fora na vspera do Ano Novo.
     Escutou-me enquanto eu lhe disse o que tinha em mente.
     Quando terminei, Hegbert virou-se para mim. No sei o que
estava a pensar, mas felizmente no disse que no. Em vez disso,
limpou os olhos com os dedos e voltou-se para a janela.
     At ele, penso eu, ficara demasiado chocado para poder
falar.

     Corri novamente, mais uma vez sem me cansar. O meu objectivo
dava-me a fora de que precisava para continuar. Quando cheguei a
casa de Jamie, entrei de rompante pela porta sem bater, e a
enfermeira que estava no quarto dela veio c fora ver o que
causara aquele rebulio. Antes que ela pudesse falar, falei eu.
     - Ela est acordada? - perguntei, eufrico e apavorado ao
mesmo tempo.
     - Est - respondeu a enfermeira cautelosamente. - Quando
acordou, quis saber onde voc estava.
     Pedi desculpa pelo meu aspecto desalinhado e agradeci-lhe.
Depois perguntei-lhe se no se importava de nos deixar a ss.
Entrei no quarto de Jamie, encostando a porta atrs de mim. Ela
estava plida, muito plida, mas o seu sorriso deixou-me perceber
que ainda continuava a lutar.
     - Ol, Landon - disse ela, a voz fraca - obrigada por teres
voltado.
     Peguei numa cadeira e sentei-me perto dela, tomando a sua
mo na minha. V-la ali deitada fez-me sentir alguma coisa a
apertar-se com fora no fundo do meu estmago, fazendo quase com
que me apetecesse chorar.
     - Estive aqui mais cedo, mas estavas a dormir.
     - Eu sei... Desculpa. Parece que j no consigo evit-lo.
     - No faz mal, de verdade.
     Ergueu ligeiramente a mo de cima da cama, e eu beijei-a,
depois inclinei-me para a frente e beijei-lhe a face tambm.
     - Amas-me? - perguntei-lhe.
     Ela sorriu.
- Sim.
     - Queres que eu seja feliz? - Enquanto lhe fazia a pergunta,
senti o corao comear a acelerar.
     - Claro que quero.
     - Fazes-me um favor, ento?
     Ela desviou o olhar, a tristeza atravessando-lhe as feies.
- No sei se ainda consigo.
     - Mas se pudesses, fazias?
     No consigo descrever satisfatoriamente a intensidade
daquilo que estava a sentir naquele momento. Amor, raiva,
tristeza, esperana e medo, redemoinhando juntos, aguados pelo
nervosismo que sentia. Jamie olhou curiosa para mim, e a minha
respirao tornou-se mais fraca. De repente, sabia que nunca
sentira tanto por uma pessoa como naquele momento. Enquanto a
olhava nos olhos, a simples compreenso desse facto fez-me
desejar pela milionsima vez poder fazer com que tudo aquilo
cessasse. Se tivesse sido possvel teria dado a minha vida pela
dela. Queria falar-lhe dos meus pensamentos, mas o som da sua voz
silenciou subitamente as emoes dentro de mim.
     - Sim - respondeu por fim, a voz fraca mas de alguma forma
ainda cheia de esperana. - Fazia.
     Controlando-me por fim, beijei-a de novo, depois levei a
minha mo ao seu rosto, passando ternamente os dedos pela sua
face. Maravilhei-me com a suavidade da sua pele, a doura que vi
nos seus olhos. Mesmo naquele momento, ela era perfeita.
     Comecei de novo a sentir um n na garganta, mas como disse,
sabia o que tinha de fazer. J que tinha de aceitar que no
estava ao meu alcance poder cur-la, o que queria era dar-lhe
algo que ela sempre desejara.
Era o que o meu corao me dissera para fazer h muito tempo.
     Jamie, compreendi ento, j me tinha dado a resposta de que
estivera  procura, que o meu corao precisara de encontrar.
Dera-me a resposta quando estvamos sentados  porta do
escritrio de Mr. Jenkins, na tarde em que lhe fomos falar da
pea para os rfos.
     Sorri ternamente, e ela retribuiu o meu afecto apertando-me
levemente a mo, como se confiasse em mim e no que eu estava
prestes a fazer. Encorajado, inclinei-me para mais perto dela e
respirei fundo. Foram ento estas as palavras que saram de
dentro de mim.
- Casas comigo?
CAPTULO 13

     Aos dezassete anos, a minha vida mudou para sempre.
     Ao caminhar pelas ruas de Beaufort quarenta anos mais tarde,
recordando aquele ano da minha vida, lembro-me de tudo to
intensamente como se ainda estivesse a desenrolar-se diante dos
meus olhos.
     Lembro-me de Jamie a responder afirmativamente  minha
pergunta ansiosa e de como ambos comemos a chorar. Lembro-me de
falar com Hegbert e com os meus pais, explicando-lhes o que
precisava de fazer. Pensaram que s queria faz-lo por Jamie, e
os trs tentaram dissuadir-me, especialmente quando perceberam
que Jamie tinha dito que sim. O que eles no compreendiam, e tive
de tornar isso claro, era que eu precisava de o fazer por mim.
     Estava apaixonado por ela, to profundamente apaixonado que
no me importava que ela estivesse doente. No me importava que
no fssemos ter muito tempo juntos. Nada disso tinha qualquer
importncia para mim. A nica coisa que importava era fazer o que
o meu corao me dizia que estava certo. Na minha mente, era a
primeira vez que Deus falara directamente comigo e tinha a
certeza de que eu no iria desobedecer.
     Sei que alguns de vs podem interrogar-se se eu no estaria
a fazer aquilo por compaixo. Alguns dos mais cnicos podem at
interrogar-se se eu no o teria feito porque, em qualquer caso,
ela iria morrer em breve, e eu no me estaria a comprometer
muito. A resposta a ambas as perguntas  no. Teria casado com
Jamie Sullivan independentemente do que acontecesse no futuro.
Teria casado com Jamie Sullivan se o milagre por que estava a
rezar se tivesse, de sbito, realizado. Sabia disso no momento em
que a pedi em casamento, e ainda o sei hoje.
     Jamie era mais do que a mulher que eu amava. Naquele ano,
Jamie ajudou-me a tornar-me o homem que sou hoje. Com a sua mo
firme, mostrou-me como era importante ajudar os outros; com a sua
pacincia e generosidade mostrou-me o verdadeiro sentido da vida.
A sua alegria e optimismo, mesmo na doena, foi a coisa mais
admirvel que alguma vez testemunhei.
     Fomos casados por Hegbert na igreja Baptista, o meu pai ao
meu lado como padrinho. Isso foi outra coisa que ela fez. No Sul,
 tradio ter o nosso pai a nosso lado, mas para mim aquela
tradio no teria tido muito significado antes de Jamie entrar
na minha vida. Jamie aproximara-me novamente do meu pai; de uma
maneira ou de outra tinha tambm conseguido sarar algumas das
feridas entre as nossas famlias. Depois do que ele tinha feito
por mim e por Jamie, sabia que, afinal, o meu pai era algum com
quem poderia sempre contar e com o passar dos anos a nossa
relao continuou a fortalecer-se at  sua morte.
     Jamie tambm me ensinou o valor do perdo e o poder de
transformao que ele proporcionava. Percebi isso no dia em que
Eric e Margaret foram a casa dela. Jamie no guardava qualquer
rancor. Vivia a sua vida de acordo com os ensinamentos da Bblia.
     Jamie no foi apenas o anjo que salvou Tom Thornton, foi o
anjo que nos salvou a todos.

     Tal como ela tinha desejado, a igreja estava a abarrotar de
gente. Estavam mais de duzentos convidados l dentro, e mais
ainda esperavam l fora, quando nos casmos a 12 de Maro de
1959. Porque nos casmos to em cima da hora, no houve tempo
para fazer muitos preparativos, e as pessoas esforaram-se ao
mximo para tornar o dia to especial quanto possvel, aparecendo
simplesmente para nos apoiar. Vi toda a gente que conhecia - Miss
Garber, Eric, Margaret, Eddie, Sally, Carey, Angela, at Lew e a
sua av - e no havia olhos sem lgrimas na igreja quando se
comeou a ouvir msica anunciando a entrada da noiva. Embora
Jamie estivesse muito fraca e no tivesse saido da cama h duas
semanas, ela insistiu em caminhar ao longo da nave da igreja para
que o pai a pudesse conduzir ao altar.
-  muito importante para mim, Landon - dissera. - Faz parte do
meu sonho, lembras-te?
Embora pensasse que isso seria impossvel, concordei acenando com
a cabea. No podia deixar de admirar a sua f.
     Eu sabia que ela tencionava levar o vestido que tinha usado
na Playhouse na noite do espectculo. Era o nico vestido branco
disponvel assim de repente, embora soubesse que agora lhe
ficaria mais largo. Pensava em como Jamie iria parecer com o
vestido, quando o meu pai, que esperava comigo em frente da
assembleia, colocou a mo no meu ombro.
     - Estou orgulhoso de ti, filho.
     Acenei com a cabea.
- Tambm estou orgulhoso de si, pai.
Era a primeira vez que lhe dizia aquelas palavras.
     A minha me estava na fila da frente, limpando repetidamente
os olhos com o leno aos primeiros acordes da Marcha Nupcial. As
portas abriram-se, e vi Jamie sentada na sua cadeira de rodas,
com uma enfermeira ao lado. Com todas as foras que lhe restavam,
Jamie levantou-se trmula enquanto o pai a apoiava. Em seguida,
Jamie e Hegbert comearam a percorrer lentamente a nave da
igreja, enquanto todos na igreja observavam em silncio e
maravilhados. A meio do percurso, Jamie pareceu subitamente
cansar-se. Pararam enquanto ela recuperava o flego. Os seus
olhos fecharam-se, e, por um instante, pensei que ela no fosse
capaz de continuar. Sei que no decorreram mais do que dez ou
vinte segundos, mas pareceu muito mais tempo. Por fim, ela acenou
levemente com a cabea. Depois, Jamie e Hegbert comearam de novo
a andar, e eu senti o meu corao dilatar-se de orgulho.
     Aquele tinha sido, lembro-me de assim ter pensado, o
percurso mais difcil que algum jamais tivera de realizar.
     Em todos os sentidos, um percurso inesquecvel.
     A enfermeira levou a cadeira de rodas para a frente e Jamie
e o pai caminhavam na minha direco. Quando ela, por fim, chegou
ao p de mim, ouviram-se suspiros de alegria e toda a gente
comeou espontaneamente a bater palmas. A enfermeira colocou a
cadeira de rodas em posio, e Jamie sentou-se de novo, exausta.
Com um sorriso, ajoelhei-me para estar ao mesmo nvel que ela. O
meu pai fez, ento, o mesmo.
     Hegbert, depois de beijar Jamie na face, pegou na sua Bblia
para iniciar a cerimnia. Agora, concentrado apenas no servio
religioso, parecia ter abandonado o papel de pai para se ocupar
de algo mais distante, onde poderia controlar as suas emoes. No
entanto, podia v-lo a lutar ali mesmo  nossa frente. Colocou os
culos na ponta do nariz e abriu a Bblia, depois olhou para
Jamie e para mim. Hegbert estava muito mais alto do que ns e
percebi que ele no tinha previsto que fssemos ficar a um nvel
mais baixo. Por um momento, permaneceu de p, quase confuso,
depois, surpreendentemente, decidiu ajoelhar-se tambm.
     Hegbert comeou a cerimnia  maneira tradicional, lendo em
seguida a passagem da Bblia que Jamie me mostrara uma vez.
Sabendo como ela estava fraca, pensei que ele quisesse pronunciar
os votos imediatamente a seguir, mas mais uma vez Hegbert me
surpreendeu. Olhou para Jamie e para mim, depois para a
assembleia e de novo para ns, como se  procura das palavras
certas.
     Aclarou a garganta, e a sua voz elevou-se para que todos a
pudessem ouvir. Foi isto o que disse:
     - Como pai, devia dar a minha filha, mas no sei se sou
capaz de o fazer.
     A assembleia quedou-se silenciosa. Hegbert fez-me sinal com
a cabea, pedindo-me para ser paciente. Jamie apertou-me a mo em
sinal de apoio.
     - No posso dar Jamie assim como no posso dar o meu
corao. Mas o que posso fazer  deixar que outra pessoa partilhe
da alegria que ela sempre me deu. Que Deus vos abenoe aos dois.
     Foi ento que ele ps de lado a Bblia. Estendeu os braos,
oferecendo-me a mo, e eu tomei-a, completando o crculo.
     Em seguida, conduziu-nos atravs das nossas promessas
solenes.
O meu pai entregou-me a aliana que a minha me me ajudara a
escolher, e Jamie deu-me uma tambm. Enfimo-las nos dedos.
Hegbert observou-nos enquanto o fazamos e, quando, por fim,
estvamos prontos, declarou-nos marido e mulher. Beijei Jamie
ternamente enquanto a minha me comeava a chorar, depois segurei
a mo de Jamie na minha. Diante de Deus e de todos, prometi o meu
amor e a minha devoo, na doena e na sade, e nunca me senti
to bem em relao a coisa alguma.
     Aquele foi, lembro-me, o momento mais maravilhoso da minha
vida.

     Passaram-se j quarenta anos, e ainda me lembro de tudo o
que aconteceu naquele dia. Posso estar mais velho e sensato,
posso ter vivido outra vida desde ento, mas sei que quando,
finalmente, chegar a minha vez, as recordaes desse dia sero as
imagens finais que flutuaro pela minha mente. Ainda a amo, e
nunca deixarei de usar a minha aliana. Em todos estes anos,
nunca senti vontade de o fazer.
     Respiro fundo, inalando o ar fresco da Primavera. Apesar de
Beaufort ter mudado e de eu ter mudado, o ar no mudou.  ainda o
mesmo ar da minha infncia, o ar dos meus dezassete anos e quando
o expiro, volto a ter cinquenta e sete anos. Mas isso no tem
importncia. Sorrio ligeiramente, olhando para o cu, sabendo que
existe uma coisa que ainda no vos disse: acredito agora que os
milagres podem acontecer.

Fim
